Masp recebe doação de peças africanas pela primeira vez

Museu de São Paulo expõe 43 obras da cultura iorubá

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2014 | 19h30

Há quase um século, em 1915, o erudito alemão Carl Einstein (1885-1940) lançou um livro fundamental para o entendimento da arte africana, Negerplastik, publicado no Brasil há três anos pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina. Nele, Einstein mostra como o preconceito do colonizador europeu relegou a segundo plano uma arte que serviu de referência para os primeiros artistas cubistas. Einstein já conhecia, então, os quadros cubistas de Bracque, Picasso e Juan Gris, pois visitara a França oito anos antes da publicação de seu livro.

Um século depois, seu estudo é evocado no Museu de Arte de São Paulo (Masp), que inaugurou na última sexta-feira a exposição No Coração da África, com 43 das 49 peças africanas da cultura iorubá doadas pelo professor de física Manoel Robilotta. A evocação de Negerplastik vem a propósito da tela cubista Busto de Homem (1909), de Picasso (1881-1973), pertencente ao acervo do museu, que evidencia a proximidade do cubismo com as peças africanas e está também em exposição no Masp.

"A cultura africana está intimamente vinculada às origens da arte moderna ocidental”, afirma o curador do Masp, Teixeira Coelho, citando como exemplo aquele que é considerado o marco inicial do movimento cubista, o óleo Les Demoiselles d’Avignon, pintado justamente em 1907, ano em que Carl Einstein visitou a França. Lá, o historiador de arte acabou descobrindo mais semelhanças entre a fragmentação cubista e a estética da escultura africana do que talvez desejassem os europeus. Prova disso são as máscaras africanas de cortes abruptos que substituem os rostos das senhoritas do bordel de Picasso, muito parecidas com as máscaras Gueledê, da região de Anago, no Benin.

"Como o Masp é um museu com vocação universalista, era tempo de abrir mais amplamente sua coleção para o continente ao lado”, diz o curador do Masp, comemorando a doação das esculturas africanas, que reforçam a parte etnográfica do museu. Voltado para a arte europeia, o Masp ganhou em 2011 a mais valiosa coleção de arte asiática do Brasil, doada pelo diplomata Fausto Godoy.

A coleção de Godoy ainda não foi exibida ao público. Com mais de 2 mil objetos, ela deverá ficar permanentemente exposta no espaço hoje ocupado pelo restaurante do Masp, o que pode demorar anos. É preciso, antes, resolver a questão jurídica do prédio anexo ao museu. Retomada a obra de reforma, parte do prédio-sede será ocupada por essas coleções.

Todas as peças da exposição de arte africana aberta na última sexta-feira foram esculpidas no século passado em países que integram a cultura iorubá (Nigéria, Benin, Costa do Marfim). São todas anteriores a 1960 e representam o cosmo iorubá com alguns dos seus 410 orixás. Exu, o orixá mensageiro, que faz a ponte entre os homens encarnados e outros orixás, ocupa lugar de destaque no subsolo do Masp, onde está instalada a mostra. Nela destacam-se igualmente as figuras dos ibejis, gêmeos típicos dos povos de língua iorubá, do norte da Nigéria e Daomé, que, no sincretismo religioso brasileiro, respondem pelos nomes dos santos Cosme e Damião.

O curador Teixeira Coelho chama a atenção para um par de figuras Edan da Nigéria, pertencentes a uma sociedade secreta conhecida como Ògbóni. Elas representam os elementos masculino e feminino nesse culto a Yiámi Ayé e Edan, sua filha e representante. É uma oportunidade única de ver uma das figuras normalmente oculta da vista dos não iniciados do culto à Mãe-Terra. Outra escultura que se destaca na mostra é uma figura com o machado cerimonial de Ogum, orixá protetor, patrono dos ferreiros e senhor dos caminhos.

DO CORAÇÃO DA ÁFRICA

Masp. Avenida Paulista, 1.578; tel. 3251-5644. De 3ª a dom., 10 h/18 h; 5ª, 10 h/20 h. R$ 15 e R$ 7 (grátis às terças).

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