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Masp apresenta a história da arte vista pelas mulheres

Duas exposições que serão abertas nesta quinta, 22, mostram obras produzidas por artistas de séculos passados e por contemporâneas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2019 | 03h00

Observe bem a tela maior (Une Loge aux Italiens, 1874) reproduzida abaixo deste parágrafo: é provável que tenha pensado no pintor impressionista Édoaurd Manet (1832-1883), mas a pintura foi feita por sua única aluna, Eva Gonzalès (1849-1883), morta no mesmo ano que o mestre. Quase todos os que passam diante dessa tela no Museu D’Orsay podem jurar que se trata de uma pintura de Manet, mas o fato é que, a exemplo das artistas selecionadas para a exposição Histórias das Mulheres: Artistas Antes de 1900, aberta partir de hoje (para convidados), no Masp, Eva Gonzalès, que produziu muito, teve sua obra dispersa após sua morte, aos 34 anos, de parto.

Com curadoria de três mulheres, a norte-americana Julia Bryan-Wilson e as brasileiras Lilia Schwarcz e Mariana Leme, a mostra Histórias das Mulheres foi pensada como uma introdução a uma outra exposição aberta simultaneamente, Histórias Feministas, que tem como curadora Isabella Rjeille. Na primeira estão artistas em atividade até o fim do século 19, desde a insurgente Artemisia Gentileschi (1593-1653), que foi estuprada pelo assistente de seu pai pintor – e pintava melhor que o progenitor – até a maior pintora impressionista americana, Mary Cassat (1844-1926). Além delas a mostra reúne pintoras brasileiras como Abigail de Andrade (1864-1890) e Berthe Worms (1868-1937), que se destacaram numa época cheia de restrições a artistas mulheres.

Para se ter uma ideia, o mesmo tema de Eva Gonzalès na tela anteriormente citada foi usado por Renoir numa tela do mesmo ano (La Loge, 1874) e submetido aos organizadores da primeira exposição impressionista. Renoir foi aceito. Eva ficou de fora – e, convenhamos, sua tela é melhor. Injustiças contra as mulheres artistas podem ser atestadas nas duas exposições. A curadora Julia Bryan-Wilson aponta três peças de artesanato têxtil posicionadas em frente à tela de Eva Gonzalès. São tapeçarias anônimas do século 19. Uma delas se parece tanto com as pinturas do irlandês Sean Scully que custa a crer no apagamento dos nomes de suas autoras da história da arte.

Resgatar e expor essas obras, contestando a história oficial da arte ocidental, leva à segunda exposição temática deste ano no Masp, Histórias Feministas. O museu organiza, desde 2016, mostras com eixos conceituais bem definidos: a infância, a sexualidade e as histórias afro-atlânticas. Segundo a curadora da mostra, Isabella Rjeille, ela é um desdobramento do ciclo de 2017, dedicado a explorar questões ligadas à sexualidade.

Trata-se de uma exposição com artistas contemporâneas como a paulistana Ana Mazzei, 39, a argentina Carla Zaccagnini, 46, a inglesa Carolina Caycedo, 41, as americanas Ellen Lesperance, 48, e Tuesday Smillie, 39, e a jovem carioca Marcela Cantuária, de 28 anos. Há entre elas transexuais como Tuesday Smillie, que mora no Brooklin (NY) e faz (boa) arte política. A curadora selecionou alguns banners de sua militância transfeminista, um deles dedicado à escritora Toni Morrison, morta em agosto.

O destino das mulheres é comentado por Ana Mazzei e Regina Parra em placas que reproduzem diálogos de Ofélia em Hamlet, personagem associado à histeria, lembra a curadora. Enquanto Hamlet finge sua loucura, Ofélia enlouquece, de fato, dividida entre dois mundos. É o caso de muitas artistas da mostra. “É interessante como o século 21 anuncia um tipo de militância diferente dos anos 1960, artistas que usam o corpo como instrumento de reivindicação de seus direitos”, observa a curadora. E é em torno desse signo que gira a mostra. Necessária.

 

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