''Machado é alegórico: fala de uma coisa para dizer outra''

Em entrevista ao Estado, Luiz Fernando Carvalho discute o estilo da série Capitu

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

08 de dezembro de 2008 | 00h00

Considero o que vi mais um diálogo com Machado do que uma adaptação no sentido literal. Você inventa, em termos de linguagem, dando uma versão operística, às vezes mesmo expressionista no nível da interpretação dos atores. É uma opção, que vai a contrapelo da famosa "contenção" machadiana, da fina ironia, do sorriso entre dentes? Você concorda com essas observações?Não acredito que Machado seja exatamente isto ou aquilo, que deva ser lido sob a égide de uma cartilha tonal. Sua escrita vai muito mais além, e em especial em Dom Casmurro, ele constrói um conjunto complexo de alegorias. Na sua última fase, Machado era extremamente barroco, seus romances finais guardam influências que surgiram a partir de Sterne, um escritor de transição entre os séculos 17 e 18 que tinha como leitura de cabeceira Robert Burton, o mais barroco dos autores ingleses, além é claro, de Cervantes e Shakespeare. Em Dom Casmurro, Machado trabalha como ninguém a idéia da alegoria, aqui entendida naquele sentido etimológico, que significa "falando de uma coisa, querendo dizer outra". Tudo pode significar tudo. E quando encontramos o delírio interpretativo de Dom Casmurro, uma espécie de doença da imaginação, um doente imaginário às avessas, em que tudo serve de indício para seu relato, onde tudo é prova de que fora traído por Capitu. O conjunto de imagens que ele encontra e consagra nos coloca diante de um alegorista barroco. Acha que darão melhor comunicação com o público? Ou é apenas porque você "sentiu" assim a leitura de Dom Casmurro? Não trago garantias para nada. E o que mais me atraiu não sei dizer exatamente, mas encontrar uma narrativa para dialogar com o romance foi meu maior prazer e também o maior desafio. Sinceramente, não acredito que questões de linguagem sejam coisas que me garantam mais audiência. Falo da busca por um modo "inconfiável" de narrar, assim como o fez Machado de Assis. E este modo, que é todo feito de retalhos da memória, do tempo e dos espaços, e que, a princípio, não correspondem necessariamente à verdade, mas que, ao serem alinhavados pela montagem, ganham o aspecto de verdade, foi o que mais me orientou. Este jogo narrativo entre verdade e imaginação é o elemento principal da narrativa, e este elemento está diretamente ligado a uma de suas frases mais conhecidas: "A vida é uma ópera." Este jogo teatral com as aparências me orientou muito. Outro ponto que você enfrenta é o da emoção. Sem nunca ser melodramático, também não recusa a afetividade. Mesmo em seus paroxismos, já que dialoga com a ópera e, como você diz, com um dos seus mestres, Visconti (que também era diretor de ópera, etc.). Sem também recusar as lágrimas de esguicho, alusão a Nelson Rodrigues, em determinados momentos. Feitas essas considerações, a pergunta é: você quis expor as emoções que Machado coloca mais nas entrelinhas do que explicitamente? Procurei expor as contradições humanas, mas de uma forma tragicômica. Isso se dá também da seguinte maneira, por exemplo: o "sim" de Dom Casmurro pode significar um "não" e vice-versa. Essa duplicidade do "eu" narrativo me pareceu algo, ao mesmo tempo, dostoievskiano e quixotesco.Seria um engano ver na rede de influências de Capitu, além de Visconti, outro italiano famoso, Federico Fellini? Fica-se com essa sensação na maneira como você teatraliza de modo tão explícito, sem esconder os recursos da encenação, pelo contrário. Depois, pela atmosfera às vezes um pouco circense, no que ela tem de bufa e, ao mesmo tempo de comovente. Enfim, como você pensou essa negação do naturalismo, em veículo tão ligado a esse tipo de estética como é a televisão?Nunca será um engano pensar em Fellini, mas não fui diretamente ali. Minhas referências mais diretas foram os folhetins escritos em jornais do século 19, as novelas de rádio e Karl Valentin. Quanto a idéia de trabalhar em um espaço que não fosse a realidade em si, mas que se constituísse como sendo a representação de uma determinada realidade, assim como se dá quando estamos diante das linhas de um livro, sempre me interessou. Tenho exercitado esse caminho desde Hoje É Dia de Maria, mas, confesso, agora de uma forma mais rigorosa. Não trabalho com a mentira. Eu não minto para o público: "Esse desenho não é um desenho." Procuro pela imaginação, como quem faz uma sugestão: "Esse desenho poderia ser o verdadeiro quintal de Capitu?" Estou propondo aos espectadores um jogo com a imaginação, um exercício tênue de visibilidades. Cabe, isto sim, a grande capacidade dos intérpretes de pegar na mão do espectador e trazê-lo para dentro do jogo. E os espectadores, em momento algum, estarão sendo iludidos quanto a não estarem participando de um jogo lúdico. A realidade é erguida pela montagem. É ela que constrói esse outro rigor: a linguagem. É um jogo. Não é uma narrativa que desloca do tempo histórico, uma narrativa glamourosa, falsa, alienante; mas sim, uma pequena tentativa de trabalhar no espaço misterioso da ficção, assim como está colocado no modo escolhido por Machado de Assis, que se faz distanciado da fabulação em várias passagens, enfim, Capitu é um relato que existe entre a realidade e a imaginação de todos nós.

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