Matrinxã, piraputanga e pirarucu

Dedicada a Eduardo MartinsNa Nova Dutra, um acidente da altura de Santa Isabel me fez esperar 40 minutos. Eu pensando: chego a Caçapava a tempo? Estava a caminho para abrir a semana de comemorações do aniversário da cidade e tenho horror a atrasos. Enfim, andamos. Sete da noite, o cine Vogue vazio. Sala desativada, foi recuperada pela Secretaria de Cultura, não virou igreja de exorcistas. À noite ameaçava chuva, à tarde um temporal havia inundado bairros. Quem viria? Fui comer um sanduíche e, ao voltar, surpresa, o cinema estava quase lotado e na primeira fila vi o prefeito Carlos Vilela e o secretário de Cultura Fabrício Correia.Nós que rodamos o Brasil sabemos que se trata de raridade. Eles promovem, nunca vão. Em Caçapava, promoveram e me suportaram bravamente. Aliás, a dupla vem investindo em cultura e mesmo com verbas apertadas promovem concertos, exposições, palestras, feiras, mostras de cinema, interessados principalmente na cultura do Vale do Paraíba. Como o resgate da Festa de São João, uma devoção popular, que coloca em cena até o carro de boi em extinção. Por sinal, a secretaria realizou um belo vídeo O Canto do Carro de Boi. Em vez de lamentar e reclamar que não existe verba, nem lei Rouanet, e outras desculpas, tem gente que mete a cara e faz. Quem quer faz, quem não quer reclama!Caçapava, cidade menina dos olhos da Ana Maria Martins, doce criatura, fica no epicentro de uma região, a do Vale do Paraíba, que já deu cinco imortais para a Brasileira de Letras: Miguel Reale (também foi da Paulista), de São Bento do Sapucaí, Cassiano Ricardo (também APL), de São José dos Campos, Osvaldo Cruz, de São Luís do Paraitinga, Francisco de Assis Barbosa, de Guaratinguetá, e o barão Homem de Melo, de Pindamonhangaba.Nem bem cheguei, parti. Para Cuiabá, a fim de participar do Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante. Paulo Caruso e eu falaríamos sobre a crônica brasileira. Por que Caruso o humorista, cartunista? Porque cada desenho seu é uma crônica de nosso tempo. Foi um prazer enorme estar ao lado dele enquanto eram exibidos seus cartuns satíricos, sarcásticos, percucientes. Um deles, antológico, o Capela Severina. Inspirado na Capela Sistina do Vaticano, Caruso construiu uma pintura mordaz que demole usos e maus costumes da política brasileira. A platéia delirou e, como a maioria era formada por estudantes de comunicação, ele deu uma aula de como desenhar e contar sobre tudo o que está aí. Organizados por Luis Nunes e Beatriz Gonçalves, esses encontros vêm traçando um panorama da cultura brasileira e têm sido levados Brasil afora. Não, não, o CCBB não funciona apenas no Rio de Janeiro e São Paulo, ele se estende, se ramifica. Quem quer fazer faz!Nossa mesa foi mediada pelo jornalista Lorenzo Falcão que revelou uma qualidade rara em mediadores. Seguro, passava a palavra de um para o outro, controlava o tempo, ficava atento ao auditório. Mediadores, em geral, precisam demonstrar cultura, conhecimento, ficam excitados para aparecer mais do que os palestrantes, fazem longos discursos, querem ser as estrelas. Lorenzo foi preciso, tranqüilo, não tem insegurança, deixou Paulo e eu à vontade, não tínhamos um competir afoito. Mais do que isso, no fim ele nos levou a uma Peixaria, a Lélis. Quando ouvi falar em rodízio de peixes, arrepiei. Rodízios são tenebrosos, os garçons de minuto em minuto enfiam coisas em nosso prato. Quebrei a cara! Na Lélis os garçons trabalham no ritmo lento, olham para seu prato, sabem quando oferecer. Assim, degustei pintado, pacu, piraputanga, pirarucu e matrinxã com vagar. Peixes que se dissolviam na boca, que vinham recheados com farofa de couve, que chegavam acompanhados com creme de palmito, ou o creme de banana, ou farofa de banana. Indo a Cuiabá, anotem o nome, Lélis. Para encerrar, uma dose de canjinjin, licor local, à base de vinho e muitas ervas, com um sabor indefinível, mas que nos colocou de bem com o céu e a terra. Caruso desenhou a caricatura do garçom que nos servia; logo veio outro, ele também queria; vieram todos, ele passou meia hora fazendo caricaturas que fascinaram o pessoal, até a gerente e o segurança quiseram. Admirável é a rapidez do cartunista, o olhar, a linha exata e engraçada. Um traço faz diferença!Ao acordar, no dia seguinte, andei pelo centro. Oito da manhã e o termômetro marcava 38 graus. Na livraria Janina queria um livro de Ricardo Guilherme Dicke, dos maiores escritores brasileiros. Guimarães Rosa, Jorge Amado, Hilda Hilst e Glauber Rocha adoravam Dicke. Encontrei apenas um exemplar, o último de uma edição local de Deus de Caim, premiado no Walmap em 1967, um dos maiores prêmios literários da época. O romance que derrotou o meu Bebel Que a Cidade Comeu que concorria também.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.