Mallarmé, a eternidade em si mesmo

Dois tributos literários chamam a atenção pela seriedade e competência com que analisam e dissecam o autor e sua obra

Ivo Barroso, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Em 1957, quando uma buliçosa exaltação se apoderava de nossos meios literários, Mário Faustino, o crítico de maior lucidez e influência de então, publicou, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, um longo ensaio sobre Stéphane Mallarmé, que permanece até hoje o texto, ao mesmo tempo mais "seletivo" e mais abrangente, que se escreveu entre nós sobre o grande simbolista francês do século 19. Mallarmé - dizia Faustino a certa altura - "é uma torre absoluta e solitária, um animal sagrado e estéril, sem descendência mas indispensável" - fórmula admiravelmente sintética para dizer que a personalidade poética de Mallarmé era irreproduzível, que havia criado um estilo que cabia exclusivamente a si próprio e cujas imitações seriam portanto inúteis e/ou despropositadas. Um leitor, amigo das conclusões apressadas, poderá assumir que Mallarmé é uma pedra (ou antes um monumento) incontornável no meio do caminho da literatura.Descrito por um de seus contemporâneos (Catulle Mendès) como criatura frágil, enfermiça, de expressão ao mesmo tempo severa e dolorosa, escondido atrás de volumosos bigodes, esse modesto e eruditíssimo professor de inglês, que viveu boa parte de seu tempo na província, conseguiu cativar a amizade e a admiração dos escritores mais representativos de seu tempo, encantados com sua conversação transcendente e suas concepções peculiares, em especial a respeito de poesia. Vivendo em plena difusão do ensino secundário, quando o conhecimento das artes começava a permear as classes não intelectualizadas, Mallarmé professava que a poesia era um ato de sacrifício, de entrega absoluta em busca do inexprimível e que a função do poeta era integrar-se no Nada. Tal arte seria, pois, destinada aos membros eleitos da "tribo", não podendo ser compreendida pela mediocridade dominante. Daí seu objetivo de criar uma linguagem poética, em que as palavras comuns fossem substituídas por vocábulos eruditos, a construção da frase evocasse a sintaxe latina e o sentido do verso se revestisse de dificuldades, empecilhos ou "máscaras" que o tornassem impenetrável à primeira leitura.No entanto, diversamente da maioria dos poetas de hoje, dos quais não se consegue guardar um incipit que seja, Mallarmé foi criador de alguns dos mais emblemáticos versos da literatura francesa ("La chair est triste, hélas!, et j?ai lu tous les livres", "Aboli bibelot d?inanité sonore", "Solitude, récif, étoile", "Le vierge, le vivace et le bel aujourd?hui", "Tel qu?en Lui-même enfin l?éternité le change", "Donner un sens plus pur aux mots de la tribu", etc., etc.), tornando-se um recordista do fragmentário, da pedra de toque, da gema preciosa, do ônix, do ptyx. Todos os seus contemporâneos lhe reconheceram o valor e a alta aspiração poética, a começar por Verlaine, quem primeiro divulgou seus trabalhos no opúsculo Les Poètes Maudits (1884), ao lado de Rimbaud e Tristan Corbière. Mas nenhum outro poeta, francês ou não, conseguiu emulá-lo: seu único discípulo confesso, Paul Valéry, nunca chegou a ser mais que esforçado faiscador da pureza verbal preconizada pelo mestre.Considerado pela crítica como o primeiro grande poeta essencialmente moderno, preocupado inclusive com a disposição "espacial" do verso, a obra nada volumosa de Mallarmé tornou-se no entanto um reduto fechado, propiciando as mais abstrusas interpretações, como se, para lê-lo, fosse necessário desbravar hieróglifos poéticos ou manuscritos cabalísticos. Das inumeráveis tentativas de "decodificação" desses versos resultava não raro a conclusão de que o "sentido" de um poema estava muito aquém do arsenal estilístico utilizado para ocultá-lo. A mania de "interpretar" essa carpintaria poética consumiu vastidões de páginas não só na França, mas, em certa época, igualmente na América. Os professores universitários Wallace Fowlie e Graham Robb, especialistas em literatura francesa do simbolismo, escreveram tratados em que procuraram unlock (revelar, decriptar) cada um dos poemas de Mallarmé. O leitor masoquista se rejubilará com as artimanhas e prestidigitações que ambos empregam à procura dos significados de "ptyx", "Paphos", etc. O curioso é que esses scholars concluem que o pretenso "sentido" de cada poema permanece