FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Masp abre primeira individual de Gego no Brasil

A artista venezuelana de origem alemã, que participou de duas edições da Bienal de SP, é representada por 150 obras na mostra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2019 | 07h00

Embora tenha começado sua carreira já madura e instalada na Venezuela, para onde migrou fugindo da perseguição antissemita na Alemanha, em 1939, Gego, ou Gertrud Louise Goldschmidt (1912-1994), não demorou para ser reconhecida como uma artista inovadora, alguém comparável à neoconcreta mineira Lygia Clark (1920-1988). Comparação, aliás, pertinente. Em sua primeira exposição individual no Brasil, Gego: A Linha Emancipada, a partir de hoje (13), no Masp, após participar de duas edições da Bienal de São Paulo (a última em 2012), a artista de origem alemã é representada, entre as 150 obras em exibição, por esculturas de arame que ela batizou de ‘bichitos’, peças que constituem sua derradeira produção tridimensional.

Curador da mostra de Gego no Masp, o mexicano Pablo León de la Barra vê nessa série uma correspondência direta com os “bichos” de Lygia Clark, esculturas articuláveis de metal por meio das quais a artista brasileira convidava o público a interagir com sua obra. Acontece o mesmo com o trabalho de Gego. Contudo, não se sabe se ela conhecia a obra da artista mineira (carioca por adoção). Tampouco a diretora executiva da Fundación Gego de Caracas, Priscila Abecasis, tem essa informação. Gego vivia isolada, trabalhando de forma solitária e artesanal, após decidir que não iria mais depender dos homens para soldar suas esculturas, dedicando-se, então, a obras fractais de delicada estrutura que formam lindas constelações de arame.

Também por essa autonomia, faz duplo sentido Gego encerrar o ano que o Masp dedicou ao ciclo Histórias das Mulheres, tour de force contra o chauvinismo nas artes visuais que eclipsou artistas geniais do sexo feminino. Basta dizer que, ao se falar de arte venezuelana contemporânea, qualquer livro de História da Arte dedica páginas e páginas a Alejandro Otero, Cruz-Diez e Jesus Soto enquanto Gego é citada com suspeita parcimônia, apesar da presença da artista em coleções importantes como a do MoMA de Nova York. Vale lembrar que Gego iniciou sua carreira na mesma época, desenvolvendo igualmente uma linguagem própria no abstracionismo geométrico, aproximando-se, como Soto e Cruz-Diez, do movimento cinético dos anos 1960 e 1970.

Enfim, o fato é que Gego é hoje reverenciada em todo o mundo – e a exposição do Masp é um exemplo, pois se trata de uma parceria do museu paulista com o Museu Jumex do México, o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona e o Tate Modern de Londres, que vão receber a mostra depois. “Gego é um caso exemplar de discriminação num ambiente masculino, pois era arquiteta e uma refugiada judia numa época marcada pelo isolamento das mulheres”, lembra o curador da mostra. Ao pisar em solo venezuelano em pleno boom econômico do país latino, ela deu aulas de Arquitetura numa época em que o modernismo ganhava força no país. Há desse período exemplos de sua ligação com a arte cinética, esculturas que criam uma sensação de movimento quando o espectador anda em volta delas, como as peças em metal da primeira sala da exposição.

Mas elas são apenas uma etapa preparatória para a sala principal, a segunda, que resume a força da linha em toda a sua obra, nascida efetivamente de uma pequena grande série chamada Dibujos Sin Papel (Desenhos Sem Papel), peças liliputianas de metal unidas como fractais. Elas reforçam um repertório de elementos próximos da geometria não euclidiana – vale dizer, uma cosmogonia à la Gego, em que o universo é reduzido a relações de recorrência entre esses elementos. O curador chama a atenção para essa segunda sala, pois é nela que se reconstitui, com uma distância de meio século, a criação de uma instalação site-specific pioneira no Museu de Belas Artes de Caracas, em 1969, conhecida como Reticulárea.

Curador da Bienal que trouxe Gego pela segunda vez, em 2012, o também venezuelano Luis Pérez-Oramas, observa que, nessa primeira obra de interação, assim como em seus maiores trabalhos, ela “transcende a ideia de um plano regulador ortogonal típico da abstração geométrica”. No sistema tridimensional de ‘linhas’ de arame, sujeitas à queda livre de um ponto de sustentação, o acidente, segundo Oramas, “se torna central”. Isso a diferencia de outros artistas cinéticos, pois, ao abdicar da simetria, da estrutura centralizada, ela, ainda segundo Oramas, “desenvolveu uma forma de abstração radicalmente orgânica”.

Curiosamente, diz Pablo, o curador da exposição do Masp, Gego não se via como escultora, mas “uma artista que trabalhava com a linha”, processo facilmente identificado em seus desenhos, em que ela se move da bidimensionalidade para a tridimensionalidade sem distinção formal. Rompendo com o linear e abraçando deliberadamente a instabilidade, ela chega aos anos 1970 com uma força descomunal, tanto em obras públicas (como o complexo arquitetônico Cuerdas, em Caracas) como em instalações privadas para museus e galerias. Também pode ser atestada a presença de referências subjetivas nas obras de 1980 e 1990, última etapa da mostra, em séries como a dos ‘bichitos’, das ‘cuadriculas dislocadas’ e as ‘tejeduras’, que enfatizam o lado artesanal da construção desses objetos.

Discípula. Simultaneamente à retrospectiva de Gego, o Masp abre também hoje a individual da artista portuguesa Leonor Antunes, Vazios, Intervalos e Juntas, que encerra o ciclo Histórias das Mulheres, Histórias Feministas. A exposição, com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, e Amanda Carneiro, curadora assistente, apresenta peças inéditas da artista, que mantém quase uma relação umbilical com a obra de Gego. Peças integradas ao ambiente, modificado em função das esculturas – o piso de borracha replica uma pintura neoconcreta de Lygia Clark (Superfície Modulada, 1952) –, as de Leonor Antunes fazem com frequência referências a mulheres pioneiras modernistas e à arte indígena, em particular as formas geométricas de seus objetos.

Além do Masp, a artista portuguesa, que mora em Berlim e está expondo na Haus der Kunst de Munique ao lado de Adriana Varejão, tem outra mostra em São Paulo, na Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, a arquiteta que projetou o Masp. Aliás, como tributo a ela, Leonor Antunes apresenta em sua exposição uma obra chamada Caipiras, Capiaus, Pau a Pique, referência à mostra homônima organizada pela arquiteta no Sesc Pompeia, em 1980.

A verticalidade marca os trabalhos expostos no Masp. Um deles replica as estruturas fractais de arame de Gego, buscando superar o equilíbrio instável do suporte. “A diferença é que Gego trabalha no espaço, enquanto eu trabalho no plano”, diz. Ao lado de Gego, Lygia Clark e Lina Bo Bardi desfilam outras referências femininas. “A arte não é uma questão de gênero, e eu não estou interessada em discutir o tema, mas com certeza o trabalho dos homens é mais divulgado que o das mulheres”, comenta a artista, que, em sua individual, tenta reparar essa injustiça ao valorizar técnicas e artes de outros tempos, como o da cubana modernista Clara Porset (1895-1981) que revolucionou o México. 

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