Mauro Pimentel/Estadão
Mauro Pimentel/Estadão

Maria Luisa Mendonça revela os quadros que pinta discretamente há 18 anos

Artista fala sobre a influência do teatro em sua pintura

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2016 | 05h00

Um conselho ao espectador que gosta de descobrir detalhes invisíveis em apresentações teatrais: preste atenção na movimentação em cena da atriz Maria Luisa Mendonça. Muito provavelmente, o mapa de trajetórias que ela cria no palco servirá de inspiração para uma nova pintura. Sim, a intérprete de encenações memoráveis como Blanche em Um Bonde Chamado Desejo e Zulmira em A Falecida, para se mencionar apenas as mais recentes, é também uma artista plástica. E a qualidade de seu trabalho pode ser observada na exposição Eu Me Registrarei Sob Um Nome Falso, em cartaz até 17 de dezembro na Galeria Maria de Lurdes Mendes de Almeida, que fica na Universidade Candido Mendes de Ipanema, no Rio de Janeiro.

O título foi tirado de um trecho da peça Fala Comigo Doce Como a Chuva, de Tennessee Williams, na qual, aliás, ela se inspirou para criar um trabalho complementar - na verdade, um brinde ao visitante, que poderá acompanhar sua técnica de pintura. Em um espaço reservado, iluminado e contando com a ajuda de projeções, Maria Luisa interpreta oito minutos da peça enquanto mergulha o pé em uma bandeja de tinta e caminha sobre um papel branco que representa uma tela. Inspirada pela ação, a atriz cria uma trajetória que, por sua vez, se transforma em uma nova obra pictórica. E toda a ação é registrada por uma câmera, colocada no teto. Ela repete essa performance na sexta-feira, 2. “Não se trata de uma catarse, mas de um movimento organizado, que reproduzo com intensidade a partir da variação de cores”, conta Maria Luisa, enquanto saca um bloco de anotações para fazer um rabisco e mostrar ao repórter como Blanche, do Bonde, andava pelo palco em uma determinada cena. O resultado é o esboço de uma tela.

Se o talento como artista plástica é novidade para o público, os amigos mais próximos sabem que Maria Luisa pinta discretamente há 18 anos. Seu apartamento no Rio, por exemplo, tem uma ala inteiramente ocupada por quadros já finalizados, além de tintas e telas em branco. “Desde o início da minha carreira como atriz, quando estava com 16 anos, eu me interessava em detalhar o caminho percorrido pelas minhas personagens no palco e como isso se traduziria em uma pintura”, conta ela, que utiliza o ateliê como canalizador das várias artes, ou seja, é ali onde Maria Luisa dá vida às suas investigações sobre teatro e também cinema e TV.

Não se trata, porém, de uma pintora diletante - durante oito anos, Maria Luisa frequentou um curso na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio. Lá, acompanhou as aulas da escultora Iole de Freitas e manteve encontros teóricos, entre outros profissionais, com o professor Paulo Sergio Duarte. Foi para ele que Maria Luisa, depois de tomar coragem, mostrou seus trabalhos no ateliê. Paulo Sergio não apenas gostou como se tornou no curador da exposição.

O professor notou que a pintura da atriz é um vivo exemplo da “action painting”, termo cunhado pelo crítico Harold Rosenberg em 1952 e que designa o trabalho de artistas do expressionismo abstrato. Ele lembra que, para Rosenberg, a tela, naquele período pós-guerra, havia se transformado em “uma arena para o agir”. “Maria Luisa não é somente pintora, mas também atriz dramática”, escreve o teórico, no texto de apresentação da mostra. “É inevitável que essa dimensão do seu poder criativo passe para a obra. Essa passagem não é fácil, é feita com sofrimento, mas é a experiência que ela tem a coragem de nos mostrar.” Para o deleite de seu público.

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