Machado de Assis de costas para Sarney

Quase fiquei cego no começo da semana. Ao terminar uma pesquisa, já com o auxílio de uma lupa, meus olhos ardiam. Procurei, procurei e não encontrei o que desejava, o nome de José Sarney. Durante horas, foi necessária muita atenção para seguir um imenso texto linha a linha. Precisei de uma régua para não me perder. Curvado sobre a mesa, busquei o nome de José Sarney e não está ali. Na segunda-feira, tive uma, digamos, inspiração, levantei-me às 5 horas e fui para a minha biblioteca. Vocês já acordaram cedo e foram para a mesa, contemplando o dia nascer na cidade? Experimentem, como dizia aquele anúncio de cerveja.Decidi buscar nos meus arquivos o material que tenho, graças a Ana Maria Martins, doce mulher, organizadíssima, daqueles dias de janeiro de 1977. Momento importante na história do Brasil, quando 1.046 intelectuais de todos os calibres, de todos os setores artísticos, de todas as universidades, revoltados, saturados, deram um grito e redigiram o manifesto que percorreu o País de Manaus a Passo Fundo colhendo assinaturas. Não havia ainda internet, nem essa facilidade de comunicação. Foi por telefone, fax, cartas, telegramas. Como um rastilho de pólvora aceso, a indignação moveu as pessoas contra a censura. Em plena ditadura, ergueu-se o grito contra a censura que os militares, por meio de Armando Falcão, que nunca tinha nada a comentar, impunha ao Brasil. Aquele homem, ministro de uma suposta Justiça, assinava decretos a torto e a direito proibindo livros, filmes, canções, peças teatrais. O que passasse pela frente Falcão vetava.Em novembro de 1976, três livros foram proibidos numa canetada só: Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, Aracelli, Meu Amor, de José Louzeiro, e o meu Zero. Pá-pum! Recolham-se essas obras atentatórias à moral e aos bons costumes, dizia o decreto que nos recolheu. O documento contrário à censura foi levado a Brasília, o ministro da suposta Justiça se recusou a receber a comissão, mandou um preposto. Mas o grito tinha sido dado, a revolta iniciada. De alguma forma, ainda demorou um tempo, dois anos, até que a censura abrandasse.Um trecho do manifesto dizia:"Nós, para quem a liberdade de expressão é essencial, não podemos ser continuadamente silenciados."E outro:"Recusamo-nos a abdicar de nossa identidade nacional e da nossa própria memória, repelindo a convivência com a passividade, a apatia, o falso registro de nossa realidade. É necessário a revogação de atos com efeito de caráter punitivo da atividade intelectual. Os destinos de um País não são apenas determinados pelos seus governantes. É preciso consultar constantemente o povo, permitir que, em seu nome, seus artistas possam se expressar."O que eu procurava entre nomes de primeira grandeza? Que passavam por Antonio Candido, Gilda de Mello Souza, Jorge Amado, Sérgio Buarque de Holanda, Ivan Cavalcanti Proença, Josué Guimarães, João Ubaldo Ribeiro, Orígenes Lessa, Cícero Sandroni (atual presidente da ABL), Rubem Braga, Clarice Lispector, Murilo Rubião, Rui Mourão, Luis Martins e assim, nesse nível, outras 1.032 pessoas. Percorri as oito colunas de uma página compacta do Jornal do Brasil do dia 26 de janeiro de 1977, que estampou todas as assinaturas em um tipo miudíssimo, para poder caber. Foram horas de paciência em que minha vista lacrimejou, doeu.Não encontrei entre os intelectuais a assinatura do escritor José Sarney. Ele não se revoltou contra a censura, porque estava ligado ao poder. Esse homem que foi recebido na Academia Brasileira de Letras no lugar de José Américo não soube ter a atitude exemplar de seu antecessor. Consultem a história, vejam quem foi José Américo. Foi até ironia sucedê-lo. Agora, quando O Estado de S. Paulo é censurado para proteger um filho de Sarney, o presidente do Senado apoia a censura, a proibição, o veto, o ato espúrio que cancela a liberdade de expressão. Fui lá atrás ver se ele, como escritor, chegou a defender essa liberdade. Não, não defendeu num momento em que os que estavam ameaçados se levantaram. A censura sempre foi o braço direito do poder ditatorial, do totalitarismo de esquerda ou direita.Escrevo esta crônica porque sei o que é ser censurado, ter os braços quebrados, ser amputado, ter a boca amordaçada. Essa liberdade não interessa ao presidente do Senado, que tem vários livros publicados e uma cadeira na casa de Machado de Assis. Ele, como legislador e intelectual, deveria defender a democracia, a livre expressão. Acho que quando ele chega para a sessão da ABL, a estátua de Machado dá-lhe as costas, para não sentir vergonha.

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