Maurice Jarre morre aos 84 anos

Compositor, famoso pela parceria com David Lean, fez trilha para filmes que marcaram época em mais de 50 anos de carreira

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

Ao longo de sua carreira, de mais de 50 anos, Maurice Jarre compôs as trilhas de 150 filmes. Em fevereiro, o Festival de Berlim homenageou-o com um Urso de Ouro especial. Jarre chegou de cadeira de rodas, mas estava animado e lúcido. Lembrou as parcerias, especialmente a mais famosa delas, com o cineasta inglês David Lean. Para ele, Jarre fez a música de Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A Filha de Ryan e Passagem para a Índia. O primeiro, o segundo e o quarto lhe valeram seus três Oscars da Academia de Hollywood. Só isso já deveria fazer com que o compositor fosse grato ao grande diretor, mas Jarre disse que o mais importante não foram os prêmios. "David me deu sua amizade, e isso não tem preço."Maurice Jarre morreu ontem pela manhã em Los Angeles. A causa da morte não foi anunciada. Na França, onde nasceu - Maurice-Alexis Jarre, em Lyon (13/9/1924) -, as rádios imediatamente começaram a tocar O Tema de Lara, de Doutor Jivago, a mais popular de suas composições. Na sua justificativa para o prêmio especial, Dieter Kosslick, presidente da Berlinale, havia dito que os compositores, em geral, vivem à sombra dos grandes cineastas, mas Maurice Jarre conseguiu chegar ao primeiro plano. O Tema de Lara faz parte da vida mesmo de quem nunca assistiu ao épico intimista de David Lean. E até o leitor do romance de Boris Pasternak hoje deve ouvir de fundo a música famosa, quando o escritor descreve a personagem em seu livro.Em Berlim, Maurice Jarre contou mais uma vez como teve de se matricular no Conservatório de Paris escondido de seu pai, que tinha outros planos para o filho. Estudou percussão, composição musical e harmonia. Além das trilhas para cinema, compôs para peças de teatro e também balés, cantatas e óperas. Aos três Oscars e ao Urso de Ouro especial soma quatro Globos de Ouros, dois Bafta e outros tantos Grammys e Ascaps, o prêmio da Associação de Compositores de Hollywood. Jarre começou compondo trilhas na França. Um dos melhores trabalhos dessa fase inicial foi a trilha que fez para Les Yeux Sans Visage, clássico fantástico de Georges Franju, de 1960, com Pierre Brasseur, Alida Valli e Juliette Mayniel. O filme conta a história desse médico meio monstro, que arranca a pele de belas mulheres para seus experimentos de enxerto e transplante - o que ele busca é devolver a pele à filha, que sofre de uma doença rara. O clima é macabro, mas a fama do filme é de cult. O sucesso foi tão grande que Jarre foi um dos três compositores contratados pelo superprodutor Sam Spiegel para fazer a trilha de Lawrence da Arábia. A ideia era usar os três, mas David Lean optou por Jarre e lhe pediu que estendesse seus temas.O deserto nunca foi mais esplendoroso na tela e a imagem de Freddie Young, também premiada com o Oscar, é indissociável da magia da música de Jarre. O tema de Lara, eternamente associado ao castelinho de neve em que o dr. Jivago vive sua história de amor com a personagem de Julie Christie; a cena da tempestade de A Filha de Ryan; a melancolia dos temas de Passagem para a Índia - o cinema de David Lean não seria tão impressionante nem seus épicos tão intimistas sem o aporte do músico. Jarre também compôs para filmes de Alfred Hitchcock (Topázio), Luchino Visconti (Os Deuses Malditos), John Huston (Roy Bean, o Homem da Lei) e Volker Schlondorff (O Tambor). Ele sempre defendeu que a música fosse parte integrante da estrutura de um filme. "Se a música está presente apenas para destacar uma cena de ação ou de amor, ela não é realmente interessante", dizia. "É como colocar açúcar demais num bolo."Até porque estudou percussão no conservatório, Maurice Jarre gostava de utilizá-la em suas trilhas, chegando a incluir instrumentos étnicos como a cítara em Lawrence of Arabia ou a fujara em O Tambor. Nos anos 80 incluiu arranjos eletrônicos em sua música, e compôs uma trilha totalmente eletrônica para o filme O Ano em Que Vivemos em Perigo, de Peter Weir. Coincidentemente, ou não, um de seus três filhos, o tecladista Jean-Michel Jarre, virou compositor de música eletrônica. Os outros dois filhos de Maurice Jarre também atuam no cinema - são o roteirista Kevin Jarre e a desenhista de produção Stéphanie Jarre. Foi casado quatro vezes, uma delas, a união mais breve, entre 1965 e 67, com a atriz Dany Saval. Num comunicado oficial, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que os trabalhos para os quais Jarre contribuiu fazem parte da história do cinema para sempre.

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