Manifesto sobre arte neoconcreta faz meio século

Redigido por Gullar, documento lançado em março de 1959 teve adesão de Amilcar de Castro e Lygia Clark, entre outros

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

No dia 23 de março de 1959, o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil publicou um texto do poeta e crítico Ferreira Gullar que iria se transformar num documento bombástico, o Manifesto Neoconcreto, um dos poucos traduzidos fora do Brasil e já parte da história da arte contemporânea internacional. Ao completar meio século, o manifesto, escrito para servir como introdução à 1ª Exposição de Arte Neoconcreta do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), pode parecer apenas um texto radical ou uma distante tentativa de questionar o dogmatismo e a "perigosa exacerbação racionalista" dos poetas e artistas pertencentes ao movimento concreto paulista. No entanto, ainda há muito o que discutir e aprender, tanto com os concretos de São Paulo como os neoconcretos do Rio, que respondem juntos pelo melhor momento da arte brasileira no século 20 e por nomes históricos ligados a ele de forma umbilical, destacando-se Hélio Oiticica e Lygia Clark.Passados 50 anos, o maranhense Gullar, autor do manifesto, mantém cautelosa distância das polêmicas que ainda animam o meio cultural sobre a vanguarda brasileira desse momento em que Brasília estava prestes a ser inaugurada e o Brasil ingressava na modernidade cantando a bossa de João Gilberto. Gullar não preparou nenhuma exposição para lembrar a assinatura do manifesto, mas concedeu escrever uma introdução no caderno especial que o Jornal do Brasil deve lançar em março para marcar os 50 anos da sua publicação. O manifesto foi assinado pelo poeta e crítico de origem turca Theon Spanudis, pelo jornalista e poeta paulista Reynaldo Jardim, o escultor mineiro Amilcar de Castro, o escultor austríaco Franz Weissmann, pela artista mineira Lygia Clark e a carioca Lygia Pape. Eles não formavam propriamente um grupo nem moravam na mesma cidade. Spanudis, um dos primeiros a reconhecer o talento de Volpi, residia em São Paulo, onde também trabalhava o escultor Willys de Castro, que aderiu ao manifesto de Gullar, até hoje morando no Rio.Não se tratou, portanto, de uma luta política entre neoconcretos cariocas e concretos paulistas. "O manifesto não nasceu como oposição ao movimento concreto", declara Gullar, contestando a interpretação de que se tratou de um confronto político para enfraquecer a influência do pintor paulista Waldemar Cordeiro, líder do movimento concreto, um gramsciano contrário ao subjetivismo na arte - que, em sua concepção, deveria estar ligada à ideia de uma revolução marxista. Cordeiro chegou mesmo a entrar de óculos pretos numa das primeiras bienais que apresentou os voluntariosos franceses da abstração multicolorida, ele que chegou a sugerir aos pintores concretos usar apenas o preto-e-branco para evitar justamente a carga subjetiva inerente ao cromatismo. Falar em intuição, inspiração ou sensibilidade perto de Cordeiro significava virar inimigo mortal do artista e teórico, considerando sua visão do que deveria ser a arte - uma manifestação ao nível da evidência e capaz de ser entendida por qualquer espectador, independente de seu repertório.O concretismo não queria ser econômico apenas na paleta. Queria reduzir a pintura a uma construção dentro de uma ordem geométrica rigorosa, anulando a cor como elemento sensual. "Pensei muito sobre isso e hoje chego à conclusão de que a arte neoconcreta é, na verdade, a negação da concepção de Max Bill e Vantongerloo", diz Gullar. "Max Bill chega a falar que o trabalho dele é a exploração das energias do campo visual, isto é, uma arte retiniana que nada tem a ver com a mensagem subjetiva, afetiva, dos neoconcretos", observa o poeta. O designer, arquiteto e pintor suíço Max Bill (1908-1994), cujo centenário de nascimento será comemorado em dezembro, foi a referência máxima dos artistas concretos, como se sabe. É tido como o artista que introduziu a abstração geométrica no Brasil, na 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. Além disso, ajudou a popularizar o conceito universalista de arte concreta de Theo van Doesburg."A arte que se desenvolveu no Brasil depois de Max Bill é a que explorou simplesmente o campo dinâmico visual sem a participação dos outros sentidos", resume Gullar que, influenciado pelas ideias do filósofo francês Merleau-Ponty ( 1908-1961) - outro cujo centenário de nascimento se comemora em março -, adotou suas lições de fenomenologia para combater a visão cientificista que tinham os concretos da realidade e abraçar a ideia do objeto que, após percebido pelo espectador, entra