Maturidade que dá força a mudanças

Terceiro longa de Suzana Amaral, Hotel Atlântico, está no Festival de Toronto

Elaine Guerrini, TORONTO, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2009 | 00h00

Na casa dos 70 anos, Suzana Amaral não gosta de precisar a sua idade. "Para que fazer sensacionalismo disso? Artista não tem idade", disse, rindo. "Basta olhar para a minha cara para saber que já vivi um pouco."'' A diretora dos premiados A Hora da Estrela e Uma Vida em Segredo já viveu o suficiente para saber "que a vida não faz muito sentido, que é bobagem buscar uma lógica nas situações que nos acontecem". E essa é justamente a ideia por trás de seu terceiro longa-metragem, Hotel Atlântico, selecionado para o 34º Festival Internacional de Cinema de Toronto, que se estende até o dia 19.

O road movie filmado em várias cidades de São Paulo e em Santa Catarina integra a seção Masters, voltada a mestres do cinema, como o título já adianta. Também participam este ano o francês Alain Resnais e o português Manoel Oliveira, entre outros. "É um prazer estar em tão boa companhia", contou Suzana, que lança seu filme comercialmente no dia 13 de novembro no Brasil. Antes disso, participa do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo.

Hotel Atlântico lotou a sala Isabel Bader Theatre, com capacidade para 400 pessoas, na noite do dia 11, no Canadá. E a julgar pela reação do público que compareceu à première mundial do título inspirado no livro homônimo de João Gilberto Noll, a diretora atingiu seu objetivo, causando o estranhamento que desejava. "Queria que o filme só começasse efetivamente na cabeça da plateia quando apagassem as luzes do cinema." E foi o que aconteceu. "Pelo interesse do público e o teor das perguntas, após a sessão, deu para perceber que eles conseguiram penetrar na história, onde o subtexto é muito mais importante."

Para contrastar com suas obras anteriores, mais convencionais, intimistas e femininas, Suzana decidiu mergulhar no absurdo da vida, sem a preocupação de tecer uma trama propriamente dita. Júlio Andrade encarna um ator desempregado, sem nome, que embarca numa jornada existencial. Ao longo de 107 minutos, ele simplesmente encontra personagens que pouco ou nada ajudam a explicar quem ele é (vividos por Mariana Ximenes, João Miguel e Gero Camilo). E as situações são as mais imprevisíveis e desconexas. "Busquei deliberadamente uma narrativa fragmentada, fria, masculina e sem emoção"'', disse, completando que nunca esteve tão disposta a arriscar atrás das câmeras. "A idade madura é a melhor fase para uma guinada de 180 graus."

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