Silvestre Silva
Silvestre Silva

Masp abre retrospectiva de Rubem Valentim

O pintor baiano, morto em 1991, também é lembrado em mostras da Caixa Cultural e da Galeria Berenice Arvani, que também abre hoje (13) exposição sua

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 Novembro 2018 | 06h00

O pintor baiano Rubem Valentim (1922-1991) foi um artista comparável a Tarsila e Volpi, como observou o crítico Mário Pedrosa num texto de 1967. Foi também um homem político, de formação marxista, e ao mesmo tempo, um homem religioso, um ‘obá’ dedicado ao culto dos orixás que, na infância, batizado como católico, frequentava igrejas e terreiros. Como definir, então, uma pintura sincrética que, contemporânea, não abjurou a tradição mítica ancestral? Como definir esse artista que usou (e transformou) signos dos cultos africanos e, ao mesmo tempo, recorreu às lições do construtivismo, especialmente o russo – e, em particular, o suprematismo de Malevitch? Afinal, os relevos monocromáticos do artista baiano são uma prova dessa filiação.

O público, antes de classificá-lo como um personagem contraditório, poderá arriscar uma ou mais respostas após ver a exposição retrospectiva Rubem Valentim: Construções Afro-atlânticas, que o Masp (Museu de Arte de São Paulo) abre no dia 13. Trata-se de uma mostra completa da trajetória do pintor, que exigiu um ano e meio de dedicação do curador Fernando Oliva, esforço recompensado pelo resgate de obras raras nas mãos de colecionadores e instituições, entre elas pinturas da série Emblemas Poéticos de Cultura Afro-Brasileira que participaram da Bienal de São Paulo de 1976.

Valentim já é um pintor internacionalmente consagrado. Há obras suas em grandes coleções lá fora, seja na Europa ou até na África (no Museu de Marrakesh, por exemplo). Em 2010, a Tate organizou uma exposição na Inglaterra em que Rubem Valentim dividia espaço com Picasso e o escultor romeno Brancusi, entre outros. Na mostra, uma composição de Valentim, de 1961, que representa o machado duplo de Xangô, foi vista pela curadora Tanya Barson como um símbolo de resistência cultural contra o colonizador, embora reconhecendo que a pintura do mestre, que fundiu o modernismo europeu branco com a sintaxe artística africana, resultou numa cultura híbrida difícil de definir.

Essa miscigenação está bem resumida nessa composição do machado duplo de Xangô, que corta dos dois lados, e no próprio Manifesto Ainda que Tardio, redigido pelo artista em 1976, em que Valentim revela ter descoberto nos instrumentos simbólicos e nas ferramentas do candomblé um caminho para sedimentar uma poética visual brasileira, um tipo de ‘fala’ capaz de transmitir aos contemporâneos as mensagens da ancestralidade africana, reprimidas pelo colonizador branco. Mário Pedrosa chamou essa apropriação de um ato tão importante para a arte como foi o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que acaba de completar 90 anos. Com ele concordam o artista Bené Fonteles, que prepara um livro sobre Valentim, e o curador Fernando Oliva, que vê no manifesto de Valentim “um gesto político, antropofágico”, contra o apagamento da memória cultural africana. Valentim deglutiu o construtivismo europeu e transformou-o à sua maneira.

Há 92 exemplos (80 pinturas e 12 esculturas) dessa ‘antropofagia’ moderna na retrospectiva desse pintor que Mário Pedrosa definiu como “o primeiro abstrato da Bahia”. Nascido em Salvador, numa família sem recursos, ele aprendeu seu ofício com um pintor de paredes. A conselho de sua orientadora espiritual, largou a profissão de dentista para se dedicar à pintura. Ao chegar ao Rio, em 1957, descobriu os pontos riscados da umbanda e as diferenças entre ela e o candomblé baiano, justamente numa época em que se deu a cisão entre concretos paulistas e neoconcretos cariocas (firmada no manifesto de 1959). Valentim não tomou partido, até porque não se considerava concreto. A exposição do Masp tem obras desse período.

“Dividimos a exposição em quatro núcleos para mostrar a evolução dessa pintura, das primeiras experiências figurativas, em 1949, às obras que conquistam o espaço tridimensional, nos anos 1960, passando pelo construtivismo de fatura brasileira, entre 1957 e 1963, e peças realizadas no período europeu, entre 1964 e 1966”, conta o curador. Valentim morou na Itália, onde conheceu o crítico Giulio Carlo Argan e participou da Bienal de Veneza. Além das pinturas, a curadoria localizou seis cadernos do artista com croquis que iluminam a obra de Valentim, cujos trabalhos mais caros, hoje, chegam a custar algo em torno de R$ 500 mil. Paralelamente à mostra do Masp, a Galeria Berenice Arvani abre hoje, às 19h, a exposição Mãe África, que tem pinturas de Rubem Valentim e fotos de Pierre Verger. E a Caixa Cultural mantém aberta até 16 de dezembro a mostra Rubem Valentim: Construção e Fé, que reúne 70 obras do pintor, cobrindo três décadas de sua produção com os ‘avatares geométricos’ do arco e flecha de Oxossi, da faca de Ogum e do duplo machado de Xangô.

RUBEM VALENTIM: CONSTRUÇÕES AFRO-ATLâNTICAS 

Masp. Av. Paulista, 1.578, tel. 3149-5959. 4.ª/dom., 10h/18h; 3.ª, 10h/20h.. Ingressos: R$ 35 e R$ 17 ). Abre hoje (13), 20h. Até 14/11.

MÃE ÁFRICA: PIERRE VERGER E RUBEM VALENTIM

Galeria Berenice Arvani. R. Oscar Freire, 540, tels. 3082-1927 ou 3088-2843. 2.ª/6.ª, 10h/19h. Abre hoje (13), 19h. Até 14/11 

RUBEM VALENTIM: CONSTRUÇÃO E FÉ

Caixa Cultural. Praça da Sé, 111. Entrada gratuita. Até 16/12. 

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