Madeleine Peyroux encanta com jeito tímido e voz suave

Fraseado preciso não deve mais nada às divas do jazz e repertório revela evolução

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 00h00

Quando Madeleine Peyroux surgiu, em 1996, críticos costumavam comparar seu timbre ao de Billie Holiday e seu fraseado ao de Bessie Smith. Essa comparação, hoje, soa impertinente. Considerando a evolução registrada entre o primeiro CD (Dreamland) e o mais recente (Half the Perfect World), a cantora americana encontrou o próprio caminho ao buscar em seus contemporâneos modelos alternativos para sua nostalgia. Há tempos ela deixou para trás canções como Reckless Blues e Lovesick Blues, ambas de Bessie Smith, para interpretar composições suas ou de autores modernos como Leonard Cohen (Half the Perfect World) e Tom Waits (Looking for the Heart of Saturday Night), dois eleitos no programa do concerto de anteontem no Via Funchal.A escolha de Cohen e Waits define não apenas um caminho estético. Revela que Madeleine pode ter se livrado da nostalgia, mas não da melancolia e certa obsessão - como notou um crítico americano - por canções que tragam a palavra ''''chuva'''' em suas letras (de Everybody''''s Talkin'''', de Fred Neil, tema principal do filme Perdidos na Noite/Midnight Cowboy, a Smile, tema de Chaplin para Tempos Modernos/Modern Times). Ela contrabalança essa carga obsessiva por letras românticas - e com freqüência depressivas - com uma interpretação que evita qualquer excesso expressivo. Em outras palavras: aprendeu muito com smooth jazz da tradição vocal da Costa Oeste (Michael Franks, especialmente).No show do Via Funchal, em vários momentos ela e seu quarteto comprovaram essa filiação, como em Half the Perfect World. Nela, a cantora acompanhou a introdução jobiniana do pianista James Beard e reforçou a conexão com a bossa nova brasileira que tanto marcou a carreira de Franks. Combina com seu jeito introspectivo, quase deslocado numa casa de megashows, mas sedutor no diálogo com o contrabaixo de Barak Mori em La Javanaise, de Serge Gainsbourg, um dos pontos altos do concerto ao lado de Careless Love. Curiosamente, essa canção que dá título a seu segundo disco foi definida por ela como ''''autobiográfica'''', por conter mais elementos reveladores do que ela certamente gostaria (a música, no entanto, não é dela). O contrabaixista Barak Mori é como Madeleine Peyroux: são ambos flaubertianos, no sentido de buscar a palavra precisa, o fraseado justo.Essa busca pela perfeição faz com que Madeleine Peyroux valorize as pausas, embora não se negue ao balanço rítmico de Dance me to the End of Love (por exemplo), estabelecendo uma comunhão surpreendente com a platéia do Via Funchal, que a aplaudiu de pé. Coisas de uma garota tímida que (en)cantou nas ruas de Paris e conquistou São Paulo.

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