TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Marina Abramovic abre em SP a retrospectiva experimental ‘Terra Comunal’

Figura histórica da performance, sérvia fala ao 'Estado' sobre o Instituto que leva seu nome, como ser radical e o mercado da arte hoje em dia

Entrevista com

Marina Abramovic

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 16h00

Como diz a artista Marina Abramovic, sua retrospectiva, Terra Comunal, que será inaugurada nesta segunda-feira, 9, para convidados e na terça-feira, 10, para o público em São Paulo, é “exatamente o retrato do Sesc Pompeia”, onde ocorrerá. “Fui a diferentes museus daqui, à Pinacoteca, ao Museu de Arte Moderna, ao museu de filmes (MIS), mas eles estão quase sempre vazios. No Sesc, não, pessoas de todas as gerações adoram ir àquele lugar. (A arquiteta) Lina Bo Bardi fez um lugar muito especial, e eu apenas preciso chegar e agir”, afirma a sérvia, de 69 anos, em entrevista ao Estado.

Considerada a maior exposição já realizada por esta criadora histórica da arte da performance, Terra Comunal será um “laboratório”, explica ainda Marina, nascida em Belgrado. Antes de os visitantes encontrarem o segmento retrospectivo, com curadoria de Jochen Volz e dedicado à exibição de seus trabalhos famosos, realizados, principalmente, desde a década de 1970, grupos de 96 participantes poderão experimentar, por 2h30, os exercícios do “Método Abramovic” e conhecer seus Objetos Transitórios criados com cristais brasileiros. Mais ainda, artistas brasileiros convidados pela sérvia e pelas cocuradoras Lynsey Peisinger e Paula Garcia vão performar durante a mostra, sem dizer que a própria Marina ministrará, até maio, série de palestras. “Se o Sesc já tem vida, daremos muito mais vida ao local”, completa ela, que aproveita a ocasião para apresentar, assim, experiências de seu (polêmico) Marina Abramovic Institute (MAI), que tem sede em Hudson, Nova York.

Você considera essa experiência no Brasil diferente de tudo o que já realizou?

Sim. Nunca tive tanto espaço como tenho agora e pela primeira vez coloco tantos elementos juntos, assim como coloco o meu método ao lado do meu trabalho.

Como ser radical hoje?

Não é fácil. Sempre quis conhecer jovens artistas, mas não me comprometer. Você vê uma tendência atrás da outra e depois, uma cópia atrás da outra. Você tem que seguir a sua própria linha. Adoro o que Woody Allen disse uma vez: “Hoje sou uma estrela, amanhã, um buraco negro”. A sociedade não é linear. Há altos e baixos e você tem de entendê-los e continuar a fazer o que acredita.

Há uma espécie, hoje, de onda de arte política e muitos artistas recebem este rótulo. O que acha?

Não me interesso nada por política na arte. Uma coisa de que não gosto é a de a arte ter se tornado mercadoria. 

Mas você tem sido criticada por essas afirmações sobre o mercado de arte. Que seriam como um discurso...

Tenho 69 anos. Tenho que comprar coisas e viver. E se um encanador pode fazer mais dinheiro com encanamentos, não entendo essa crítica. Meus preços no mercado de arte são mais baixos do que os de um artista de meia-idade. Jeff Koons tem esculturas e faz cinco múltiplos da mesma obra, cada uma vale US$ 7 milhões e ninguém o critica. Nunca vendo o meu trabalho por mais de US$ 8 mil, fotografias das quais 50% do valor fica para a galeria. Por que tenho de ficar nessa posição? Trabalhei por tantos anos. E nunca fiz milhões. Todo o dinheiro que tenho, coloquei no meu instituto. Gastei muito dinheiro pagando os arquitetos.

Quanto você gastou no edifício do Instituto Marina Abramovic?

Para fazer o edifício? US$ 31 milhões. E não está construído ainda. Por isso, preciso viajar com meu instituto. Ele pega toda a minha energia.

O Instituto Marina Abramovic também foi criticado por convocar voluntários.

Adoro falar sobre isso. Além de colocar todo o meu dinheiro no instituto, de todas as diferentes vendas que fiz em diferentes galerias, tenho cinco pessoas na minha lista de pagamento. Fizemos um pontapé inicial de US$ 600 mil, há dois anos, para que os arquitetos (do escritório do holandês Rem Koolhaas) criassem um plano arquitetônico. Todo centavo desse pontapé foi para pagar os arquitetos. Para isso, fiz todo tipo de recompensas – olhei as pessoas nos olhos pelo computador, abracei pessoas por US$ 1, todo tipo de coisa por um ano de meu tempo. Dessa maneira, chamamos voluntários como forma de criar mais espaço para trabalhar. Por que ninguém critica a indústria da moda, com seus escravos?

Voltando à mostra, como fez a seleção dos artistas brasileiros?

Faço audiências e ensino há mais de 25 anos. Posso perceber muito rápido se você é um bom performance-artist. Só de ficar parado, sei dizer se consegue ou não criar um espaço carismático. Depois olho a qualidade do trabalho. A coragem que têm de fazer algo diferente de tudo o que já fizeram é admirável.

MARINA ABRAMOVIC

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. 3ª a sáb., 10 h/21 h; dom., 10 h/19 h (fecha 2ª). Grátis. Até 10/5. Abertura 3ª (10).


Biografia e filme sobre experiências espirituais no País

Com a retrospectiva, o Sesc Edições lança Quando Marina Abramovic Morrer: Uma Biografia, de James Westcott. O prefácio do livro, de 2010, traz a descrição da que será a “última” performance da sérvia, ou seja, as indicações que deixou para o dia de sua morte. Na obra, também, há o relato da difícil relação da artista com a mãe. Mais ainda, está previsto para estrear em 14 de maio o documentário A Corrente – Marina Abramovic e o Brasil, dirigido por Marco del Fiol. / C.M. 

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