Marco Bechis chega para iniciar a 32.ª Mostra

Diretor ítalo-chileno fala de Birdwatchers e diz que o filme com parceria da Gullane não é só sobre disputa por terras dos índios

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

É o momento ?rosselliniano? de Birdwatchers - Terra Vermelha o diálogo socrático entre dois antagonistas que expõem seus pontos de vista e ambos têm razão. O fazendeiro interpretado por Leonardo Medeiros diz que sua família está há três gerações naquela terra, que lavra de sol a sol para produzir alimentos. O chefe indígena poderia até dizer que sua família está ali há mais tempo, mas seu gesto é visceral. Ele come a terra vermelha.Marco Bechis desembarca hoje em São Paulo, para a abertura, amanhã à noite, oficialmente, da 32.ª Mostra Internacional de Cinema, numa sessão para convidados de seu Birdwatchers. Na sexta, a mostra dá o ponto de partida para o público em geral, e você também terá oportunidade de assistir a Birdwatchers. Valerá a pena. O filme ítalo-brasileiro, com participação da Gullane Filmes, trata da sempre delicada questão indígena no País, do conflito entre índios e fazendeiros que, volta e meia, ensangüenta terras demarcadas. Mas Birdwatchers não é só sobre isso.Há um lado social muito forte e o próprio diretor explica sua origem, numa entrevista por telefone. "Quando minha família saiu do Chile, fomos morar na Argentina e, depois, no Brasil, em São Paulo. Eu era garoto e via aqueles índios na rua. Não eram muitos. Pequenos grupos. Viviam numa situação de penúria e eu não entendia quem eram aquelas pessoas." Tudo levava Marco Bechis aos kaiowaas de Birdwatchers. A própria trajetória do cineasta fez dele muitas vezes um outsider. Quando sua família se fixou na Itália, Bechis ficou na Argentina, nos anos 70. Era jovem e já estava imerso na militância política, contra a ditadura. Ele viveu depois nos EUA, antes de se fixar na Itália. Nunca deixou de carregar a América Latina no coração.Seu longa anterior, Garagem Olimpo, tratava do horror da repressão política na Argentina. "Era um universo que conhecia", conta. Sendo primeiramente interessado em política, Bechis descobriu que a arte poderia ser uma ferramenta para expressar seu protesto. Virou fotógrafo experimental e videoartista. A origem de Garagem Olimpo foi uma exposição que fez em Milão - Desaparecidos, Onde Estão? Somente fotos de desaparecidos políticos, imagens de gente como a gente. "Foi um trabalho conceitual muito importante para mim." O primeiro esboço do filme sobre as culturas indígenas no Brasil apontava não para os kaiowaas, mas para os yanomanis. Bechis chegou a percorrer parte da Amazônia em busca de locações e histórias.Seu método, ele esclarece, baseia-se "uns 90% em trabalho no set." Ele não descuida do roteiro - o de Birdwatchers é assinado por Luiz Bolognesi, parceiro, na arte e na vida, de Laís Bodanzky -, mas, finalmente, o que determina o perfil que o filme vai ter é o trabalho no set de filmagem. Não é só o diálogo socrático de dois oponentes que têm razão o que aproxima Marco Bechis do lendário Roberto Rossellini. Suas pesquisas para Birdwatchers - o título já era este - o levaram a Mato Grosso do Sul e foi lá, com os kaiowaas que Bechis descobriu o filme que queria fazer. No quadro das tensões entre índios e fazendeiros, a história de um jovem indígena, um xamã, que não vive só um conflito externo, mas também outro, interno, igualmente forte, contra os espíritos da floresta, contra essas vozes que ele ouve e que precisa vencer, para superar a tentação do suicídio. É a outra cena marcante de Birdwatchers, o triunfo do jovem índio, que talvez não venha a se tornar um verdadeiro xamã, pois para isso ele teria de se manter puro de corpo e alma - um virgem - e o protagonista não resiste à tentação da carne.No limite, Birdwatchers trata do reconhecimento e aceitação do outro, e este é um tema universal. "Na Itália, face aos imigrantes, virou um tema urgente", diz o diretor. Um dos desafios de Birdwatchers era integrar atores e índios. Bechis trabalhou com preparador de elenco - Luiz Mário -, mas percebeu que a integração seria difícil. Chiara Caselli, uma atriz italiana experiente, não se integrou e está péssima. "Sua personagem foi desaparecendo", ele concorda. Luiz Mário preparava o corpo dos atores, por meio de exercícios. Para mostrar o que queria deles, como atores, Bechis mostrou-lhes dois filmes - Era Uma Vez no Oeste, de Sérgio Leone, e Gaviões e Passarinhos, de Pier Paolo Pasolini. O valor do silêncio. A importância do gesto, da palavra. Para Bechis, era importante desvincular a questão indígena da luta dos sem-terra. "Os sem-terra lutam para ser pequenos proprietários, pela posse da terra. O índio tem outra relação com ela." Até por ser uma co-produção internacional, ítalo-brasileira, Birdwatchers será um bom começo para a Mostra.

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