Marcello ou os múltiplos talentos de um astro que recusava rótulos

Programação no CCSP exibe grandes filmes interpretados pelo ator morto em 96

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

03 Março 2009 | 00h00

Marcello Mastroianni entrou para a trupe teatral de Luchino Visconti em 1948, um ano após haver estreado no cinema, num pequeno papel de Os Miseráveis, de Riccardo Freda. Em 1960, ele já tinha 36 anos e havia feito 42 filmes, inclusive um do próprio Visconti (Noites Brancas, que abre hoje a mostra às 16 h) e outros assinados por diretores de prestígio, como Luciano Emmer, Carlo Lizzani, Alessandro Blasetti e Mario Monicelli, mas não havia conseguido firmar-se como intérprete de primeira linha. Mastroianni parecia talhado para uma daquelas carreiras ?secundárias?. Bom, mas não muito para ser um astro. Foi quando Federico Fellini fez dele o jornalista Marcello Rubini, de A Doce Vida. Algo se passou quando isso ocorreu. O filme, premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, foi o arauto de transformações comportamentais - e estéticas - que haveriam de marcar toda a década. E o fato de Fellini ter transformado o ator em seu alter ego foi decisivo para o reconhecimento de Mastroianni. Logo veio Oito e Meio (4ª, 19 h), de novo de Fellini, no papel do diretor Guido Anselmi. Pela mesma época, Mastroianni fez filmes emblemáticos do cinema italiano - O Belo Antônio, de Mauro Bolognini, com roteiro de Pier Paolo Pasolini, adaptado do romance de Vitaliano Brancati; Divórcio à Italiana, de Pietro Germi. Em 1963, iniciou com Sophia Loren uma parceria que ficou célebre - e o filme, dirigido por Vittorio De Sica, Ontem, Hoje e Amanhã, ganhou o Oscar. Mastroianni virou a representação do amante latino, mas ele nunca aceitou que seu talento e versatilidade fossem reduzidos por rótulos. O latin lover, que havia interpretado um homem impotente em O Belo Antônio, fez um homossexual em um Dia Muito Especial, de Ettore Scola. Para o mesmo Scola, fez o envelhecido sedutor de Casanova e a Revolução, da mesma forma que para Mario Monicelli havia feito Casanova 70, no qual o incorrigível conquistador era um homem tão perturbado que precisava do estímulo do perigo para desempenhar na cama o que sua fama prometia às mulheres. Um pouco dessa extraordinária carreira poderá ser (re)visto, a partir de hoje, no Centro Cultural São Paulo, no ciclo intitulado Marcello. São filmes como Noites Brancas, Os Eternos Desconhecidos (hoje, 18h), O Belo Antônio (hoje, 20 h), A Doce Vida (4ª, 16 h) Ontem, Hoje e Amanhã (4ª, 21h30), A Comilança (5ª, 16 h), Um Dia Muito Especial (5ª, 18h30), e, para fechar a programação, As Duas Vidas de Mattia Paschal (5ª, 20h30). Não apenas o ator, mas os diretores - Visconti, Monicelli, Bolognini, Fellini, De Sica, Marco Ferreri e Scola - oferecem uma súmula das transformações ocorridas no cinema da Itália, nos anos 50 e 60. Superada a página do neorrealismo, no imediato pós-guerra, o cinema italiano mudou. A cara de Mastroianni estampou muitas dessas mudanças. Quando morreu - em 1996, aos 72 anos -, o jovem que tivera tardiamente seu reconhecimento era ?maior que a vida?, um mito. Serviço Marcello. Ciclo. CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. Grátis. Até 8/3

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