Marcados para viver nas fotos de Claudia Andujar

Série de retratos dos ianomâmis feitos no início da década de 1980 em trabalho de saúde se transforma em livro e é exibida em mostra na Galeria Vermelho

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Pelo ritmo dos médicos que foram com Claudia Andujar, no início da década de 1980, para os territórios habitados pelos ianomâmis (com o objetivo de fazer levantamento da saúde e vacinação dos índios), a fotógrafa demorava demais para fazer os retratos de cada um dos que comporiam uma mera documentação. "Para eles, deveria ser um clique e acabou, mas para mim não poderia ser assim, e acho que não demorei", diz Claudia, que, já em tempos anteriores, por quase toda a década de 1970, estabeleceu com ianomâmis uma intensa relação. Seu trabalho fotográfico sobre os índios se tornou a grande marca de sua trajetória. Como os ianomâmis não tinham nome próprio naquela época, por viverem em pequenas comunidades nas quais bastava serem identificados pelo grau de parentesco, para serem documentados nas fotografias, eles receberam plaquetas com números. O trabalho se transformou em uma série especial de Claudia Andujar, Marcados, que agora é publicada em livro, editado pela Cosac Naify (154 págs., R$ 79), e também celebrada em exposição na Galeria Vermelho. Tanto lançamento quanto abertura da mostra ocorrem na terça-feira. No dia 12, ela faz tarde de autógrafos da obra na SP-Arte/Foto.

Na 27ª Bienal de São Paulo de 2006, a fotógrafa, nascida na Suíça, criada na Hungria e nos EUA até chegar ao Brasil, em 1955 - e daqui não mais saiu, tornou-se sua pátria -, apresentou uma parte da série. Foi a partir da própria Bienal que Claudia pensou em fazer um livro sobre Marcados. "Fiquei refletindo sobre meu passado que tem uma identificação com esse trabalho", diz a fotógrafa. No texto de apresentação do livro, Claudia faz um paralelo entre 1944, quando, aos 13 anos, na Transilvânia, teve seu encontro com os "marcados para morrer": sua família, amigos e Gyuri, rapaz judeu que amou, tinham a estrela de Davi costurada à roupa.

Muitos foram os sofrimentos na vida da fotógrafa, mas seu trabalho com os índios sempre foi uma luta pela vida - em 1977, ainda no regime militar, ela foi expulsa pela Funai da área indígena e logo em 1978 se tornou a coordenadora do Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY). Nessa série, eles eram os "marcados para viver". "A situação de saúde estava péssima. Uma epidemia entrou pelo contato com os brancos na época da construção da Rodovia Perimetral Norte", conta Claudia. Por meio dessa missão realizada entre dezembro de 1980 e 1983 com os médicos Rubens Branco (já morto) e Francisco Pascalichio, eles explicaram aos ianomâmis o que acontecia e ainda os vacinaram.

O livro Marcados traz 113 retratos em que ianomâmis posam com fichas numeradas - na edição, são colocados em pares. E há uma apresentação da fotógrafa e o belo texto O Último Círculo, de Stella Senra. É uma emoção ver, uma a uma, as fotos em preto e branco. "O olhar é a alma de cada pessoa", diz Claudia. A exposição na Vermelho apresenta, além de fotos em preto e branco, imagens inéditas da série, retrabalhadas no passado por Claudia, ganhando cores.

Serviço

Claudia Andujar. Galeria Vermelho. Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis, telefone 3138- 1520. 10 h/19 h (sáb., 11 h/17 h; fecha dom. e 2.ª). Grátis. Até 4/10. Abertura na terça-feira (8), 20 h

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