em sua consciência e passa a ser um fenômeno, desvendado por sua intuição. Os concretos, segundo o manifesto de Gullar, veriam o homem como "uma máquina entre máquinas". Os neoconcretos, por sua vez, não concebiam a obra de arte nem como máquina nem como objeto, mas como um "quasi-corpus" que não se limita a ocupar um lugar no "espaço objetivo", transcendendo-o. Da mesma forma, não aceitavam a palavra poética como objeto passível de ser transformado em "sinal ótico". A poesia neoconcreta, defendia Gullar, devolvia a palavra à condição de verbo , abrindo um novo campo para experiências expressivas.Aliás, foi com um livro de poemas que a história neoconcreta começou. Gullar revela a história no livro Experiência Neoconcreta (lançado em 2007 pela Editora Cosac Naify, 164 págs., R$ 68), em que conta como seu livro de poemas A Luta Corporal (1954), diagramado e editado pelo poeta, refletiu sua preocupação com o uso do espaço em branco na estruturação espacial dos poemas, chamando a atenção dos concretos Augusto e Haroldo de Campos em 1955. Ambos ficaram impressionados, embora os irmãos paulistas tivessem reservas sobre o caráter "destrutivo" do livro, uma vez que consideravam a poesia concreta como filha dileta do movimento construtivo. De qualquer modo, durou dois anos o "namoro" com os paulistas até que, em 1957, Haroldo de Campos enviou a Gullar um texto algo provocativo intitulado Da Fenomenologia da Composição à Matemática da Composição, decretando que a poesia concreta, a partir dele, deveria ser feita segundo equações matemáticas. Gullar deu o troco: publicou um artigo com o título Poesia Concreta: Experiência Intuitiva, que marcou o divórcio entre os dois grupos. A ruptura traria como consequência a redação do Manifesto Neoconcreto dois anos mais tarde.Gullar admite que isso em nada diminui a importância da contribuição de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari à literatura brasileira, mas lembra que o poema "matemático" dos concretos nunca saiu do papel, enquanto sua teoria do não-objeto, nascida no mesmo ano do Manifesto Neoconcreto (1959) rendeu algumas das melhores obras de Lygia Clark, como sua Superfície Modulada (placa de madeira cortada em duas por uma fissura), início, segundo Gullar, de um desmembramento do quadro de que surgiram os Casulos e depois os Bichos (esculturas articuláveis em metal), duas das séries mais disputadas da artista neoconcreta.Essa teoria do não-objeto é uma das mais originais contribuições de Gullar. Resultou de uma reflexão demorada sobre a arte moderna, mais particularmente da arte não-figurativa. "Um dia a Lygia Clark nos convidou para um jantar e mostrou uma obra que fez com tábuas de madeira, uma sobre as outras, e então fiquei pensando sobre elas até chegar ao nome não-objeto, que não significa um objeto inexistente, mas uma obra que nasce do abandono do espaço virtual e da ação pictórica." Exato como os "bichos" de Lygia, que pedem a manipulação do espectador, tirando-o de sua atitude passiva de contemplação, a maior conquista do Manifesto Neoconcreto. Vetores Neoconcretos AMILCAR DE CASTRO: Ao lado do carioca Sergio Camargo e Franz Weissmann, o mineiro (1920-2002) forma a trindade construtiva da escultura brasileira. Jamais abjurou o Manifesto Neoconcreto, mas seguiu sua jornada individual, assim como Volpi, definido como pintor concreto quando, na opinião de Gullar, estava mais próximo da herança renascentista. "Assim como Amilcar, Volpi foi um intuitivo, jamais viraria um racionalista", defende, observando que ambos escaparam da dependência do movimento para criar uma obra autônoma. LYGIA CLARK: Considerava os dois momentos do concretismo uma coisa só, entendendo que a posição dos concretos era radical, racionalista, enquanto a questão dos neoconcretos era com a expressão e a fenomenologia de Merleau-Ponty. Esses dois dados é que caracterizariam a diferença entre os dois grupos, segundo ela, que desenvolveu trabalhos ligados à percepção sensorial, envolvendo o corpo dos espectadores em experiências terapêuticas. Lygia (1920-1988) foi próxima de Hélio Oiticica, que rompeu com o construtivismo. HÉLIO OITICICA: Até 1959, quando aderiu ao manifesto de Gullar, o artista carioca (1937- 1980) manteve certa reverência aos suportes tradicionais da arte. Trocando a tela pelos relevos, por pouco tempo Oiticica conservou-se fiel ao neonconcretismo, rompendo com a consciência construtiva ao seguir sua intuição e partir para experiências ambientais, criando instalações e objetos para serem usados e abusados pelo público (como os parangolés, capas que surgem nos anos 1960, anunciando o movimento tropicalista).

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