Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Made 2018 privilegia o design autoral em sua sexta edição

Feira, que vai até domingo no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera, mostra obras produzidas por jovens designers que dão preferência ao artesanal

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 Junho 2018 | 06h00

Com um número recorde de expositores nacionais e estrangeiros (125), a Made – Arte Design, em sua sexta edição, que vai até domingo, no Pavilhão da Bienal, presta tributo ao arquiteto norte-americano Philip Johnson (1906-2005), o primeiro a ganhar o prêmio Pritzker (em 1979) e um dos representantes do 'international style', o estilo arquitetônico funcionalista dominante até a década de 1970. A homenagem inclui a reconstituição parcial de uma histórica mostra de design que Johnson promoveu no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) em 1934, levando para dentro do museu, pela primeira vez, objetos utilitários exibidos como peças artísticas.

A Made, que pretende ser uma referência no design autoral, trouxe ao Brasil profissionais que mantêm vínculos com brasileiros, caso do austríaco Robert Stadler, escolhido o designer do ano pela feira. Stadler fez uma palestra na quinta (28), no Centro Cultural Bradesco Private Bank (dentro da Made), precedido por Hilary Lewis, curadora-chefe da Fundação Glass House. O designer russo Sergei Streltsov fala hoje (29), às 18h. E, em cerimônia no mesmo local serão divulgados sábado (30), às 19h, os ganhadores do prêmio Bradesco Private Bank Made de Design & Arte.

 

Robert Stadler, que visitou a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, ficou impressionado com peças de design anônimo recolhidas pela arquiteta. Sobre o design autoral brasileiro, que se mostra igualmente livre de amarras, Stadler diz que o lado bom é “ter mais liberdade e não sucumbir ao peso da história”. É um design experimental, mas falta ainda, segundo Stadler, referências culturais e conhecimento aos jovens designers.

“É preciso também criar um circuito de galerias para expor esses novos profissionais”, recomenda Waldik Jatobá, curador da feira. “A nova geração tem algo mais espontâneo, informal, é mais aberta a experimentar novos materiais”. De fato, designers presentes na feira, como Leo Capote, que faz cadeiras com porcas e parafusos ou bancos com pás de pedreiro, estão a milhas de distância da tradição moderna da Bauhaus, assim com a cestaria de Nicole Tomazzi, que trabalha com artesãos da Serra Gaúcha, mais próxima do artesanato local que da herança construtivista.

Há, claro, seguidores do construtivismo geométrico como Giácomo Tomazzi, ou da vanguarda russa do começo do século passado, caso do Maximiliano Crovato, que apresenta uma série de móveis baseados em elementos geométricos, revestidos de madeira laqueada, em cores vivas, que remetem aos anos 1970. Tão vivas como a cadeira vermelho e verde do pintor Sandro Corradin, que domina o estande da Inn Gallery.

O design baseado na herança modernista não é a regra entre os objetos expostos na Made 2018. Há, claro, exemplos dos seguidores dessa escola – entre eles o citado Tomazzi, cuja poltrona Bo revela pelo nome a influência do mobiliário de Lina Bo Bardi. Detalhe pós-moderno, a almofada de pele de ovelha constitui um apêndice humorado que quebra o rigor geométrico da poltrona em estrutura metálica.

A lã de ovelha feltrada foi usada pela gaúcha Inês Schertel em seu banco Porva. São quatro mantas sobrepostas que podem transformar o aspecto morfológico do banco quando a superior é enrolada na direção dos apoios de madeira do banco. Esse aspecto artesanal é dominante em boa parte das obras feitas por designers preocupados com o desenho autoral.

O conceito, aliado ao uso de materiais pouco convencionais, guia o trabalho de muitos designers, caso de Bárbara Meirelles, Diego Garavinni e Mikael Dutra, do Cultivado em Casa, que assinam o projeto da poltrona Super Jardim, que usa 200 m de mangueira de PVC flexível no lugar do estofado. Curiosamente, o projeto da cadeira Corradin faz uma remissão à pioneira obra conceitual do artista norte-americano Joseph Kosuth, que, em 1965, expôs uma cadeira ao lado da foto da mesma cadeira e uma descrição dela na parede, que lidava simultaneamente com a ideia física, a representação e sua correspondência verbal (Corradin troca a foto pela tela que deu origem à cadeira com seu nome).

O conceito guia igualmente a confecção das poltronas e objetos expostos na Mameluca, resultantes de uma abordagem das pulsões classificadas por Freud no século passado. A coleção Libido mexe com os sentidos do espectador um pouco à maneira dos surrealistas – em particular o sofá que reproduz os lábios da atriz norte-americana Mae West, evidente fonte de inspiração daquele que a Mameluca mostra na Made 2018.

Vale destacar ainda a dedicação de jovens designers à marcenaria, como a dupla Richard Nascimento e Kati Takahashi, designers do estúdio Rika, que produziram a bela poltrona Ruptura com assento de madeira naval. 

MADE 2018

Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral s/nº, Pq. do Ibirapuera. 6ª, 13h/21h. Sáb., 12/20h; dom., 12h/19h. R$ 30 (meia-entrada para idosos e estudantes).

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