Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

MAC, em nova fase, busca parceiros para dinamizar sua sede

A diretora em exercício, Kátia Canton, pretende instalar um restaurante e um café no museu ainda este ano

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2016 | 05h00

Com 97,4% de sua dotação orçamentária (mais de R$ 5 bilhões) comprometida com as despesas da folha de pagamento, a Universidade de São Paulo (USP) não terá dinheiro para outra coisa este ano e ainda será obrigada a enfrentar um déficit calculado em R$ 543 milhões. Contra esse quadro desanimador, agravado pela atual crise econômica, as alternativas são poucas, mas a criação do programa Parceiros da USP, que busca a colaboração da sociedade civil por meio de doações, pode representar uma saída, especialmente para o seu Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP).

Recentemente fechado na Cidade Universitária, o museu, agora restrito à sede no Ibirapuera, terá de recorrer à iniciativa privada para realizar suas exposições temporárias. Nada demais. Vale lembrar que o museu foi instituído em 1963 por vontade de um mecenas, Ciccillo Matarazzo, e doações internacionais (Fundação Nelson Rockefeller). Ele migrou para a universidade, mas não perdeu suas feições particulares.

Com a demissão do diretor do museu, Hugo Segawa, no fim do ano passado, assumiu seu posto a vice-diretora Kátia Canton, que pretende enfrentar esse período crítico justamente com a ajuda da iniciativa privada. Já no fim do mês, quando for inaugurada a exposição do futurista italiano Fortunato Depero (1892-1960), o patrocínio da Campari surgirá como uma dádiva num momento em que o MAC vai gastar R$ 400 mil só com a transferência de sua biblioteca e instalações administrativas para a nova sede no Ibirapuera.

Reformado pela Secretaria de Cultura do Estado ao custo de R$ 76 milhões, o prédio tem alguns problemas, como todo edifício adaptado a novas funções. É naturalmente limitado para expor arte contemporânea, além de seu acervo com quase 10 mil obras, que integram a mais importante coleção de arte moderna da América Latina (Kandinsky, Modigliani, Matisse, Klee, Morandi, Picasso e outros). As limitações não param por aí. Sua reserva técnica, de dimensões espetaculares, não pode receber essa coleção. Não está adequadamente equipada para enfrentar a umidade do subsolo do anexo nem tem as condições técnicas que oferece a antiga, no câmpus da universidade, onde as obras devem ficar até segunda ordem.

“Nossa prioridade, agora, é instalar a biblioteca, no piso térreo, e as salas da administração, no primeiro andar”, diz a diretora em exercício Kátia Canton, que deve permanecer no cargo após o reitor assinar a exoneração de Segawa. Ela tem planos para atrair novos visitantes ao museu, que terá três dos seus últimos andares reservados ao acervo permanente (com obras icônicas como o único autorretrato de Modigliani e a tela O Enigma de Um Dia, de De Chirico). Hoje, apenas 6% do acervo é mostrado ao público. “Nosso primeiro passo em direção à sociedade civil será para instalar o restaurante no último piso”, revela a nova diretora, que pretende ver funcionando esse e uma cafeteria no museu até o fim do ano. “Também estamos acertando com a Edusp a criação de uma livraria e a instalação de uma loja no museu.”

São projetos viáveis. O problema maior é mesmo a reserva técnica. Hoje, 84% das obras estão na antiga sede da Cidade Universitária e 7% no terceiro andar do prédio da Bienal, emprestado ao MAC. A reserva técnica do antigo MAC tem um sistema de prevenção de incêndio que usa um gás especial parecido com o do Louvre. Na gestão do professor Teixeira Coelho foi criado o Gabinete de Papel, que tem obras preciosas no suporte e exigem, portanto, condições de temperatura e segurança semelhantes às existentes no câmpus. “Não vejo alternativa além de recorrer à iniciativa privada, até mesmo porque o MAC não é um museu da universidade para a universidade, mas para a sociedade”, comenta.

Ao fechar a sede do Museu de Arte Contemporânea no câmpus, a USP dificultou a própria dinâmica educacional, uma vez que os docentes usam a coleção e o local para suas aulas e pesquisas. Tudo fica mais difícil para eles. Quando foi inaugurada a nova sede, das 17 exposições, 15 eram do acervo, lembra o ex-diretor Tadeu Chiarelli. Nada indica que a mostras temporárias devam crescer. A notícia boa é que a Secretaria de Estado da Cultura vai ceder em caráter definitivo o prédio do Ibirapuera ao MAC, como revela o secretário Marcelo Araújo. “O processo de transferência para a USP já está em tramitação.”

Parceria. A cessão do prédio onde funciona o MAC, no Ibirapuera, foi, segundo o vice-reitor da USP, Vahan Agopyan, “um grande ganho para a universidade”. Ainda que o déficit orçamentário previsto para 2016 seja de R$ 543 milhões, a USP não pretende suspender os planos para equipar o museu com um restaurante no topo do prédio e agilizar as obras de adequação da reserva técnica para receber as obras que ainda estão no antigo MAC. “Essa mudança não é tão rápida, mas o modelo de licitação do restaurante já está pronto”, diz. “Embora as dificuldades financeiras existam, a USP não está parada e vejo com bons olhos a participação da iniciativa privada, regulamentada pelo programa Parceiros da USP.”

Segundo o programa, ela pode vir por meio de doações de bens móveis e imóveis ou doações para reformas ou construções. “Todos os museus têm apoio externo, não só para realizar exposições ou aumentar o acervo.” Com a transferência do MAC, os professores passarão o dia todo no Ibirapuera. “Somos um museu universitário e temos de pensar no conforto dos pesquisadores e do público”, conclui Agopyan.

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