Marta Góes revela a complexidade de existências banais

Dramaturga uniu três peças em Mulheres Virando o Jogo, livro em que revela sua preocupação com a luta pela vida

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

29 Setembro 2008 | 00h00

Um exame superficial faz acreditar que o ponto comum das peças de Marta Góes é a presença constante de mulheres como protagonistas. Basta enumerar: Vera, de A Reserva; Elizabeth Bishop, em Um Porto para Elizabeth Bishop; Cýclone, no texto do mesmo nome; Cida, de A Moça Que Falou Assim. Um olhar atento, no entanto, descobre a verdadeira intenção da autora que, a partir de personagens comuns, consegue mostrar a complexidade de vidas banais.Basta a leitura cuidadosa de Mulheres Virando o Jogo (Terceiro Nome), que Marta lança hoje à noite, no Bar Balcão, e que reúne todos aqueles textos, com exceção de Um Porto - as três peças destacam, cada uma a seu modo, a luta de pessoas comuns pela sobrevivência.Em A Moça Que Falou Assim, sua peça de estréia, Marta trata do "pequeno mundo das secretárias juniores e auxiliares de escritório, suas aspirações e frustrações, seu tipo de linguagem e seu sonho de consumo", na fina observação de Maria Adelaide Amaral, autora do prefácio. Miss Cýclone, ainda inédita, inspira-se em um personagem real, Deise, um dos amores do escritor modernista Oswald de Andrade, para criticar os valores tacanhos da sociedade brasileira do início do século passado.Finalmente, A Reserva, ainda em cartaz no Teatro Cosipa Cultura, com Irene Ravache à frente, é peça ambientada em um restaurante no qual a proprietária, uma viúva, cozinha por ofício e prazer. Sobre tipos tão comuns e, ao mesmo tempo, particulares, Marta Góes conversou com o Estado.Quais assuntos a inspiram?Geralmente, questões da vida pessoal. No trabalho em empresas jornalísticas ou, num curto período, no serviço público, entrei em contato com as hierarquias, as coragens e as covardias do cotidiano. A capacidade de contrariar a expectativa alheia é um tema que me atrai. Eventualmente, é a sugestão de outra pessoa que me faz olhar para algum personagem e sintonizar nele, como foi o caso da Cýclone. Fiquei fascinada pela audácia meio camicase de uma garota, num mundo tão restritivo em relação à mulher como São Paulo de 1917. Mas inspiração pode vir da paisagem - circular entre Rio, Petrópolis e Ouro Preto, os lugares em que Elizabeth Bishop viveu seus anos de Brasil, me fez prestar atenção em sua obra, em sua história e em sua visão dos brasileiros. O que a atraiu na gastronomia a ponto de escrever A Reserva?A capacidade que ela tem de exprimir valores. Em minha família, é uma linguagem. Minha avó definia certas pessoas como "gente que pica mamão com banana e chama de salada de fruta". No caso de A Reserva, a chef Vera, que despreza o pavê de Sonho de Valsa que sua funcionária prepara, é desprezada pelo mercado por se manter fiel a uma fórmula tradicional. Suas peças privilegiam o universo feminino. Na sua opinião, esse tema é tratado adequadamente na dramaturgia nacional? E na estrangeira?Magnificamente tratado, desde os gregos. Acho que uma porcentagem enorme da produção dramatúrgica pertence à fórmula "mulheres que caem em si". Da Nora, de Casa de Bonecas, à Norma Suely, de Navalha na Carne, à Mariazinha, de Fala Baixo Senão Eu Grito, as mulheres são personagens muito convenientes para ilustrar a tomada de consciência. Se pensarmos, por outro lado, em Blanche Dubois e em Amanda Wingfield, de Tennessee Williams, vamos ver que a categoria das "mulheres que não caem em si" também rende ótimo teatro. O teatro não tem dívida com o gênero feminino.Se você pudesse fazer uma análise da própria criação, acreditaria ter cumprido um ciclo?Acho que, no máximo, abri algumas portas.Por acaso, há figuras que vivem assombrando-a e que você aproveita o teatro para exorcizá-los?Senão figuras, certamente temas. O autoritarismo e a submissão no cotidiano me atraíram muito, num certo período. Minha primeira peça, Prepare Seus Pés para o Verão, que ria de clichês do universo feminino, tinha uma funcionária revoltada, a Ludmila, que era o fruto da adesão total à hierarquia; em A Moça Que Falou Assim, que escrevi logo depois, a secretária Cidinha luta para adquirir sua própria voz como arma contra os abusos. Quando escrevi A Reserva, eu estava mais mobilizada pela obrigação universal de aderir às tendências da moda e ao gosto aprovado pelos formadores de opinião. Como você concilia a sua vida cotidiana com o trabalho e a inspiração?A vida - o cotidiano ou os momentos agudos - é a fonte mais poderosa que conheço. Escrever, por mais solene que pareça, é uma tentativa de se apropriar da sua beleza e de superar o horror que ela contém. ServiçoMulheres Virando o Jogo. De Marta Góes. Editora Terceiro Nome. 184 pág. R$ 28. Bar Balcão. Rua Melo Alves 150. Hoje, 19h30

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