Museu de Arte Moderna de São Paulo
Museu de Arte Moderna de São Paulo

MAC e MAM se unem na exposição 'Zona da Mata'

Os dois museus do Ibirapuera abrem neste sábado, 19, mostra dedicada a repensar as relações entre arte e natureza

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2021 | 20h00

Inaugurado em 1949, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) nasceu tendo como modelo o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) – e eles foram, de fato, parceiros desde o processo embrionário do museu brasileiro. Mas, em 1962, a coleção do MAM foi doada à Universidade de São Paulo, que criou o Museu de Arte Contemporânea para abrigar esse precioso acervo. Inaugurado em 1963, o MAC virou o primo rico e o MAM, o pobre. Foram anos de distanciamento. Mas, neste sábado, tudo muda. Em sua segunda parceria, MAM e MAC inauguram hoje a exposição Zona da Mata, fortalecendo o vínculo desses dois museus com uma história estreitamente ligada à Bienal Internacional de São Paulo – da qual, aliás, ambos são vizinhos.

Eles são unidos por uma passarela sobre a avenida Pedro Álvares Cabral, que tanto a diretora do MAC, Ana Magalhães, como o curador-chefe do MAM, Cauê Alves, esperam que seja mais usada a partir de agora pelos visitantes dos museus do Ibirapuera. A sonhada integração pode começar com a mostra Zona da Mata. Com curadoria de ambos, mais a colaboração da curadora Marta Bogéa, é uma exposição que conta com obras de fotógrafos como a veterana Claudia Andujar, artistas como Guto Lacaz e Marcus Galan e arquitetos como Gustavo Utrabo.

O conceito da exposição faz referência à questão simbólica da colonização que deu início ao processo de extinção da Mata Atlântica – daí a presença de arquitetos na mostra, que operam nos limites da transformação da paisagem sem que isso resulte em mais destruição. Uma das primeiras regiões ocupadas pelo colonizador estrangeiro, a Zona da Mata virou o motor de propulsão da economia mercantil do Brasil no século 16, a um custo alto para a ecologia. A urbanização e o crescimento demográfico responderam pelo resto do desastre.

O curador-chefe do MAM, Cauê Alves, mostra o outro lado da moeda. Participante da mostra, o escritório Brasil Arquitetura, de Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci, exibem em Zona da Mata o projeto de recuperação do Terreiro de Oxumaré em Salvador, local de cerimônias religiosas e congregação social, um dos mais antigos templos de candomblé da Bahia, que tem 185 anos de existência. Natureza e religião se confundem num projeto em que o sagrado está no verde da paisagem.

Visionária, a fotógrafa Cláudia Andujar, que nos anos 1970 foi pioneira no registro do cotidiano da tribo Ianomâmi, comparece com imagens das atividades dos índios na floresta e na maloca. Como a Zona da Mata, eles resistem ao avanço da civilização branca, mas correm igualmente o risco de extinção.

O contraponto da integração dos ianomâmis com a natureza é a relação do homem urbano com o concreto, comentada no trabalho de Marcus Galan, Arquipélago. “Nele, Galan constrói ilhas com ervas que nascem na aridez do concreto”, revela Cauê Alves, citando ainda o projeto do arquiteto Gustavo Utrabo, Restaurante no Jardim, que vai ocupar tanto a sede do MAM como a do MAC. Alguns dos projetos de Zona da Mata serão exibidos mais tarde, em outubro, no MAM, como o de Rodrigo Bueno, uma instalação programada para a Sala de Vidro (onde ficava a Aranha de Louise Bourgeois) com plantas artificiais de cores lisérgicas.

No mesmo registro irônico sobre o falso verde criado pelo homem está o vídeo de Guto Lacaz que mostra o artista pintando uma calçada em que se destaca uma árvore verdadeira limitada por um minúsculo quadrado, dissonância que não escapa à verve do artista.

“É uma exposição sobre como enfrentar o problema da devastação ambiental que hoje atinge o país inteiro, ameaçando as populações indígenas”, define a diretora do MAC, museu agora empenhado num projeto curatorial a longo prazo que prevê a associação com outras instituições (inclusive internacionais) para dedicar seus três próximos anos a temas como a arte indígena (em 2022), a herança africana (em 2023) e as migrações (em 2024).

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