MAC mostra a arte sem mediador

MAC mostra a arte sem mediador

Exposição 'MAC no Século 21 – A Era dos Artistas' reúne 106 obras e minimiza papel do curador

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2017 | 07h00

Arthur C. Danto (1924-2013), o polêmico filósofo e crítico de arte norte-americano, afirmava que a função principal da crítica é pedagógica. Críticos, de modo geral, julgam artistas como se fossem queijo ou vinho, dizia Danto, referência maior de Kátia Canton, curadora da exposição MAC no Século 21 – A Era dos Artistas, inaugurada no último sábado, 20.

Morto há quatro anos, Danto, que chegou a proclamar o fim da história da arte, redefinindo o termo não pelas qualidades estéticas, mas pela aceitação de que a arte no século 21 será dominada pelo pluralismo, relativizou o papel do crítico e do curador. Para concluir, Danto afastou qualquer possibilidade de predominância de uma linguagem artística em nosso tempo – e seus interesses variavam do inglês Damien Hirst ao alemão Gerhard Richter.

Seguindo seu conselho, Kátia Canton abdicou da curadoria e fez os artistas falarem por si na exposição que reconhece o justo valor de quem cria, e não de quem interpreta. O inglês Damien Hirst é um dos nomes estelares da exposição de longa duração do MAC. Ela ocupará o quinto andar do museu nos próximos cinco anos, reunindo 106 obras concebidas do ano 2000 em diante, todas pertencentes ao acervo do museu, que recebeu doações recentes de artistas e instituições. Outros nomes internacionais, como Candida Höfer, Louise Bourgeois e Marina Abramovic dividem o espaço com artistas brasileiros, de Albano Afonso a Iran do Espírito Santo, todos expostos de acordo com as iniciais do sobrenome, eliminando a hierarquia entre eles.

A curadoria será, portanto, do público, que poderá – ou não – identificar afinidades entre obras criadas em diferentes períodos e sem conexão direta, como, por exemplo, os desenhos de Nazareno Rodrigues e Sandra Cinto ou os trabalhos em defesa da mulher desenvolvidos por Beth Moysés e Rosana Paulino, ambas empenhadas em denunciar a violência num país que mata mais que qualquer um outro em guerra (a obra de Beth Moysés, de 2014, é feita de 5.664 cápsulas detonadas, uma para cada mulher morta naquela ano).

O percurso da exposição foi organizado segundo os sobrenomes para evitar o que a curadora chama de “molduras teóricas prévias”. Evocando Danto, ela afirma que a curadoria perdeu o sentido numa época histórica “transversal”, em que o sistema de organização é mais reverente ao artista e menos ao tempo. Danto, de fato, defendia há mais de 30 anos que a globalização nos encurralou de tal forma que a narrativa da pós-modernidade seria definitivamente enterrada – e com ela a homogeneização cultural promovida pela ditadura dos curadores.

O foco, portanto, está nas obras expostas, não no conceito. Há, claro, afinidades eletivas da professora Kátia Canton, ex-diretora do MAC. “Na mostra estão artistas como Rosana Paulino e Alzira Fragoso, dois nomes que eram pouco lembrados e voltam a circular agora”, cita, passando pelo zoológico do artista mais representado na mostra, o paulistano João Loureiro. Ela também valoriza os pintores, quase massacrados pela ditadura do conceito. Entre eles estão Bruno Dunley, Deborah Paiva, Paulo Pasta, Paulo Whitaker, Rodrigo Bivar e Sérgio Sister.

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