Maturidade refletida em forte carga emocional

O violoncelista Antonio Meneses ofereceu no Cultura Artística leitura diferenciada de célebre obra de Elgar

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Foi muito hábil a escolha da Pequena Suíte, obra para o rádio escrita em 1950 pelo polonês Witold Lutoslawski, para dar início ao concerto de terça-feira da Filarmônica de Varsóvia, no Teatro Cultura Artística. As inúmeras intervenções solistas nos quatro breves movimentos dessa peça de inspiração folclórica são ideais para ilustrar, de saída, as qualidades dos naipes orquestrais, e Antoni Wit, em sua leitura, tirou bom partido disso.Ainda não se trata do Lutoslawski mais típico: é uma partitura em que se cruzam influências ora de Stravinski e Bartók, ora do Grupo dos Seis. Mas Witt fez dela uma interpretação rica em coloridos, explorando os contrastes entre as texturas camerísticas e os ocasionais rompantes da massa orquestral.Desde o breve recitativo do solista com que se abre o Adagio do Concerto em Ré Menor op. 85, de Edward Elgar, impôs-se a sonoridade quente do violoncelo de Antonio Meneses e a elevada temperatura emocional de uma interpretação madura e refletida. Nisso o secundou muito bem Antoni Wit, que soube traduzir a nobre e contida paixão que há num belo tema como o do Moderato, exposto pelas violas e retomado pelo solista. Ao virtuosismo da seção final do Allegro molto, que Meneses realizou de forma vertiginosa, seguiu-se a ampla melodia do Adagio, declamada com pudico lirismo, e que o encadeia ao final mediante um outro breve recitativo que remete ao início da obra.Aqui, no Allegro ma non troppo, o mais longo dos quatro movimentos, em forma de rondó livre, foi onde Meneses e Wit mais afirmaram uma individualidade de visão que afastou bastante a sua leitura de um determinado padrão a que nos habituou, por exemplo, a clássica versão de Jacqueline du Pré e John Barbirolli. A energia e elasticidade com que foi conduzido esse movimento, que se conclui de maneira abrupta, fez o violoncelo e a orquestra associarem-se numa realização que constituiu bela homenagem aos 150 anos do nascimento de Elgar, comemorados este ano.Toda a angústia e desolação de que está impregnada a Sinfonia nº 6 em si menor op. 74 ''''Patética'''', de Piotr Tchaikóvski, foi transmitida pela interpretação tensa de Wit à frente da Filarmônica de Varsóvia. Tiveram, aqui, papel predominante, as cordas, de uma sonoridade típica de escola eslava, capazes de fazer vibrar o que há de lancinante no belo segundo tema do Adagio-Allegro non troppo, que se choca com o motivo do coral ortodoxo de réquiem, enunciado pelos trombones.Mas o ponto alto da op. 74, tal como Wit a regeu, foi a tentativa neurótica de expressar, no scherzo, uma alegria que soa falsa, mecânica e vazia. A eletricidade incontida desse exasperado Allegro molto vivace fez com que a platéia irrompesse num espontâneo aplauso de meio de concerto - que suscitou a cara feia de alguns puristas mas, àquela altura, era uma reação mais do que merecida.Depois disso, a descida ao inferno do Adagio lamentoso, com sobressaltos de paroxismo que levam progressivamente ao tema descendente final, que cai sobre a peça como uma mortalha - uma verdadeira elegia para si mesmo, se pensarmos nas interpretações mais recentes dadas às circunstâncias que cercaram a morte de Tchaikóvski - foi feita por Antoni Wit com uma força extraordinária.Após um encerramento desse porte, soaram quase desnecessários os dois extras - uma das Danças Eslavas de Dvorák e uma mazurca de Stanislaw Moniuszko, o criador da Escola Nacional polonesa - com que Wit agradeceu ao aplauso entusiasmado da platéia.

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