Lygia muda As Meninas de casa

E mais 11 títulos que a escritora leva para a editora Companhia das Letras, depois de sete anos de Rocco

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

06 de novembro de 2008 | 00h00

A Companhia das Letras prepara uma grande festa em abril para receber oficialmente a chegada de um ilustre autor - "Na verdade, uma escritora, que iluminou a literatura feminina do Brasil ao longo do século 20", comentou o editor Luiz Schwarcz, anunciando a contratação da obra de Lygia Fagundes Telles que, depois de sete anos, deixou a editora Rocco.Pelo contrato, acertado na segunda-feira, a Companhia passa, a partir de fevereiro, a ter direito a 12 títulos, entre eles clássicos como Ciranda de Pedra e As Meninas. Com a Rocco, continuam Conspiração de Nuvens e as coletâneas Meus Contos Preferidos e Meus Contos Esquecidos cujos contratos não expiraram. "Lygia ainda se comprometeu a entregar dois livros à Rocco", conta a agente Lúcia Riff, que intermediou a negociação. "Passaporte para a China, que reúne crônicas escritas durante a visita que ela fez àquele país, em 1964; e um infanto-juvenil, Gatos, Cachorros e Outros Bichos.""Deixo a Rocco com boas lembranças, mas estava precisando de uma mudança", comentou a escritora, que vive momentos de renovação em sua rotina, depois de enfrentar sérios problemas pessoais. Uma sensação parecida que a convenceu, em 2001, a trocar a Nova Fronteira pela Rocco.A nova casa prepara uma recepção de gala. Segundo Schwarcz, a obra de Lygia receberá o mesmo cuidado dedicado à reedição dos livros de Erico Verissimo e Jorge Amado. Dois consultores, Alberto da Costa e Silva e Antônio Dimas, foram convidados a reler os textos da escritora para reorganizar a nova publicação. O trabalho vai incluir também a escolha de estudiosos que vão preparar análises sobre cada livro, além de estabelecer a fortuna crítica já existente. Lygia será assessorada ainda exclusivamente por uma profissional da editora."Alguns títulos terão edições de múltiplos formatos, ou seja, serão lançados no formato tradicional e, depois de um ou dois anos, sairão na coleção de bolso", revela Luiz Schwarcz, que ainda não sabe precisar quais dois volumes iniciarão o projeto - depende do parecer dos consultores.Para a festa programada para abril, porém, algumas homenagens já estão em preparo. A dramaturga e escritora Maria Adelaide Amaral, por exemplo, amiga afetuosa de Lygia e responsável pela versão teatral de As Meninas, vai selecionar trechos da obra da escritora e convidar atores para fazer uma leitura dramática. "Além da elegância do seu estilo, ela tem um sentido de dramaticidade espantoso", comenta Maria Adelaide. "Ela talvez não saiba, mas cada romance ou conto seu contém uma peça de teatro. Acrescente-se a isso a imensa compaixão pelo gênero humano.""Também uma seleção de seus textos organizados para um volume especial será feita por um especialista", conta Schwarcz, que já acalentava o desejo de editar os livros de Lygia desde o momento em que ela trocou a Nova Fronteira pela Rocco. "Desde então, com o aumento da nossa amizade, nunca escondi minha vontade de tê-la conosco, mas jamais fiz uma oferta, pois seria desrespeitoso ao Rocco."Com a vontade de mudança cristalizada, Lygia autorizou Lúcia Riff a negociar com a Companhia das Letras, acerto formalizado amigavelmente com Paulo Rocco na segunda-feira. "Entendemos que mudanças como esta fazem parte da dinâmica do mercado e respeitamos inteiramente a decisão da escritora", afirmou Rocco, em um comunicado. "Lygia já revelava um desejo de ser publicada por uma editora paulista, pois preza muito o contato pessoal", comenta Lúcia.Na nova casa, a escritora deverá ainda lançar o romance que vem acalentando há alguns anos. Por enquanto, está mais preocupada com os dois títulos que deve à editora de Paulo Rocco. Passaporte para a China, aliás, já devia ter saído há muito tempo. "São textos que escrevi depois de uma viagem feita a convite do governo chinês", lembra a autora. "Claro que foi um passeio acompanhado, mas permitiu que conhecêssemos um pouco da sociedade."Lygia recorda-se de ter conhecido o líder Mao Tsé-tung, um sujeito de estatura baixa, olhar desconfiado, de raro sorriso. "Mas ele relaxou quando conversamos sobre literatura e Mao confessou ser poeta", afirma. "Até recebi um exemplar bilíngüe de seu livro, em chinês e francês."Lygia guardou suas observações até ser encorajada a publicar, anos atrás, por Paulo Rocco. O filho Goffredo, no entanto, a desestimulou. "Ele temeu que eu sofresse alguma represália pois o livro poderia ser interpretado como um elogio a Mao. Daí, pediu para que eu não editasse. E assim foi."

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