Marcelo Arruda
Marcelo Arruda

Márcia Pastore expõe na Suíça e amplia mercado

Em exibição até 31 de janeiro de 2021, na filial suíça da Galeria Kogan Amaro, em Zurique, a mostra é uma síntese de sua carreira

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2020 | 05h00

Em exibição até 31 de janeiro do próximo ano, na filial suíça da Galeria Kogan Amaro, em Zurique, a exposição Ut Machina Corpus, da artista plástica Márcia Pastore, é uma espécie de síntese de sua carreira, que começou nos anos 1980 e culminou com uma retrospectiva aberta no ano passado na Pinacoteca do Estado com curadoria de Ana Maria Belluzzo. Pastore não se encaixa no perfil dos artistas dessa época: quando todos embarcavam na onda neoexpressionista dos 1980, ela seguia por um caminho pós-minimalista, ecoando em seu trabalho também traços da arte povera. Compreensível: com formação arquitetônica, Pastore faz do encontro – e do confronto – de materiais industriais o ponto de partida de suas esculturas, objetos e instalações que dialogam invariavelmente com o ambiente.

Na mostra suíça, que tem como curador Ricardo Resende, Pastore revisita algumas criações do passado e inventa novos meios de enredar o espectador num ambiente que abriga obras como Peso-Contrapeso – linhas traçadas com cabos de aço no interior da galeria – e Frestas em Máquinas, que segue o caminho oposto: nela, Pastore trata o corpo como veículo arquitetônico, explorando a tradicional técnica do molde e contramolde da escultura clássica.

A prática escultórica de Márcia Pastore recorre a materiais diversos (gesso, borracha, ferro, bronze) e não tem limitações técnicas ou temporais – ela tanto pode voltar ao passado em busca de soluções como pesquisar novas técnicas de moldagem. No entanto, raramente suas obras partem de um projeto racional de desenho, e sim da experiência do embate entre materiais, replicando as tensões humanas. Há, sim, reminiscências de procedimentos típicos da engenharia civil, como em Peso-Contrapeso, que, montada pela primeira vez em 2012, na Funarte, recebeu segunda edição na retrospectiva da Pinacoteca e agora uma terceira, na Kogan Amaro suíça.

Na exposição da Pinacoteca do Estado, Márcia Pastore abriu janelas no forro do teto do museu, passando os cabos que sustentam o trabalho, que foram pendurados no cruzamento dos caibros e das tesouras do telhado. Na montagem suíça, ela usa tubos de latão com contrapesos no piso. Em outra escultura, Frestas em Máquina, peças de bronze presas por roldanas de aço pendem sobre o chão forrado com pó de gesso. Há também na mostra um vídeo antes exibido na retrospectiva da Pinacoteca, em que o sentido desses experimentos com gesso é evidenciado. Ela diz que eles funcionam com um “caderno de anotações sobre os registros de moldagem do corpo”, algo como uma performance antropométrica ao estilo de Yves Klein (1928-1962).

Não se conclua por isso que a obra de Pastore guarda parentesco com a imaterialidade do ‘nouveau réalisme’ de Klein. Sua base é bem concreta. A artista prioriza a presença física dos materiais, como os integrantes da arte povera. “A arte povera e o minimalismo foram dois importantes movimentos em minha trajetória”, lembra Pastore. “No cerne de sua obra, está a relação existencial com o mundo real, que se encontra dimensionado em hábitos e práticas, materializado no universo construído”, observou a curadora Ana Maria Belluzzo, no catálogo de sua mostra na Pinacoteca.

Porém, num ponto, a experiência corpórea em Yves Klein reverbera em sua obra, ainda que em outra direção. Belluzzo conclui: “Nota-se que a maior parte de suas propostas afronta a verticalidade humana, aquela que forjou a estátua ocidental”. O movimento do corpo, diz ela, “é vetor fundamental na descoberta de formas”.

Uma referência mais importante para Pastore é o escultor minimalista Richard Serra. A exemplo do artista norte-americano, a brasileira Márcia Pastore redefine os espaços atentando para o contexto em que a obra estará instalada. “Não acredito no artista que cria do nada”, justifica, ao citar Serra e outros mestres. O grau zero de seu trabalho, conclui a curadora Ana Belluzzo no catálogo da Pinacoteca, “pode ser encontrado na horizontalidade do mundo”

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