Mahler e Ravel na manhã de domingo do Municipal

À frente da sinfônica do teatro, Luiz Malheiro rege a Sinfonia n.º 5 e o ciclo de canções Shéhérazade

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

O maestro Herbert von Karajan considerava a audição da Quinta Sinfonia de Mahler um ''''experiência transformadora''''. ''''Você esquece que o tempo passou. A sinfonia te força todo momento a prender a respiração.'''' Pode-se acrescentar que, de certa forma, é um janela aberta em direção à personalidade do compositor, com contrastes que simbolizam a vida de um homem dividido entre a esperança e a constante presença da morte. É uma das mais importantes peças do repertório, que poderá ser ouvida na manhã domingo em concerto regido pelo maestro Luiz Fernando Malheiro no Teatro Municipal.O tema da Quinta Sinfonia é o indivíduo, ou ainda, talvez, o mundo visto a partir de uma referência muito pessoal, em que não são os grandes temas, a vida, a morte, o amor, que inspiram o compositor - ao contrário, são as suas sensações que levam à transmutação desses temas em uma música de caráter essencialmente pessoal, ao abstrato em oposição ao temático. A mudança não é apenas semântica: em música, é uma das obras a inaugurar em Mahler um novo estilo de compor, um novo formato, que criaria um diálogo muito forte entre sua produção e a época em que viveu, a transição do século 19 para o 20, caracterizada, entre outros elementos, pela ironia, o cinismo, o humor peculiar associado a transformações políticas, sociais e culturais.Malheiro, que já foi regente do Municipal e hoje é diretor artístico do Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, comanda a Sinfônica Municipal no concerto, que será aberto com o ciclo de canções Shéhérazade, do compositor francês Maurice Ravel. As peças são inspiradas na lenda da jovem que adiava a própria execução contando histórias e prendendo a atenção do rei. Muitos compositores se sentiram tentados a recriar a lenda em música. A tentativa de Ravel é um das mais bem-sucedidas. O que parece lhe interessar, mais do que as histórias, é na verdade a compreensão dos estratagemas de Xerezade, seu lado mais íntimo, sua personalidade, como ela reagia perante as dificuldades colocadas pela situação que ela vivia. Tanto a partitura orquestral como as linhas de canto da soprano solista, a paraense Carmen Monarcha, são complicadíssimas, leves, sutis, transparentes, recriando sem pastiches a inspiração sonora do Oriente.

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