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Masp exibe sua rara coleção de Degas

Exibida pela última vez há 14 anos, ela tem como figura central a bailarina de 14 anos esculpida pelo pintor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2020 | 18h10

Conhecido principalmente por suas pinturas e esculturas de bailarinas, o francês Edgar Degas (1834-1917) não foi um artista de gênero. Antes, por sua condição social, Degas, filho de banqueiro, teve acesso às inovações tecnológicas de sua época – a fotografia e o cinema – e se tornou ele mesmo um pioneiro fotógrafo hoje estudado e exposto em grandes museus (o Metropolitan dedicou uma mostra à produção fotográfica do artista, em 1998). Agora, 14 anos depois de uma exposição no Masp que exibiu pela última vez o conjunto integral de esculturas de Degas (O Universo de um Artista, 2007), o museu volta a mostrar, a partir desta sexta, 4, esse acervo de 73 bronzes (bailarinas, cavalos, cenas de toalete feminina) e mais uma tela e dois desenhos com atitude renovada: o foco não é seu virtuosismo técnico, mas sua interação com a dança e as classes populares.

Para acompanhar a retrospectiva, o Masp encomendou à artista Sofia Borges uma série de fotos das esculturas de Degas que examinam em detalhes os movimentos de suas modelos, em particular os da pobre bailarina de 14 anos que é o centro da coleção de bronzes do Masp. O museu recebeu em doação, em 1954, todas as 73 esculturas agora exibidas e praticamente relegadas ao esquecimento no crepúsculo da vida de Degas – ele mantinha essas peças em seu estúdio no boulevard de Clichy, apenas trabalhadas em cera (essas esculturas só foram fundidas após a morte do artista).

Os curadores da exposição, o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, e Fernando Oliva, encomendaram a nove especialistas estudos sobre Degas para publicar o livro que acompanha a mostra. Um ponto em comum entre os estudiosos é que, a exemplo do acadêmico Richard Kendall, todos reconhecem uma estreita correspondência entre essas pequenas figuras de bronze e suas obras bidimensionais. A mostra busca explorar todas as faces desse artista que, aristocrata, frequentou bordeis e registrou cenas íntimas entre prostitutas e seus clientes, ao mesmo tempo em que sua fascinação pelo movimento o levou a pintar bailarinas etéreas, retratos de família e paisagens.

 Fotografias. As 15 fotografias de Sofia Borges produzidas especialmente para a exposição dialogam com as esculturas de bailarinas de Degas, uma espécie de marca registrada do pintor, tanto como as maçãs de Cézanne ou as garrafas de Morandi. É uma grande mostra, aberta num momento de apreensão por causa do recrudescimento da pandemia do covid-19. Tanto que alguns projetos para 2021 – como a retrospectiva de Gauguin – já foram adiados para os anos seguintes. “Planejamos um ano mais austero’, revela o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa.

A mostra de Degas gira em torno do universo da dança, como todas as exposições anteriores do Masp deste ano – de Hélio Oiticica a Trisha Brown. É o seu eixo temático, mas há nela pequenas esculturas de cavalos, cenas de toalete feminina (em telas e obras tridimensionais), menos as monotipias que Degas executou após ser introduzido na técnica por Ludovic Lepic – monotipia é o processo de gravura feito com tinta sobre uma chapa de metal que resulta numa obra única. Degas produziu mais de 300 monotipias entre 1870 e 1880, algumas marcadas por seu denso conteúdo erótico (ele, como Toulouse-Lautrec, frequentou bordéis e retratou cenas de sexo entre prostitutas e seus clientes).

A figura central da exposição, aliás, é uma bailarina de 14 anos eternizada (em 1880) numa pequena escultura em bronze – ela também posou nua para Degas, o que levou a especulações sobre as relações do artista com as pobres bailarinas da Ópera de Paris, que se prostituíam para complementar a renda familiar. Seja como for, ao ser exibida pela primeira vez, em 1881, a pequena provocou escândalo pelo realismo daquela escultura modelada em cera, vestida com um tutu real e cabelos verdadeiros como era hábito na escultura hispânica do século 16 ou nos presépios napolitanos (a versão em bronze da mostra conserva apenas o tutu e uma fita). Huysmans, o decadentista autor do livro Às Avessas, ao ver a obra, decretou que Degas, ao romper com a tradição, era o principal escultor moderno europeu.

