MAC vê a arte feita na fábrica

Exposição no museu traz 96 obras de 18 artistas bancados pelo mecenato da francesa Renault, que ajudou a consagrar o novo realismo francês, a linguagem pop e a arte cinética ao promover nomes como Arman e Tinguely

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Até 1992 poucos conheciam a coleção de arte da Renault. Foi nesse ano que o suíço Louis Schweitzer, então com 50 anos, assumiu a chefia executiva da indústria automobilística francesa, livrando a vanguarda dos anos 1960 do longo período de hibernação que confinou por mais de duas décadas seu valioso acervo nas salas de seus colegas. Parte dessa coleção, que tem obras de Alechinsky, Arman, Erró, Fautrier, Le Parc, Michaux, Rauschenberg, Tinguely e Vasarely, pode ser vista em São Paulo a partir de amanhã, na mostra Uma Aventura Moderna - Coleção de Arte Renault, no Museu de Arte Contemporânea do Ibirapuera (MAC). Ela reúne 96 pinturas, esculturas e instalações adquiridas pela empresa entre 1967, no auge do nouveau réalisme, e 1985, época em que a transvanguarda italiana e o neoexpressionismo alemão agitavam a bandeira da pintura selvagem.

O uso do termo hibernação para designar o longo período de confinamento das obras não é arbitrário, diz a curadora da mostra Ann Hindry, editora do catalogue raisonée da Renault e autora de um livro sobre a coleção, que será lançado no próximo mês pela editora Flammarion. Schweitzer tirou essas obras das salas da montadora para que elas se tornassem acessíveis ao público e aos especialistas. Qualquer estudioso de arte que se interesse pelos nouveaux réalistes franceses terá necessariamente de passar os olhos pelo acervo da indústria francesa, que só no Brasil monta 800 carros por dia. Isso porque a corporação, nos anos 1960, assumiu o mecenato de artistas como o iconoclasta Arman, crítico da acumulação de objetos na sociedade industrial, numa época em que as grandes empresas pouco ou nenhum interesse demonstravam pela arte contemporânea.

Muitas das obras que estão na exposição do MAC foram encomendadas aos artistas no período político mais conturbado do século que passou, os anos 1960. Enquanto Godard filmava A Chinesa e os estudantes gritavam slogans nas ruas de Paris, Arman trabalhava em colaboração com a Renault, assumindo sua incorreção política e a contradição de construir uma obra encomendada que teoricamente seria concebida para criticar a massificação. Mas nem Arman nem a Renault estavam interessados em preservar uma imagem idealizada. A curadora Ann Hindry, a respeito do artista, afirma ter Arman desenvolvido com a Renault "uma relação simbiótica", sendo até hoje lembrado por essa colaboração. De fato, como se pode ver na mostra, ele até batizou uma série de Accumulations Renault (o primeiro trabalho é de 1968), em que agrega peças de automóveis ao plexiglas.

Enquanto Arman escrevia os mandamentos dos novos realistas, nos anos 1960, Rauschenberg construía suas assemblages nos EUA dentro de um registro pop, a exemplo do que fazia na França outro iconoclasta da figuração narrativa, Erró. O texano agregava tudo o que pudesse aderir à superfície da tela. Já o islandês Erró, crítico do sistema de produção e arauto apocalíptico, não se apropriava de objetos, mas de imagens de segunda mão, surrupiadas dos mestres da pintura. A curadora conta uma história curiosa a respeito de Rauschenberg, representado na exposição por uma tela (1984) de fatura clássica com justaposição de outras técnicas, como a serigráfica. "Ele propôs o projeto de um carro totalmente transparente, que deixaria à mostra suas "vísceras", a exemplo das imagens serigráficas de suas pinturas." Como na época os recursos tecnológicos era insuficientes para bancar o protótipo de Rauschenberg, o projeto foi deixado de lado.

Na época em que a Renault começou a encomendar projetos a artistas internacionais, isto é, 1967/8, os estudantes protestavam nas ruas e os artistas deixavam a calma de seus ateliês para participar ativamente de movimentos sociais. A curadora Ann Hindry destaca o espírito empreendedor de criadores do novo realismo como Arman e Tinguely, empenhados em desenvolver uma obra pública - a despeito de Tinguely produzir máquinas autodestrutivas, sem utilidade, por puro espírito lúdico (como Bascule V, de 1967, na mostra). "Eles queriam sair de seus ateliês, alcançar as ruas, e a Renault propiciou os meios para que isso acontecesse." Não era exatamente um programa político - até mesmo porque seria autofagia empresarial uma indústria inserida no modelo capitalista absorver o programa de um Tinguely. Tratava-se, antes, de estar antenado com os anseios artísticos de movimentos como o informalismo de Jean Dubuffet, o abstracionismo de Henri Michaux, a arte cinética de Jesus Soto e Julio Le Parc (dois latinos com marcante presença na coleção) e a figuração narrativa francesa de Erró.

Nomes conhecidos da arte cinética e da optical art estão bem representados na exposição do MAC Ibirapuera. Compreensível. A grande divulgadora dos artistas dessa tendência em Paris, nos anos 1950 e 1960, foi a lendária galerista Denise René, ainda atuante, aos 93 anos, que ajudou a projetar a carreira internacional do venezuelano Jesús Soto. Nenhum outro artista, pela influência de suas realizações, é tão importante para a Renault, a despeito da associação automática com o nome de Arman. As obras cinéticas de Soto estão de tal forma integradas ao edifício-sede da corporação, no Quai du Point-du-Jour, que seria inconcebível pensar em sua série Vibrations sem passar pela arquitetura do prédio.

Dois colegas cinéticos de Soto estão representados no quarto segmento da mostra, Julio Le Parc e Victor Vasarely (este com maior número de obras). Os três segmentos restantes agrupam artistas nos núcleos O Universo Industrial (Arman, Tinguely, Erró, Takis, Rauschenberg e outros), A Atmosfera Dubuffet (sala dedicada ao iniciador da arte bruta) e Pintura Abstrata (Miró, Sam Francis, Roberto Mata, Alechinsky, Dominique Thiolat e Michaux). Praticamente um terço da coleção da Renault, composta de 300 obras, está na exposição, em cartaz até dezembro.

A Renault inaugura, no dia 27 de outubro, no Centro Cultural Fiesp, uma grande mostra do fotógrafo Robert Doisneau, trazendo 106 imagens registradas por ele quando era funcionário da corporação. Doisneau é simplesmente o autor da célebre foto O Beijo (1950), que mostra um casal se beijando diante do Hotel de Ville, sede da prefeitura parisiense. Talvez não seja necessário ir além.

Serviço

Coleção de Arte Renault. MAC Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, 5573-9932. 10 h/18 h. Grátis. Até 15/12

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.