muito aquém de sua forma poética, donde ser desnecessário compreender o que "se quis dizer" para se desfrutar simplesmente "aquilo que foi dito". Sem chegar a constituir um "culto" entre nós, Mallarmé vem sendo mesmo assim traduzido desde o simbolismo (Alphonsus de Guimaraens, Batista Cepelos), passando, entre outros, por Luís Martins, Dante Milano e José Lino Grünewald. A meio caminho, Guilherme de Almeida deixou duas exemplares traduções de Aparição e Brisa Marinha. Mas foi em 1975 que o poeta adquiriu definitiva cidadania entre nós com o lançamento do livro homônimo em que nos são apresentados 24 poemas (depois ampliados para 36), insuperavelmente traduzidos por Augusto de Campos, e mais uma tradução tríplice (de Décio Pignatari) do L?Après Midi d?un Faune, finalizando com O Lance de Dados na versão de Haroldo. O livro traz um estudo introdutório e notas esclarecedoras que mapeiam definitivamente a importância literária de Mallarmé.Recentemente, dois tributos literários, à maneira de Le Tombeau de..., chamam de novo a atenção pela seriedade e competência de seus autores: Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé, do prof. Joaquim Brasil Fontes, e Brinde Fúnebre e Outros Poemas, do poeta e tradutor Júlio Castañon Guimarães. O primeiro nos apresenta muito mais do que uma "visita guiada" ao monumento, o mergulho na angustiosa preparação do poeta para o grande livro do Nada, através da análise da correspondência com seus íntimos, nos anos em que vegetou como professor de inglês na província francesa. Há incursões reiteradas pelo terreno das interpretações, com base em estudos consagrados, mas principalmente valendo-se da espontaneidade ou do oportunismo dessas cartas de/para os amigos do poeta. O trabalho revela um verdadeiro culto da poesia mallarmeana e quase insiste na necessidade do conhecimento de todos esses detalhes de bastidores para a sua melhor apreciação. Seus comentários são amparados em freqüentes citações de versos, que aparecem traduzidos em "prosa poética". Para inteira satisfação do leitor, há um adendo com 13 poemas (entre os quais, Les Fleurs e La Chevelure vol d?une Flamme à l?Extrême, não antes traduzidos). O conhecimento do autor não se limita ao "anedotário", aliás volumoso, do poeta; a análise se estende a aspectos de sua sensibilidade ímpar, suas angústias íntimas, seus amores e mesmo às suas atividades esportivas. Trabalho de especialista (da "tribo"), é leitura imprescindível principalmente para os que se iniciam no rito mallarmaico. Brinde Fúnebre e Outros Poemas, de Júlio Castañon Guimarães, é uma seleta de sete poemas em novas traduções, algumas das quais não anteriormente antologiadas (Soupir, Hommage à Puvis de Chavannes e Épouser la Notion). O autor, conhecido por sua competência intelectual, complementa suas traduções poéticas com uma série de anotações em que afirma não ser seu intuito "decifrar" os poemas e sim apresentar "apenas elementos informativos mínimos" que permitam justificar as escolhas vocabulares ou de sentido que nortearam sua tradução. Seu (no caso, sua) Virgílio foi Émilie Noulet, uma das maiores exegetas francesas da obra de Mallarmé. Mas Castañon a confronta com outras fontes e, em determinado momento, chega mesmo a contestar certas hipóteses de H. G. Cohn. Tendo sido sua a primeira tradução brasileira de Prose, o singular (até no título) poema de Mallarmé, considerado seu momento culminante na busca do hermetismo, Castañon não hesita em confrontá-la com duas outras, posteriores, analisando as opções de cada uma. No final desse texto desnorteante aparecem os "nomes" de Anastásio e Pulquéria, para os quais o tradutor encontrou as designações precisas ao relacioná-los com personalidades bizantinas. O livro é uma espécie de visita à oficina do ourives, em que o tradutor põe à mostra o seu instrumental de trabalho. Lição para os tradutores conscientes.Com os já citados e esses dois novos e importantes trabalhos, parece que a obra de Mallarmé pode dispensar novas traduções, até porque, segundo Alain-Fournier, "Mallarmé é intraduzível mesmo em francês". Ivo Barroso é poeta, ensaísta e tradutor. Publicou, entre outros, A Caça Virtual e Outros Poemas e Poesia Completa de RimbaudBrinde Fúnebre e Outros PoemasJúlio Castañon Guimarães (org.)7 Letras110 págs., R$ 27Os Anos de Exílio do Jovem MallarméJoaquim Brasil FontesAteliê Editorial, 176 págs., R$ 29

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