O propósito da exposição, porém, longe de mostrar o virtuosismo técnico de Degas, é localizar o artista em seu tempo, marcado pelo advento da fotografia e do cinema. Seu fascínio pelo movimento, que se tornou uma obsessão, justifica seu interesse pelo mundo do balé. Mais da metade de sua produção, que ultrapassa 2 mil obras, retrata “ballerinas” – sinônimos de vagabundas para a categoria social de Degas. Não é só movimento que torna sua obra dinâmica, atemporal, mas seu elogio à transgressão, logo ele que era um conservador. Filho de banqueiro, aristocrata, colecionador de arte (obras de Ingres, Delacroix, Cézanne) Degas cresceu com os preconceitos de sua classe, o que não impediu, observa o curador Fernando Oliva, “que ele registrasse a vida de empregadas e o cotidiano de banqueiros judeus com o mesmo empenho, embora com repulsivo antissemitismo”.

Misógino, misantropo e reservado, Degas mantinha distância de Toulouse-Lautrec, que, também aristocrata, era um tanto vulgar para seu gosto. Mesmo que suas bailarinas exibam graça e delicadeza, Degas parecia interessado não no lado glamouroso do balé, mas nos gestos, nos movimentos e na vida interior dessas meninas marginalizadas por sua condição social. Há várias cenas de toalete feminina que vão além da mera reprodução das gravuras japonesas de Utamaro e outros artistas do Ukiyo-e, que Degas apreciava, igualmente dedicados a retratar cenas de higiene íntima e cuidados com os cabelos. São, no entanto, cenas de opressão feminina, de mulheres obrigadas a seduzir e servir de objetos para voyeurs.

Contudo, diz o curador Fernando Oliva, não há registros de abusos sexuais de Degas nos documentos reunidos pelo Masp para um futuro catálogo que vai trazer textos de nove especialistas internacionais na obra do artista. Há uma relação complexa e contraditória de Degas com as descobertas tecnológicas do século 19, por exemplo. Degas foi um fotógrafo pioneiro e ousado, que fez inúmeros autorretratos com o mesmo propósito de autoconhecimento de Rembrandt. Foi ficando cego e isolado, afastando-se dos amigos. O Metropolitan dedicou uma exposição a Degas fotógrafo em 1998, que mostra como alguns nus femininos registrados por sua câmera deram origem a pinturas, pasteis e esculturas. Com o advento do cinema, talvez tenha concluído que a nova tecnologia registrava melhor e com mais fidelidade os movimentos. Deve ter se sentido anacrônico como o pintor do filme Un Dimanche à la Campagne, de Bertrand Tavernier: em suma, um impressionista atropelado pela tecnologia.

Inicialmente, a exposição Degas foi pensada como uma mostra internacional com empréstimo de obras de museus importantes da Europa e EUA. Mas veio a pandemia e com ela as dificuldades de trânsito – de pessoas e obras de arte. O curador Adriano Pedrosa lembra que a figura do ‘courier’, que acompanha as obras dos museus em viagens, foi praticamente tirada de cena à medida que a pandemia avançlou.

A alternativa foi reunir 76 obras do próprio Masp e encomendar textos de nove especialistas para o livro catálogo Degas: Dança, Política e Sociedade, que deve ser lançado ainda este mês. A abordagem de sua obra por meio de uma perspectiva social e crítica, segundo Pedrosa, acompanha as novas diretrizes do Masp. O museu tem aberto espaço para artistas e segmentos marginalizados da sociedade, o que converge para a própria atitude do aristocrata Degas quando pintava ou esculpia tipos populares ou renegados, como as prostitutas.

A própria bailarina de 14 anos, que é o centro da coleção de bronzes do Masp, era filha de uma lavadeira e de um alfaiate sem recursos. Uma das irmãs da pequena bailarina Marie van Goethem foi presa por roubar um cliente no cabaré Chat Noir. Esse episódio teria encerrado definitivamente a carreira da garota, que foi dispensada da Ópera de Paris. É provável que tenha seguido o mesmo caminho da irmã, levada à prostituição pela mãe.

 

 

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