Vost Manifesta
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Marselha abriga a bienal Manifesta 13 com participação brasileira

Bárbara Wagner volta à Europa como a única artista brasileira entre os 47 nomes selecionados para a programação principal da Manifesta 13

Celso Filho, Especial para o Estado

11 de junho de 2020 | 05h00

AMSTERDÃ - Depois de levar seu trabalho à Bienal de Veneza no ano passado e a outros espaços no exterior, como o Museu Stedelijk na Holanda, Bárbara Wagner volta à Europa como a única artista brasileira entre os 47 nomes selecionados para a programação principal da Manifesta 13, em Marselha. Na bienal, que teve sua data de abertura prorrogada para 28 de agosto por conta da pandemia, Bárbara estará de novo ao lado do alemão Benjamin de Burca apresentando um filme inédito, produzido em colaboração com artistas na Irlanda e na França.

Bárbara e Burca trabalham juntos desde 2013 e têm trilhado uma carreira de destaque, com premiações e exposições no Brasil e no exterior. Em seus trabalhos audiovisuais de maior destaque, eles utilizam expressões culturais periféricas, como o brega, a música evangélica e a swingueira, para abordar diferentes questões relacionadas à sociedade brasileira atual. No entanto, eles preparam algo novo para 2020, seguindo um projeto iniciado há alguns anos. Em processo de finalização, a obra ainda não possui um nome, mas o duo deu alguns detalhes do trabalho em uma entrevista ao Estadão por videoconferência.

Se, em Veneza, assim como na 32.ª Bienal de São Paulo, a dupla investigou as diversidades e tradições culturais brasileiras por meio da música e do corpo, para a mostra em Marselha, eles transferem essa pesquisa para um foco na influência do norte da África na construção das culturas e idiomas europeus. “Eu não quero imaginar que a nossa prática esteja ligada a uma ideia de nação”, explica Bárbara. Apesar de o novo projeto se afastar de uma realidade brasileira, comum em trabalhos anteriores dos artistas, o que está em jogo é a mesma inquietação: entender a influência e o embate de certas expressões culturais dentro de uma sociedade.

“A gente chegou a fazer dois trabalhos fora do Brasil: um na Alemanha e outro no Canadá. Este vai ser o terceiro projeto no exterior, que já estava programado antes mesmo da Bienal de Veneza”, conta Bárbara. A pesquisa para a obra atual surgiu em meados de 2018 por uma vontade de Burca de explorar a cultura popular da Irlanda – o artista alemão possui ascendência irlandesa e morou por vários anos na ilha.

Os pontos de partida do projeto foram a resistência da cultura celta na região de Connemara, no oeste da Irlanda, e os trabalhos do documentarista Bob Quinn, que pesquisa as ligações da formação histórica do país com povos do norte da África e do Mediterrâneo. “A história irlandesa é muito complexa. A gente queria trabalhar com essas complexidades num sentido de se fazer um filme que toque nessa história, mas sem cair nos vários buracos que há no caminho”, explica Burca.

Quando veio o convite da Manifesta, esse projeto se encaixou bem com a proposta curatorial desta edição da bienal, cujo tema central será ‘Trait d’union.s’ (‘Traços de união’, em português), levantando discussões sobre pontos de conexões e propostas de solidariedade em meio à instabilidade do mundo atual. A dupla, então, decidiu expandir o projeto, abrangendo também uma pesquisa sobre as influências de diversos países do norte da África em Marselha, a cidade-sede da mostra neste ano.

Como em outras obras de Bárbara e Burca, a colaboração com outros artistas também se tornou uma peça-chave para esse projeto. O filme vai contar com a participação de cerca de 20 artistas de países como Tunísia e Marrocos. A ideia foi trazer suas performances para locações históricas entre França e Irlanda que possuem referências da dominação colonialista, como uma antiga casa inglesa na região de Connemara.

O resultado será exibido no Conservatório Nacional de Marselha até 29 de novembro. Com curadoria de Alya Sebti, Katerina Chuchalina e Stefan Kalmár, a programação da bienal também ocupa outros espaços da cidade, como o Museu de História de Marselha e o Palácio Longchamp. Além de Bárbara e Benjamin, a programação principal conta com obras comissionadas de outros artistas de destaque na arte contemporânea, por exemplo, o francês Marc Camille Chaimowicz e a egípcia Anna Boghiguian.

Evento se adapta ao isolamento social

Enquanto diversos países europeus anunciavam processos de reabertura e relaxamento das medidas de distanciamento social, a Manifesta 13 foi um dos primeiros grandes eventos no continente a confirmar novas datas ainda para este ano – de 28 de agosto a 29 de novembro. Assim como as feiras de arte Photo London e Art Basel, a bienal também ocorrerá no segundo semestre, apesar das incertezas impostas pela pandemia ao calendário cultural que criou a uma onda de cancelamentos e adaptações para eventos digitais.

Mesmo com a notícia da retomada de suas atividades, a bienal, que este ano é em Marselha, no sul da França, precisou se adaptar à nova realidade de convívio social na França. A primeira modificação foi nas datas de abertura. A programação será ainda mais descentralizada, com um cronograma de inaugurações programado de maneira gradual ao longo de três meses, ou seja, as mostras vão abrir em dias diferentes entre agosto e outubro.

“Essa foi a única solução – ou um gesto – que nos permitiu enfrentar o máximo possível as complexidades que essa situação atual gerou”, explica a fundadora e diretora da Fundação Manifesta, Hedwig Fijen. 

O funcionamento dos espaços expositivos também vai seguir horários diferentes, com controle de visitantes e agendamentos para se evitar aglomerações e para garantir a distância mínima de 1,5 metro entre as pessoas.

“Ninguém pode prever como será o mundo em alguns meses. Ao espalhar nosso projeto e programação, podemos levar em consideração os diferentes níveis de flexibilidade que cada um desses projetos, locais e participantes exigirão”, afirma Hedwig.

No entanto, a disposição desta edição da Manifesta de manter sua programação ainda para 2020 também pode estar relacionada às características do evento, que segue um modelo diferente das tradicionais bienais de arte.

Autointitulada bienal nômade europeia, a Manifesta é hospedada a cada dois anos em uma cidade diferente do continente – em 2022, ela será em Pristina, no Kosovo. Desde sua última edição em Palermo, na Itália, o evento tem focado ainda mais em colaborações com artistas, instituições locais e com a população das cidades-sede, algo que a Bienal de São Paulo tem experimentado há algumas edições. Assim, a organização da Manifesta estima que cerca de 75% dos visitantes em Marselha serão moradores da região.

Além disso, mesmo as exposições principais e a programação paralela seguem em vários espaços espalhados pela cidade. Por exemplo, as obras dos 47 artistas que compõem o eixo central do evento serão expostas em seis locais diferentes. “Para nós, a ideia de se adaptar sempre integrou o núcleo de nossas atividades e isso pode ter nos ajudado a nos ajustar a essa situação atual de incerteza. Talvez estejamos um pouco mais acostumados a uma flexibilidade que agora nos é exigida”, finaliza a diretora. 

Mais detalhes sobre a programação e adaptações serão anunciados em breve.

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