Instituto Antonio Bandeira/MAM
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MAM abre exposição de Antonio Bandeira, pioneiro abstrato

A mostra reúne 60 obras do pintor cearense, morto em 1967, que morou vários anos em Paris

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2019 | 07h00

Pioneiro do abstracionismo no País, o pintor cearense Antonio Bandeira (1922-1967) foi consagrado em vida e continua muito valorizado meio século após sua morte. Tanto que é hoje um dos artistas mais falsificados do Brasil, condição que poderá mudar quando for publicado o catálogo raisonné de Bandeira preparado pela Base7 Projetos Culturais, que realiza a mostra Antonio Bandeira em conjunto com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). A exposição, com mais de 60 obras do artista, será aberta amanhã (10) com curadoria de Regina Teixeira de Barros e Giancarlo Hannud. A dupla selecionou trabalhos representativos de quase todos os períodos de produção de Bandeira, pertencentes a instituições e coleções privadas.

É possível que, a exemplo de Modigliani, Bandeira ganhe mais de um catálogo – o já citado é patrocinado pela Fundação Edson Queiroz, que emprestou obras para a mostra do MAM. O raisonné deveria ter sido lançado em 2017, mas já está pronto, segundo Ricardo Ribenboim, um dos diretores da Base 7 Projetos Culturais, aguardando apenas a aprovação do patrocinador. Tem mais de 900 obras, de acordo com Ribenboim. O segundo catálogo é organizado pelo marchand Max Perlingeiro. O número de obras realizadas por Bandeira deve girar em torno de 4 mil, conforme cálculos de Perlingeiro feitos há três anos. Esse número sempre surpreende: o catálogo de Tarsila, que registra mais de 2 mil obras, inicialmente foi previsto para incorporar um pouco mais da metade delas.

Seja como for, são telas milionárias – nunca inferiores a R$ 500 mil e por vezes superiores a R$ 5 milhões. Nada mal para quem, no começo de carreira, em 1945, tinha de dormir numa rede instalada no quarto minúsculo dividido com o pintor Aldemir Martins, no Rio – condição que não mudou quando se instalou em Paris com uma bolsa de estudos. Na capital francesa, ao desembarcar, em 1946, foi morar numa liliputiana mansarda, mas, ao voltar para a derradeira temporada parisiense, após o golpe militar de 1964, ficou melhor instalado na rue Surcouf, a ponto de seu apartamento ser alvo de uma reportagem de revista de decoração. Sua situação financeira era incomparavelmente melhor.

A exposição do MAM tem obras de ambos os períodos. No “pobre”, dos anos 1940, que abre a mostra, é possível ver um autorretrato pintado sobre uma folha de jornal, mas também aquarelas que fez em Paris, quando já estava enturmado com os boêmios de Saint-Germain-de-Près e participava de encontros com o francês Camile Bryen (1907-1977) e o fotógrafo e pintor alemão Wols (1913-1951). Com eles teria formado um trio, realizado obras conjuntas e organizado pelo menos uma exposição, em 1949, história colocada em dúvida pela curadora da mostra, Regina Teixeira de Barros.

“Eles foram, de fato, muito amigos, a ponto de Wols ter influenciado Bandeira a tentar a abstração, mas não existem trabalhos conjuntos assinados com as iniciais dos três (Banbryols), ou pelo menos não foram localizados”, observa a curadora. Anarquista como era Wols (Alfred Otto Wofgang Schulze), dificilmente ele participaria de algum grupo ou aceitaria fazer uma exposição, reitera a doutora em História de Arte e professora Maria de Fátima Morethy Couto, num estudo sobre a recepção da obra de Bandeira no exterior.

Nele, a professora defende que a imprensa brasileira exagerou no mito do triunfo internacional de Bandeira, citando exemplos como sua participação no Salão de Outono de 1947, apresentada como prova de sua rápida assimilação em Paris. Não foi bem assim. Ao partir para a França, em 1946, ele era, segundo Morethy Couto, “um jovem artista provinciano de 23 anos que saíra no ano anterior de sua cidade natal, Fortaleza, em busca de sucesso no Rio”. Suas primeiras telas, escreve ela, retratam, em sua maioria, “figuras do povo em cenas banais”. Um crítico da época criticou, inclusive, o expressionismo “rude, áspero e muito convencional” dessas telas de forte conteúdo social. Um exemplo na mostra é uma das pinturas no segmento dedicado aos anos 1940, Fundição.

Dessa época os retratos e autorretratos realizados pelo artista parecem mais livres em sua gestualidade expansiva. Autodidata, ele só frequentaria a academia em Paris, ao ganhar uma bolsa do governo francês (ele estudou na École Superieure des Beaux Arts e na Academie de la Grande Chaumière). Convivendo com o mundo intelectual francês e frequentando museus, era natural que Bandeira se apaixonasse pela pintura de Paul Klee (que também começou como figurativo) e enveredasse pela linguagem abstrata. Também não se pode esquecer de sua adesão ao tachismo, o equivalente francês do expressionismo abstrato norte-americano, em seu auge quando o brasileiro desembarcou em Paris. Há muito de Appel, Michaux e Jackson Pollock nas telas que sugerem cenas noturnas nas grandes cidades de Bandeira – construídas com drippings, carimbos e outras técnicas experimentais que marcam sua pintura dos anos 1950.

A curadora destaca uma tela pintada em Capri em 1954, quando ele volta ao continente europeu após ganhar um prêmio na 2.ª Bienal de São Paulo. A pintura, como outras da segunda sala da exposição, sugere uma paisagem que emerge de minúsculos pontos luminosos, o que justifica a aproximação com as telas da portuguesa Vieira da Silva. “São telas de trama mais fechada, em que ele acentua o dripping (gotejamento) à maneira de Pollock”, diz. Também poeta, é possível ver na quarta sala uma homenagem a um dos poemas mais conhecidos de Rimbaud, Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado). Como o poeta francês, Antonio Bandeira parece, enfim, se libertar de seus rebocadores ao criar, nessa tela de 1963, seu próprio estilo.

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