Madame Butterfly, sem excessos

Simples em sua concepção, a montagem é de grande riqueza nas múltiplas possibilidades expressivas que permite

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

23 de junho de 2008 | 00h00

A brilhante iluminação de Jorge Takla realiza, de maneira virtuosística, as combinações cromáticas de grande plasticidade que, sobre um cenário de linhas muito simples, Tomie Ohtake imaginou para sugerir as ambientações e estados de espírito na Madame Butterfly, de Giacomo Puccini. A estréia foi sábado no Teatro Municipal. O dispositivo cênico, muito austero, sugere a idéia de uma caixa na qual Cio-cio San fica aprisionada pela insensibilidade de Pinkerton - impressão acentuada pela rede que se ergue, no final do primeiro ato, deixando-a reclusa, como um animal de estimação dentro de sua jaula. A concepção repensa e expande, de forma muito inteligente, a que Tomie tinha feito, para essa mesma ópera, na década de 80.Simples em sua concepção, a montagem é de grande riqueza, nas múltiplas possibilidades expressivas que permite. E, dentro desse espaço, a movimentação eficiente mas sem excessos dos personagens, utilizada por Takla, funciona muito bem, na medida em que não se sobrepõe à criação do drama pelos elementos cenográficos. São felizes tanto o uso dos figurantes para sugerir os arbustos do jardim, no "Dueto das Flores", quanto a seqüência montada por Susanna Yamauchi durante o "Coro a bocca chiusa"e o Interlúdio para o terceiro ato. A coreógrafa recria, com muita delicadeza, o que significou para Butterfly o ritual do casamento, e o que será para ela o corte de ter de entregar ao ex-amante o filho que é a prova de seu amor unilateral por ele.Butterfly é o papel mais associado à carreira de Eiko Senda, e ela o desempenha com absoluta familiaridade musical e gestual. A sua voz, nestes últimos tempos, amadureceu, ganhou em volume e variedade de coloridos. E se Eiko nem sempre é de absoluta sutileza nas soluções que encontra para a personagem, é - com muita freqüência - comovedora na maneira com que faz viver no palco a frágil adolescente, forçada, pelas circunstâncias, a um doloroso amadurecimento. É notável, sobretudo, a forma como, no segundo ato, caracteriza a mulher apaixonada e esperançosa que, no fundo, não deixou de ser uma menina. O valor de sua interpretação está menos na muito boa execução dos grandes trechos isolados - as árias "Un bel dì" ou "Tu? Tu? Piccolo Iddio" - do que na coerência da construção de uma personagem que funciona, realmente, como a espinha dorsal do drama.Para o alto rendimento de sua interpretação, Senda contou com o apoio, em momentos fundamentais dos dois últimos atos, da experiência de Silvia Tessuto. Interpretando uma Suzuki em excelente forma vocal, Tessuto fez viver no palco a figura cheia de dignidade trágica da criada, testemunha impotente de um desenlace que nada pode fazer para evitar. Não só as vozes da soprano e da mezzo casaram-se harmoniosamente em passagens como o "Dueto das Flores", como Tessuto soube emprestar, à seqüência do retorno de Pinkerton, no terceiro ato, a densidade dramática exata, sem excessos que poderiam ser perigosos.O elenco desta Madame Butterfly revelou-se bastante equilibrado. Ao perfil destacado que a voz e traquejo cênico de Lício Bruno conferiram ao perfil de Sharpless, o cônsul americano; à desenvoltura com que Sérgio Weintraub criou a figura sinuosa e um pouco sinistra de Goro, o casamenteiro, somaram-se competentes figurantes: o Tio Bonzo de Pepes do Valle; o príncipe Yamadori de Jang Ho Joo; o Comissário Imperial de Márcio Marangoni.Pena não ter estado no mesmo plano o tenor Paul Charles Clarke, cuja voz, não necessariamente desagradável - a despeito de um ou outro agudo produzido com dificuldade - não parece naturalmente indicada para a interpretação de um papel de lírico spinto como o de Pinkerton. A voz clara, levemente metálica de Clarke, de típica escola inglesa - reminiscente de um cantor como Robert Tear - parece mais naturalmente voltada para papéis de comprimário. Ele não chega a comprometer irremediavelmente o conjunto; mas dá às vezes a impressão de que, por falta de outra opção, Pinkerton foi substituído por Spoletta.Optando por andamentos compassados, que beneficiam a opulenta linha melódica pucciniana; moldando de forma conveniente os momentos de grande expansão emocional - por exemplo o súbito crescendo orquestral precedido de uma pausa, que leva ao início do "Dueto das Flores"- Jamil Maluf obteve resposta muito adequada da Experimental de Repertório e do Coral Lírico. O bom desempenho da orquestra se sobressaiu sobretudo na passagem do segundo para o terceiro atos - o "coro a bocca chiusa" a que se segue o Intermezzo -, um dos momentos mais persuasivos do espetáculo. Serviço Madame Butterfly. Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/n.º, Centro, 3222-8698. Hoje, 4.ª e 6.ª (dia 27), 20h30; dom. (dia 29), 17h. R$ 20 a R$ 40; R$ 10 a R$ 20 (hoje)

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