Mario Monicelli encanta o público jovem

Forte e lépido aos 94 anos, ele acompanhou a exibição de seu A Grande Guerra

Luiz Zanin Oricchio, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Por falar em riso, aos 94 anos, forte e lépido, Mario Monicelli tem encantado os participantes do Festival. O evento foi aberto com projeção em praça pública do seu filme A Grande Guerra, vencedor do Leão de Ouro há 50 anos, dividindo o prêmio com De Crápula a Herói, de Roberto Rossellini. Antes da sessão, no Campo San Polo, Monicelli disse que se sentia satisfeito ao ver uma plateia de gente jovem presente. "Quero ver o efeito de um filme que tem o dobro da idade média deste público", brincou. O efeito foi o melhor possível, com a plateia se divertindo (e se comovendo) com a história agridoce dos dois malandros vividos por Vittorio Gassman e Alberto Sordi.

No dia seguinte, Monicelli falou sobre o filme. Desculpou-se antes: "Sou um diretor, não sei falar." Conversa. Pelo contrário, a fala de Monicelli destoa dos seus conterrâneos, em geral contaminada por uma retórica peninsular, meio parnasiana. Ele fala simples. É direto. Quando lhe pedem para analisar o atual momento do cinema italiano, responde: "Não vive um grande momento, e isso é reflexo do país, que chegou ao fundo do poço. Mas talvez não seja apenas a Itália. O Ocidente decai."

Mas se sua avaliação do cinema italiano em geral é ruim, ele destaca alguns bons filmes que estão sendo feitos. Os principais, Gomorra, de Matteo Garrone, e Il Divo, de Paolo Sorrentino. O primeiro estrou no Brasil; o segundo, passou na Mostra de São Paulo e continua inédito no circuito comercial. "Esses não têm medo de enfrentar a realidade, por isso são bons", diagnostica ele. Os pequenos mafiosos de Nápoles, vistos de maneira desglamurizada, e a corrupção no governo Andreotti são essas vertentes da realidade, que devem ser exposta, segundo o "maestro". Esse medo de enfrentar as coisas, essa paúra elitista que os cineastas hoje em dia mostram, coloca-os em situação de isolamento, a ficar falando apenas entre eles mesmos, diz Mario.

Não se pode também ter medo de rir. "A comédia é difícil. Não é sinônimo do que é divertido, ameno; pelo contrário, ela pode ir direto ao ponto", ensina. E lembra que "a cultura italiana está fundada não sobre uma tragédia, mas sobre uma comédia - a Divina Comédia, aquela escrita por Dante". Mas, como Monicelli bem sabe, existem comédias e comédias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.