Mar de lama e fundo do poço

O Brasil das crise era sempre um "mar de lama", mas hoje começa a estar "no fundo do poço". Metáforas são exageros. Mas dizem muito sobre nosso modo de conceber e viver o "político": o exercício consciente do que queremos coletivamente e a calibragem entre esses projetos e os valores que fazem parte de nosso sistema cultural e, como bons ou maus pastores, tangem nossas ações e intenções.A imagem do "fundo do poço" individualiza e - quando não se espera que lá do fundo surja uma verdade absoluta - ela obriga a gritar por socorro e achar uma saída. Já a do "mar de lama" é coletivista e faz parte do repertório de castigos divinos que - como o dilúvio universal - não separam o justo do pecador. A opinião segundo a qual é mesmo impossível controlar a corrupção governamental, da qual - entretanto - estamos nos livrando, é a mais perfeita expressão do "mar de lama" cuja podridão a todos ofende. Seu último exemplo foram os ilícitos que levaram ao impeachment de Collor, hoje - e haja afinidade com o paradoxo - senador sentado ao lado direito (ou esquerdo?) de Lula na sacrossanta ceia dos tempos mágicos de uma popularidade que tudo legitima, inclusive a crise do Senado pela insistência em sustentar, em nome de coalizões e planos futuros, o ex-presidente José Sarney.Não vi ninguém fala em mar de lama, mas tenho certeza de que a ideia do fundo do poço chegou para ficar. Trata-se de uma mudança perceptível de comportamento, pois se o mar de lama não tem jeito, o fundo do poço exige soluções e revela um começo de crença no conserto. Foi ela que nos tirou da hiperinflação e impôs o fim do diletantismo traduzido em politicalha barata em áreas que não podem prescindir de honestidade, racionalidade e eficiência sob pena de destruir o espírito nacional, como a economia. A saída do poço inflacionário nos faz ver que, apesar de tudo, o denuncismo tem cura. O primeiro remédio é construir uma oposição. Coisa complicada num liberalismo que justifica o plano B da revolução; sustenta a aristocratização e o enriquecimento dos políticos e, haja desgraça, a eleição de candidatos bandidos. Para um liberalismo sério, precisamos de uma oposição que não reitere a mesma conduta dos seus adversários. O que atualmente vemos no Parlamento é um jogo de futebol onde os times jogam um contra o outro, mas não param de fazer gol contra.Acertamos a economia, mas ainda não conseguimos despatrimonializar e desfamiliarizar o nosso sistema de governo na área onde ocorre a crise: no âmago do sistema partidário, centro da representação eleitoral que é - apesar dos seus defeitos - indispensável nas democracias liberais. É preciso tirar do fundo do poço essa "ética de condescendência" não prevista pelos inventores da teoria sociológica e pelos salvadores do Brasil.Ética que, como explicitou José Sarney, tem como marca distinguir o delito da pessoa (e do grupo) no poder o que promove uma espúria visão gradual e "católica" das faltas, divididas em grandes ou pequenas, veniais ou mortais; ou apenas como triviais desvios habituais em qualquer grupo fechado de iguais. Ninguém tem dúvida, como ensinou Max Weber, que o viver da e para a política, implica a criação de uma categoria especial de pessoas: os políticos profissionais. Mas não se trata - como revela o discurso de Sarney - de um clube de elite voltado para si mesmo, operando apenas na base da família e da amizade, dentro do velho princípio do "dar para receber". Que o favor seja impossível de evitar num sistema que até, mais ou menos o ano passado foi escravocrata, aristocrata e capitalista, entende-se; mas que ele seja o foco dominante dos políticos e continue a ser a mola implícita de um arranjo batizado, por ausência de visão sociológica, de "coalizão", é um despropósito. O problema das coalizões em sociedades baseadas nas relações pessoais é que, em nome da possibilidade de governar com todos (na utopia de um governo democrático sem conflitos e crises), elas trazem de volta e legitimam a personalização que estimula a mais absoluta ausência de princípios. E, sem eles - como foi claro no caso da economia e hoje é óbvio na política - não se enxerga mais onde foi parar o Brasil que o sistema político e os políticos devem honrar e servir.Adversários morais não podem virar aliados, sem uma profunda transformação comportamental. Nas coalizões feitas de favor e regadas à condescendência, estimula-se o diletantismo e a ineficiência num momento em que os problemas nacionais demandam o oposto. Ademais, como pensar em valores, se a rotina política de distribuição de cargos e benesses promove contradições impensáveis como a descoberta de que o Senado eleito pelo povo tem uma lado secreto e legisla para si mesmo, beneficiando os senadores e seus 11 mil funcionários e suas famílias, em vez de legislar para fora como é o seu destino como poder republicano?Quando uma república descobre que todos os seus poderes reproduzem, sem nenhuma vergonha, a desigualdade para a qual ela foi proclamada para dirimir; quando se sabe que o Brasil está bem na área econômica e do trabalho em geral; quando nos damos conta de que a política enriquece, envergonha e aristocratiza mais do que nivela, não há outra conclusão. Não vamos nos afogar no mar de lama que indicaria (como já estão dizendo) o fim da democracia liberal e da imprensa livre. Vamos - isso sim - tirar a política do fundo do poço.

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