Manderlay, para pensar na política norte-americana

Há um cinema que busca o maior realismo possível e há o cinema que se expõe abertamente como artifício. Ambos podem ser eficientes e o dinamarquês Lars von Trier leva ao extremo sua opção de revelar os modos de funcionamento da sua arte.O propósito é político, parece. Manderlay (Telecine Cult, 1h35), espécie de continuação de Dogville, dá seguimento a esse projeto que faz do estúdio de filmagem uma variante do teatro. Tudo para mostrar que aquilo é encenação e o espectador não deve se fascinar, mas refletir sobre o que vê. Esse efeito de distanciamento é produzido pelas casas e pelo traçado das ruas que são, na verdade, plantas baixas das edificações. O tema da história pode ser resumida como a permanência dos ideais escravocratas mesmo após a abolição. A heroína Grace (Bryce Dallas Howard) vê um escravo prestes a ser punido na propriedade chamada Manderlay. Imbuída da mais sagrada indignação civil, Grace resolve insuflar na população lições elementares de virtude democrática. Evidente que Von Trier quer glosar esse sentimento evangelizador dos EUA, que deu na invasão do Iraque entre outras proezas.Para quem deseja outro tipo de filme, a dica certeira é o clássico Chinatown, de Polanski, no mesmo canal às 19h35.

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