Obra de Erika Verzutti e Pitágora Lopes que estarão em exposição no Panorama do MAM, que abre dia 3 de outubro. Foto: Sebastiano Pellion di Persano/Divulgação
Obra de Erika Verzutti e Pitágora Lopes que estarão em exposição no Panorama do MAM, que abre dia 3 de outubro. Foto: Sebastiano Pellion di Persano/Divulgação

MAM faz de seu Panorama uma prova de que a arte é atemporal

Mostra no Museu de Arte Moderna, no Parque do Ibirapuera, abre no dia 3 de outubro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2015 | 03h00

Há muito tempo, a crítica Aracy Amaral planejava uma exposição em que a arte ancestral dialogasse com a contemporânea, para evidenciar não só as relações formais como existenciais entre artistas modernos e artesãos da chamada Terra Brasilis, território pré-cabralino em que eles enfrentam dificuldades desde tempos imemoriais. Finalmente, essa oportunidade surgiu com a 34.ª edição do Panorama de Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna (MAM), exposição bienal que será aberta dia 3 de outubro com a participação de seis artistas contemporâneos. Eles foram convidados pela curadora Aracy Amaral e o curador adjunto Paulo Miyada para refletir sobre o legado cultural dos povos que habitaram o litoral brasileiro na pré-história, construindo sambaquis por toda a costa.

Hoje, os sambaquis mais importantes estão no litoral sul de Santa Catarina, mas eles estão distribuídos por toda a costa. Alguns têm mais de 30 metros de altura e foram erguidos na época em que os egípcios estavam construindo suas pirâmides. Outros são até mais antigos que as pirâmides. Por tudo isso, as peças pré-históricas encontradas nesses sambaquis – morros feitos de conchas que serviam tanto para edificar habitações como cemitérios – são excepcionalmente raras, ainda mais que, até recentemente, eles eram destruídos e serviam como material ordinário de construção.

Sobraram mais ou menos 300 peças escultóricas, das quais 60 estarão no Panorama do MAM, devidamente expostas em vitrines, desenhadas pelo arquiteto Álvaro Razuk e equipe. Elas servem como vetores da produção contemporânea – e a curadora aponta uma das peças que remete mesmo a uma forma conhecida do escultor romeno Brancusi. “Quero chamar a atenção para a arte como manifestação atemporal, mostrando que há uma harmonia entre os artistas pré-históricos e a natureza que talvez tenha se perdido”, justifica a curadora Aracy Amaral.

De fato, pelos trabalhos apresentados no Panorama, esse desequilíbrio parece evidente. Tanto que o fotógrafo Miguel Rio Branco, em sua instalação Wishful Thinking, ergue um sambaqui artificial com pedras, entulho, aparelhos de televisão (que exibem ruínas urbanas) e plantas que reforçam a transformação do território brasileiro num depósito de lixo.

Cildo Meireles, outro nome internacionalmente conhecido, concretiza na mostra um antigo projeto seu de 1969, que era o de colocar uma pedra no cume do Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, com 2.994 metros. Para tanto, o artista patrocinou uma expedição de oito homens que saíram da aldeia ianomâmi de Maturacá, subiram o rio Cauaburi e seguiram por uma trilha que leva ao topo em quatro dias de caminhada. O registro da odisseia amazônica está em exibição, em vídeo. O Pico, agora, ficou alguns centímetros mais alto, sintonizado com o mito do “Brasil grande”.

Mas, como nos sambaquis originais, a função ambivalente das peças (o que é lar pode virar tumba) se reflete na instalação da mais jovem entre os selecionados, Erika Verzutti. Ela mostra seus “cemitérios” (peças que dão errado e são reunidas num sambaqui moderno) ao lado dos zoólitos (pedras em formas de animais) e antropólitos (artefatos com formas humanas) dos povos sambaquieiros. O videomaker Cao Guimarães preferiu traçar uma correspondência analógica com os novos sambaquis, formados por trabalhadores que separam moluscos das valvas no litoral catarinense. Os grupos construtores de sambaquis ancestrais alimentavam-se de moluscos, peixes e pequenos animais, que retratavam em pedras.

Finalmente, os dois outros artistas, o pintor goiano Pitágoras Lopes e a paraense Berna Reale, optaram por versões mais livres e sociológicas, o primeiro com painéis que lembram pinturas rupestres mescladas a elementos modernos. Berna Reale tem dois trabalhos na mostra, um vídeo sobre a violência urbana, em que pesquisa o plástico usado para ensacar corpos no IML (o mesmo usado para embalar ternos de políticos), e a representação da barbárie num ambiente real, uma boate com paredes perfuradas por balas.

“Em direção contrária aos contemporâneos, os sambaquieiros pareciam respeitosos com o ambiente e sumiram sem deixar resíduos de violência”, diz o curador Paulo Miyada. Tudo indica que eram pescadores-coletores de hábitos sedentários e mania de acumular artefatos em montes. Uma coisa é certa: eram grandes artistas.

34º PANORAMA DO MAM

Museu de Arte Moderna. Parque do Ibirapuera, portão 3, tel. 5085-1300. Abertura: 3/10. 3ª a dom., 10h/17h30. R$ 6. Até 18/12

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