Mariana Aydar fica mais próxima de seus pares

No segundo álbum, Peixes Pássaros Pessoas, cantora aprimora o canto, mas oscila na escolha do repertório, que privilegia o samba e composições de Duani

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2009 | 00h00

Quando lançou o primeiro álbum - Kavita 1 (2006) -, Mariana Aydar teve de enfrentar suspeitas de favorecimentos na mídia pelo fato de ser filha dos famosos Bia Aydar e Mário Manga. Com regravações de material antigo, o CD não fez diferença no mar de novas cantoras sem sal que morrem na praia. No segundo, Peixes Pássaros Pessoas (Universal), Mariana mudou, gravando material inédito de seus pares e contemporâneos, meio na onda do sambinha de isopor, tipo Maria Rita. Encontrou seu caminho, mas persiste um certo marketing estratégico em torno dela - ou seja, o velho esquemão de gravadora a forçar a barra. Caetano Veloso escreveu o press release, Zeca Pagodinho participa de uma faixa, O Samba me Persegue, Kassin, referência de bacanas, assina a produção com Duani, namorado da cantora. Ouça trecho da faixa Tá? Até aí, nada demais, se o disco fosse algo sensacional a justificar o hype. Não é. Caetano fala no texto sobre certa implicância da crítica com essas cantoras sedosas que resolveram mexer os pezinhos no terreiro do samba. O problema, porém, não é o gênero, é o que se extrai dele e como se faz. Bom de samba é Rodrigo Campos, coautor de Beleza, com Luísa Maita, gravada por Mariana. Mas Duani, que predomina no CD, não é do mesmo quilate. O samba que ele persegue é feito de clichês melódicos, meio bregas e com letras pueris. Há bons arranjos, mas nada de extraordinário.É espantoso como o canto de Mariana evolui em canções de melhor acabamento, como Tá?, de Carlos Rennó, Pedro Luís e Roberta Sá (leia letra no quadro), e Peixes, do gaúcho Nenung, da banda Os The Darma Lovers. São os grandes achados do álbum, que valorizam sua voz. Outro bom momento é Nada Disso É Pra Você (Rômulo Fróes/Clima). Ela própria assina como Kavita outra boa faixa, Tudo Que Eu Trago no Bolso (com Nuno Ramos). Na faixa Por Quê?, do recém-lançado CD Tudo Que Respira Quer Comer, Carlos Careqa faz uma bem-humorada crítica ao fato de hoje todo mundo querer ser artista, o que leva a refletir sobre a questão da vaidade que se sobrepõe à aptidão. É evidente que uns têm talento para determinadas atividades, outros não. Uns "se acham", outros se encontram em seu real valor. Umas cantoras fazem escolhas certas, como Roberta Sá e Verônica Ferriani. Outras, cheias de si, como Ana Cañas, Marina de la Riva e Luciana Mello, parecem entender mais de pose do que de arte. Dentre essas, Mariana pelo menos demonstra ter mais noção de equilíbrio sobre o "salto alto", mas ainda desperta dúvidas. Tá? Pra bom entendedor meia palavra bas-Eu vou denunciar a sua ação nefas-Você amarga o mar, deflora a flores-Por onde você passa, o ar você empes-Não tem medida a sua sanha imediatis-Não tem limite o seu sonho consumis-Você deixou na mata uma ferida expos-Você descora as cores dos corais da cos-Você aquece a Terra e enriquece à cus-Do roubo do futuro e da beleza augus-Mas de que vale tal riqueza? Grande bos-Parece que de neto seu você não gos-Você decreta morte à vida ainda em vis-Você declara guerra à paz por mais benquis-Não há em toda a fauna um animal tão bes-Mas já tem gente vendo que você não pres-Não vou dizer seu nome porque me desgas-Pra bom entendedor meia palavra bas-Tá?

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