Madeleine despe-se até os ossos

Ela toca amanhã em São Paulo e fala do disco que lança no ano que vem

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

03 de dezembro de 2008 | 00h00

Madeleine Peyroux volta ao Brasil para cantar um ano depois de ter-se apresentado pela última vez aqui, mas volta cheia de novidades. Tem um disco novo na bagagem que, embora só tenha previsão de lançamento para o dia 10 de março de 2009, vai turbinar seu show no Via Funchal amanhã, às 21h30.Cinco músicas inéditas desse disco, Bare Bones ("Ossos nus", título que a própria cantora tenta traduzir para o português com o auxílio de um dicionário), foram feitas no Brasil e estarão no show de amanhã, diz a cantora, em entrevista ao Estado por telefone, do Rio de Janeiro, onde tinha acabado de se apresentar na casa Vivo Rio."Uma dessas canções, Instead, é uma música muito feliz que compus na noite passada", ela conta, e até lê um trecho da letra: "Em vez de se prostrar triste/ Estar feliz por ter Deus logo acima/ Em vez de se prostrar de tristeza/ Ficar feliz em saber que ela está em casa."Outra música nova é menos feliz: trata-se de River of Tears, que ela fez para o pai, que morreu há dois anos. O parceiro nas composições é Larry Klein, ex-marido de Joni Mitchell. Outros músicos que tocam no álbum são Vinnie Colaiuta (bateria), Dear Parkinson (guitarra), James Beard (piano) e Larry Goldings (órgão Hammond).O disco Bare Bones exacerba a faceta de compositora de Madeleine, que não compôs nada nos seus dois primeiros álbuns, fez quatro músicas no mais recente, Half the Perfect World, e agora assina todas as faixas de seu novo trabalho."Esse álbum tem a ver com mudança e com a atitude de olhar para a frente, mover-se adiante", diz a cantora. "Todos sabem que George Bush significou um grande atraso. Espero que tudo tenha se acabado e que possamos caminhar para a frente agora."Madeleine ri desbragadamente quando é lembrada que esta sua nova canção, Instead, pode destruir sua reputação - afinal de contas, o que Diabos faz uma canção feliz no repertório de uma cantora cuja voz será sempre lembrada como uma das mais melancólicas dessa geração?"É verdade, a melancolia parece uma característica básica de toda canção que canto. Mas não só a melancolia, há felicidade e tristeza ao mesmo tempo, me parece. Os sentimentos não são assim tão precisos, há muitas contradições. Para mim, como cantora, sempre se tratou de revelar como realmente me sinto. Toda minha experiência na canção é buscar expressar o que são meus sentimentos, que não estão em caixinhas. Eu acredito que um bom entendimento da tristeza é importante para a pessoa ser realmente feliz", diz Madeleine. "Mas é irônico, porque compus essa música num dos dias mais tristes de minha vida recente. Eu estava arrasada, e saiu uma música alegre. Para você ver que a expressão de um sentimento não é assim tão compartimentada."Ela também comentou longamente a aparente contradição de cantar em casas de shows tão grandes, como o Via Funchal (São Paulo) e o Vivo Rio (Rio de Janeiro), sendo que sua música se presta mais à introspecção, é mais intimista. "De fato, minhas canções, as canções que escolho cantar, geralmente são íntimas. Mas são uma forma simples de intimidade, direta, não é complicada de comunicar. Sei que é duro quando não se pode ouvir e eu penso que, se a pessoa acha que não está podendo desfrutar, talvez seja melhor não ficar", ela pondera. "Fiz um show recentemente onde havia telões imensos ao lado do palco, e televisores. Não é um tipo de show adequado para estádios. Mas eu considero que minha música pode ser usufruída também nesses grandes teatros. Mesmo quando eu toquei nas ruas, ficava imaginando como seria me apresentar num grande teatro. O problema maior é sempre como se pode fazer esse show soar bem num grande teatro. Uma boa casa pode resolver isso. Eu sei que gosto de tocar para as pessoas, o que é completamente diferente de ver um filme ou ouvir no rádio. É um contato muito pessoal, há interação - as pessoas podem falar, eu posso responder. E as platéias têm sido fantásticas, muito atenciosas, com uma atitude nobre. É bom poder tocar para todos", considera.Bare Bones, o quarto disco de Madeleine Peyroux, apesar de mostrá-la como uma compositora total, parece não se afastar muito daquela mistura entre blues, jazz e folk que caracteriza seus discos e sua interpretação. Ela considera que a parceria com Larry Klein está se tornando orgânica e a comunicação entre os dois flui naturalmente. "Nós começamos a compor em janeiro e trabalhamos duro nas composições, burilando consecutivamente. Nós dois crescemos muito como compositores nesse processo", estima.Além das músicas novas, que o Brasil está ouvindo em primeiríssima mão, Madeleine mostra clássicos de todos seus discos, de Dreamland (1996), Careless Love (2004) e Half the Perfect World (2006). Aquelas músicas que a fizeram ser comparada a Billie Holiday, como Don?t Cry Baby e Walkin? After Midnight, estarão na noitada, assim como as canções em francês (ela viveu na França na adolescência e domina completamente o idioma), como La Javanaise, que ela interpreta como uma bela homenagem a vozes como a de Edith Piaf. Os seus maiores sucessos no Brasil, canções que integraram trilhas sonoras de novelas, como Dance Me to the End of Love, também serão cantadas.Madeleine é uma artista de notável independência. Ficou famosa sua fuga da gravadora, há uns três anos - ela vive no Brooklyn, em Nova York, e desapareceu por uns dias para evitar cumprir uma agenda comercial com a qual não concordava. Nas cidades onde canta, escolhe sozinha seus próprios destinos (quem for ao restaurante O Velhão, no alto da Cantareira, vai achar uma fotografia dela numa parede, confraternizando com os freqüentadores, mas ela mesma não se recorda dessa incerta). "Nunca posso ver muito, mas toda chance que tenho, eu saio para conhecer. Desta vez, no entanto, vai ser muito curto para isso. Toquei na noite passada no Rio, quinta-feira é em São Paulo e no sábado em Belo Horizonte. Mal dá para sair do hotel e ir cantar", lamenta. ServiçoMadeleine Peyroux. Via Funchal (3.143 lugs.). Rua Funchal, 65, V. Olímpia, 3188-4148. Amanhã, às 21h30. R$ 150/R$ 400

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