Mais brasileiro do que nunca, Vik Muniz está no Rio

Artista que vive há 25 anos nos EUA e tem obras nos principais museus e coleções do mundo abre no País sua maior mostra

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

22 de janeiro de 2009 | 00h00

Há 25 anos vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, Vik Muniz se sente mais brasileiro do que nunca. E é aqui que o artista paulistano, cada vez mais prestigiado pela crítica internacional, abre hoje a maior exposição de sua obra já realizada: "A maior que já vi dedicada a um fotógrafo da minha idade (47 anos)", o próprio complementa.Vik, que tomou o Museu de Arte Moderna do Rio, é composta por mais de 200 imagens, parte delas monumentais, chegando a três metros de altura. "Com uma exposição como esta, estou finalmente me sentindo o artista brasileiro que sempre fui", diz Vik. No Rio até 8 de março (segue para o Masp em abril), a retrospectiva é mais extensa do que as expostas no exterior (em Nova York, no P.S. 1 Contemporary Art Center, do Museum of Modern Art, o MoMA, em Miami, no Miami Fine Arts Museum, no Canadá e no México), e aplaudidas pelos analistas de arte contemporânea por sua originalidade e caráter ousado."A do Rio é pelo menos 33% maior", calcula o realizador, Leonel Kaz. Estão lá seus primeiros trabalhos, além dos mais recentes, em que Vik se utiliza de objetos extraídos do lixo (com a série Pictures of Garbage colaboraram catadores do Aterro Sanitário de Gramacho, no Rio, o maior da América Latina). E, claro, das célebres imagens em que ele recriou ícones pop a partir de materiais inusitados - as mais conhecidas são a Mona Lisa feita com pasta de amendoim, a Elizabeth Taylor de diamantes, o Che Guevara de geleia, o Frankenstein de caviar, todos devidamente fotografados depois de prontos."É como se fossem várias exposições numa só", conta Kaz, que passou quase dois anos negociando detalhes com o artista, para ele, um "cocurador".O processo de criação de Vik será mostrado em três vídeos no estilo making of. E tudo será acessível a moradores de áreas carentes de centros culturais, que serão trazidos para o MAM pela organização. Incluindo os catadores de Gramacho.São 1.800 metros quadrados só para ele. As obras foram ampliadas de modo que os espectadores possam observá-las em todos os seus detalhes - como as centenas de brinquedos que compõem seu autorretrato, por exemplo. Quem for, sairá de lá mais feliz, acredita Kaz. É que a arte de Vik é muito bem-humorada. "Eu levo o humor muito a sério porque é justamente quando o espectador baixa a guarda que você consegue emplacar um golpe certeiro. Existem vários tipos de humor, mas todos são, em suma, um exercício de lógica e linguagem. Coisas extremamente relacionadas com o meu trabalho."Ele adora observar a reação do público. "A experiência da arte se dá apenas quando o espectador se encontra com o objeto idealizado pelo artista. Uma coisa não funciona sem a outra", explica. "Quando observo este momento, me sinto como um pescador de trutas selvagens testando iscas diferentes, dialogando com a presa."No auge - está no acervo de importantes museus, galerias e coleções particulares; é o curador do Artist?s Choice" do MoMA, o que vê como uma "consagração" de seu hobby de garimpar imagens; é o único representante brasileiro vivo no livro 501 Great Artists of All Times, da editora Penguin Books (Hélio Oiticica também foi incluído); um único trabalho seu pode custar até US$ 180 mil -, ele prevê para os próximos dois anos uma redução à metade do volume de negócios no mercado de arte. "O mercado de arte é como um desses canários que trabalhadores levam consigo quando descem às minas de carvão. Quando o canário morre é que o próximo a morrer será o homem. Na crise atual, o elefante morreu antes do canário e a coisa ficou bem confusa", avalia.Vik acompanha a trajetória política do novo presidente norte-americano - conheceu-o em 2005 e ficou encantado. "Democrata de carteirinha", assistiu à posse pela TV. A imagem de Obama seria à base de que material? "Eu o retrataria com sementes diversas, simbolizando esperança e diversidade."

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