Maliévitch e a arte de abandonar conceitos para quebrar tabus

Maior destaque da mostra Virada Russa, ele largou da pintura figurativa para lidar com o suprematismo

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Era 1915 quando Kazimir Maliévitch exibiu Quadrado Negro na mostra 0.10. Última Exposição Futurista, em Petrogrado, obra marco de seu suprematismo, o da realização de uma arte pura - em latim, "supremus" quer dizer "o mais elevado". Abstração absoluta, apenas um quadrado negro pintado sobre tela branca, era aquela uma ousadia muito grande, que se transformou em uma ação-chave na história. "Não era apenas uma forma de dizer que aquilo era arte, mas que aquele ícone da teoria suprematista representava o ponto de partida de toda arte, de lidar com o supremo", diz Rodolfo de Athayde. "Maliévitch tem uma frase muito interessante: "Eu consegui me desfazer do horizonte, das sombras, das luzes, das perspectivas." Era uma espécie de apagar os conceitos do que era pintura até então, usando a típica forma do quadrado, do quadro, dando a ele uma sustância preta, cor que engole tudo."

O projeto filosófico e religioso de Maliévitch, em paralelo com o construtivismo fundado por Tátlin, e ainda seguido do tratado dos princípios da representação abstrata (Do Espiritual na Arte) de Kandinski, faz parte de um trajeto da vanguarda russa que abriu janelas para toda a arte que seria produzida depois. O suprematismo tornou-se o engajamento do artista e professor, mas já no fim da década de 1920, Maliévitch, como tantos, sentiu o peso da pressão do regime socialista. "Aquela arte de vanguarda começou a ser inútil para os fins ideológicos", diz o curador. O artista voltou ao figurativismo criando figuras sem rostos e impessoais com cores primárias; fez seu autorretrato, em 1933, pouco antes de morrer, se representando como um pintor renascentista. "Não sei até que ponto há uma ironia nisso, mas sua assinatura, no canto do autorretrato, é um pequeno quadrado negro para dizer que ele era aquele conceito", continua Athayde, que se formou em filosofia na Rússia, vivendo por lá entre 1984 e 1991.

A sala de Maliévitch fica no segundo piso do CCBB, mas a exposição tem um caminho cronológico que começa no terceiro andar, chegando ao subsolo do prédio (leia mais ao lado). Inicia-se com obras figurativas de artistas russos em contato com os movimentos da arte europeia do fim do século 19 e começo do 20, mas, mesmo assim, sinalizando que eles "foram bastante rápidos por achar sua linguagem própria", se valendo de temas e repertórios próprios como a inspiração em sua arte popular e na vida dos camponeses. Termina, depois, já com telas com pé no realismo socialista.

Em 2002 foi apresentada em São Paulo, na Oca, a mostra 500 Anos de Arte Russa, mas o desafio da exposição do CCBB era o de jogar todas as luzes para as fontes primárias que se viu depois nas artes moderna e contemporânea. Foram três anos de trabalho de Athayde e da cubana Ania Rodríguez Alonso (eles vivem no Brasil), que conseguiram a parceria com o Museu Estatal de São Petersburgo para a realização da mostra, também com curadoria dos russos Yevgenia Petrova e Joseph Kiblitsky (da instituição).

Serviço

Virada Russa. CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, telefone 3113-3651. 10 h/20 h (fecha 2.ª). Grátis. Até 15/11. Abertura segunda, para convidados, e terça, para público

SIMBOLISMO

Passeio foi pintado por Chagall em 1917, poucos meses antes da revolução. Feito em Vitebsk, para onde se mudou com sua mulher, Bella, a obra é "dedicada à vida matrimonial feliz". O quadro reflete a poética "positiva e encantadora" do artista, mas, mesmo assim, "muito própria", defende Athayde. Chagall se vale de figuração inspirada nos elementos cubo-futuristas, como se pode ver na representação da cidade ao fundo da composição. No período pré-revolução, antes da radicalidade, os russos criaram obras ligadas nos conceitos europeus em voga, mas incorporando o repertório inspirado na arte popular de seu território, como no neoprimitivismo de cores fortes de Natalia Gontcharova ou representando seus cidadãos, como nas telas de Petrov-Vódkin.

CONSTRUTIVISMO

A vanguarda abstrata russa, como diz Athayde, não era "uma arte para o povo", mas o construtivismo, fundado por Tátlin, tinha uma aproximação porque sua "simbologia do progresso" era feita pela incorporação de materiais do cotidiano nas obras. Entre seus seguidores, estavam Liébedev (no alto) e Rodchenko (acima).

EPÍLOGO

No subsolo do CCBB está o segmento dos "sobreviventes das experimentações radicais", define Rodolfo de Athayde. Melhor dizer que lá estão os seguidores da vanguarda, que fizeram suas criações de diversos tipos e aleatoriamente, entre as décadas de 1910 até o fim da década de 1920. Há naturezas-mortas sem nada de ousadia, como as de Machkov ou Kontchalovskio. Mas os destaques mesmo são os famosos cartazes da "gráfica utópica", criações publicitárias que se valem dos ensinamentos da abstração e com dizeres que exaltam o regime socialista - a grande ausência nessa parte são as obras de El Lissitzky, porque ele não está na coleção do museu estatal. Estão também pinturas que preconizam o que seria o realismo socialista, como na tela de Samokhválov (acima).

ABSTRACIONISMO

No terceiro e no segundo andar há obras de um dos grandes destaques da exposição, o artista Pável Filónov (1.ª imagem abaixo). No terceiro andar estão pinturas em que ele cria abstrações a partir da fragmentação de figuras - em A Guerra da Alemanha, corpos, cabeças e braços mutilados estão em caleidoscópio. Depois, no segundo andar, há ainda outras obras de Filónov, no segmento que se abre com as telas de Kandínski (2.ª imagem), que antes de se mudar para a Alemanha, escreveu Do Espiritual na Arte, seu tratado sobre a abstração, baseada na representação de "sensações coloridas".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.