Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Mansão no Morumbi se transforma em galeria de arte antes de ser derrubada

Artistas plásticos e grafiteiros têm se reunido par produzir obras que, em breve, serão destruídas e estarão disponíveis apenas no universo virtual

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 05h00

Criar, digitalizar, demolir e eternizar. Esse é o ciclo criativo que está dando vida ao projeto Casa NFT – que acontece em uma mansão prestes a ser demolida, no bairro do Morumbi. Por lá, artistas plásticos e grafiteiros têm se reunido para produzir obras que, em breve, serão destruídas e estarão disponíveis apenas no universo virtual.

Mas o primeiro passo para entender o que está acontecendo nessa mansão é saber o que é NFT (non-fungible token – ou token não fungível). Trata-se, basicamente, de um certificado que atesta a originalidade e exclusividade de um bem que só existe digitalmente. Esse bem pode ser uma infinidade de coisas, como obras de arte, músicas, fotos, memes e muito mais.

Para se ter uma ideia desse novo mercado, no último mês de junho, o meme conhecido como Doge (a imagem de um cachorro da raça Shiba Inu) foi vendido por R$ 20 milhões (de acordo com a NBC News). E, no mês passado, um coletivo europeu chamado Unique One adquiriu um suposto rascunho de Picasso e, depois de fotografá-lo, queimou a obra e registrou o que sobrou – as duas imagens serão leiloadas como NFT.

Interessado nas possibilidades do NFT e também inspirado por duas ações radicais envolvendo obras do artista britânico Banksy (Girl With Balloon, que foi triturada logo após ser leiloada, e Morons, que foi queimada em uma live para depois ser vendida por NFT), o empresário Alexandre Travassos começou a vislumbrar o que seria a Casa NFT.

“Um amigo de uma construtora me falou sobre a mansão que seria demolida para a criação de um condomínio de seis casas no Morumbi. Eu pedi para ver e fiz a proposta. No começo, queriam emprestar o espaço, mas preferi fazer negócio. A construtora ficará com 5% de cada obra vendida no futuro”, disse Travassos. “Eles também colocaram três regras: eu não podia incomodar os vizinhos, não podia encostar nas árvores (que são catalogadas) e seria responsável por qualquer acidente que acontecesse aqui dentro”, afirmou ele, durante a visita do Estadão ao local. 

Com a mansão de 1 mil metros quadrados de área construída à disposição até o próximo dia 23 de agosto, Travassos começou a buscar artistas que tivessem interesse no projeto. A ideia era usar as paredes e cômodos da casa como plataforma para a criação de arte urbana – que seria fotografada, digitalizada e, futuramente, negociada por NFT. 

Para dar o pontapé inicial no projeto e estudar as possibilidades de intervenção, Travassos contou com dois artistas: Fernando RV e Feione. Os dois foram os primeiros a entrar na mansão e usar quarto e sala como plataforma para seus grafites. “A partir daí, comecei a ir atrás de outros artistas. Eu ia procurando no Instagram e mandando mensagens, contando a ideia”, explica.

Com a entrada de dois nomes bastante conceituados da arte urbana, como EDMX (Henrique Montanari) e Binho Ribeiro, outros artistas começaram a se interessar pelo projeto – que acabou fechado com 73 nomes, responsáveis por 130 obras que estão espalhadas pelas paredes da casa e outros locais, como a piscina e a caixa d’água. “As pessoas se interessaram pelo conceito. Não teve grana de saída. O que rolou foi que, para alguns, a gente disponibilizou tintas ou uma ajuda de custo para condução e esse tipo de coisa”, comenta Travassos. Parte do trabalho já está disponível no Instagram @casa_nft. 

EDMX estava na mansão quando a reportagem visitou o local. Perguntado sobre a sensação de ver uma obra ser demolida depois de uma vida tão curta, EDMX explicou que essa é a natureza da arte de rua. “Estou acostumado a pintar na rua. É uma arte efêmera que, às vezes, dura um dia. Já venho trabalhando o desapego”, comentou EDMX, que também está em cartaz com a exposição Análogo Digital, com obras que resgatam trechos de videoclipes clássicos dos anos 1990 (na galeria Alma de Rua, que fica na Rua Ferreira de Araújo, 690).

A arte “impressa” na mansão representa várias vertentes da arte de rua, que vai do “pixo” mais tradicional ao uso de técnicas diferenciadas, como pintura em carvão, com velas e outros. Lá, você encontra grafites que também passam por diversas escolas, que vão do abstrato aos mais figurativos. Interessante observar que alguns artistas aproveitaram elementos da própria casa para compor suas obras, como papéis de parede e pastilhas. Além dos artistas citados, nomes como Mari Pavanelli, Denys Evol, Vinícius Caps (responsável pela arte da caixa d’água) e outros fazem parte do projeto.

A mansão não está aberta para visitação pública – agora vive seu momento de digitalização das obras. “No dia 23, chegam os tratores. Vai tudo para o chão. Mas tudo estará registrado e eternizado em NFT”, falou Travassos. Além disso, tão logo a mansão venha ao chão, as pessoas poderão visitá-la virtualmente e conhecer todas as obras. “A destruição faz parte do processo. É o ciclo que precisa se fechar”, completa Travassos.

Segundo o empresário, ainda não existe um preço ou perspectiva de preço por obra. “Após a digitalização, vamos nos reunir com cada artista e entender caso a caso. O valor da obra (depois que ela virar um NFT) será baseado no momento do artista no mercado e no produto final”, explica. 

Em breve, a Casa NFT deve ganhar outros espaços na cidade. A construtora responsável pelo imóvel, a Gamboa, interessou-se em ampliar sua participação no projeto e deve oferecer outras casas para a criação de galerias temporárias. 

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