Magia do som

O maestro Julio Medaglia lança história da música e defende 'poder feiticeiro' da criação como instrumento de mudança

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

E se vivêssemos em um mundo onde a música perdeu completamente sua autoridade como forma de arte? O quadro é difícil de imaginar mas, para alguns autores, é exatamente onde estamos. Para eles - e o grupo inclui nomes de peso como o intelectual palestino Edward Said, morto em 2003, ou o maestro argentino Daniel Barenboim -, depois de décadas aliada ao mercado e afastada das questões mais relevantes de nossa época, a produção musical chegou a uma encruzilhada. Sim, concorda o maestro Julio Medaglia. Mas basta observar a história da música para perceber que ela "sempre foi forte arma de alteração do comportamento humano". E que pode voltar a ser.Seu novo livro, Música, Maestro, é uma história da música universal segundo o olhar de um maestro brasileiro, artista que se envolveu, entre o erudito e o popular, com alguns dos movimentos musicais mais importantes do País. Foi aluno de H.J. Koellreutter, introdutor por aqui do que era feito de mais moderno na Europa em matéria de música; com o tempo, resolveu ir para a fonte primária e, em Darmstadt, frequentou os cursos de verão que pautaram os caminhos da vanguarda nos anos 50 e 60. De volta ao País, ajudou a criar o Festival Música Nova, assinando o manifesto que pedia "o compromisso com o atual, a releitura do passado como combustível do futuro e não como nostalgia, a compreensão do fenômeno artístico como parte da indústria cultural, a educação como meio único de preparar gerações para não se perderem no redemoinho do mundo moderno, a valorização do som não como uma nota de um sistema composicional, mas sim na criação de um homem-som". No mesmo espírito, assinou o mais célebre arranjo de Tropicália, de Caetano Veloso, marco inicial do tropicalismo, isso antes de assumir algumas das mais importantes instituições musicais do País, como o Municipal de São Paulo."A grande circulação de ideias no mundo atual nos oferece um imenso repertório de matérias-primas culturais para projetos como nunca antes na história", diz o maestro que, na entrevista a seguir, comenta o último século de produção musical - e pensa em caminhos para o que se inicia.O QUE RESTOU DA MÚSICA?"No artigo Da Belle Époque à Belle Merde, eu analisava a inversão de vetores artísticos e comportamentais no século 20. Ele teve início como um verdadeiro furacão de criatividade cultural. Com a liberação de costumes na década de 20, esse delírio se tornou ainda mais deslumbrante. A tecnologia, ao contrário, não era levada a sério. Ford não conseguia financiamento para seu projeto de produção em linha de automóveis; os irmãos Lumière diziam que aquela engenhoca que projetava imagens em movimento na parede não tinha futuro; os irmãos Wright, um ano antes de Santos-Dumont levantar voo com o aparelho mais pesado que o ar, declaravam que ?levaria mil anos para que o ser humano pudesse sair e voltar ao chão com seus próprios meios?. Já no fim do século 20, deu-se o contrário. As últimas décadas, na área artística, foram melancólicas. Desapareceram tendências, estilos, vanguardas, provocações, projetos coletivos de criação. Os compositores que mais se destacaram na música erudita ou se tornaram neorromânticos ou choramingões, beatos de diversas seitas ou religiões. A tecnologia é que se tornou o grande barato. A pirotecnia tecnológica absorveu de tal forma as aspirações humanas, que ela se tornou, praticamente, lúdica. A grande indústria cultural manipula massas e para tal reduz o repertório a poucos modelitos para não perder a velocidade e a expansão do mercado."O SÉCULO 20"A ideia dos experimentalistas que seguiram Schoenberg era a de extinguir a linguagem tonal, típica do Ocidente, criar uma nova e, dentro dela, uma nova música. Esse raciocínio funciona muito bem quando se trata de bens de consumo comuns. Dezenas de formas de energia propulsora se substituíram no século 20 e ninguém vai preferir a energia a vapor à energia a jato. As tecnologias se substituem com facilidade sem causar traumas. Mas as coisas arraigadas na alma humana e que lhe dão prazer e estabilidade estética e emocional não podem ser substituídas com a facilidade com que se troca um tênis ou automóvel. O projeto desses experimentalistas de libertar o som das impiedosas amarras da gramática do ?dó maior?, porém, deu resultado. Hoje se usa o som com grande liberdade. Com qualquer tipo de sonoridade, dentro, próxima ou distante da linguagem tonal, pode-se fazer música sem problemas, desde que haja talento..."TROPICÁLIA, HITLER, TOM, JERRY"Há poucos dias eu ouvia um pequeno filete sonoro em um alto-falante distante e comecei a sentir calafrios fortes e incontroláveis. Passaram-se alguns segundos para que eu soubesse o motivo. Aí, lembrei-me que aquela melodia era música que eu tocava ao violino numa de minhas primeiras audições públicas. A música vai primeiro à alma e depois à mente. Primeiro me emocionei. Depois entendi. E exatamente por esse seu poder feiticeiro que ela foi usada no decorrer da história, para influenciar a mente humana. De Hitler a Tom & Jerry, do tropicalismo às missas de Palestrina na Capela Sistina, de Hollywood ao hip-hop, do rock à canção de ninar, a música sempre foi forte arma de alteração do comportamento humano. No momento, porém, ela está sucumbindo ao massacre que os mecanismos que sua comercialização lhe impuseram. A música está saindo das mãos do criador e ficando na dos produtores. E estes não estão sabendo como lidar com o talento humano."A COMPOSIÇÃO HOJE"As novas ideias e uma nova música vão nascer dos esforços individuais, subterrâneos, marginais, como o daqueles meninos do Beco das Garrafas do Rio que criaram a bossa nova. Temos de fazer a tecnologia atual voltar a trabalhar para a criatividade, pois o repertório de possibilidades sonoras é ilimitado. E a grande circulação de ideias no mundo atual nos oferece um imenso repertório de matérias-primas culturais para projetos como nunca antes na história."

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