Lygia Fagundes Telles e a união de ficção e memória

Escritora foi o destaque de sábado, na feira de livros do Rio

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2024 | 00h00

A escritora Lygia Fagundes Telles estava radiante, sábado, durante sua passagem pela 13ª Bienal Internacional do Rio, que terminou ontem. Convidada a participar do debate Lirismo e Memória, ao lado do português Manuel Alegre, ela divertiu o público ao contar passagens de seu mais recente livro, Conspiração de Nuvens (Rocco), misto de ficção e memorialismo, além de se desmanchar em elogios ao colega de conversa, autor do não menos emocionante Cão como Nós (Agir).''''Enquanto os escritores se multiplicam, os leitores desaparecem'''', comentou Lygia, ao se corrigir em seguida. ''''Mas, admirando a quantidade de pessoas presentes à Bienal, ainda tenho esperança de isso mudar.'''' De fato, os corredores dos pavilhões do longínquo Riocentro, onde aconteceu a feira, estavam quase intransitáveis. E muitos procuraram uma palavra da escritora brasileira, durante seu transitar.A questão da memória é muito cara a Manuel Alegre, que se divide entre a literatura e política (ex-exilado, foi o segundo candidato à presidência de Portugal mais votado na eleição do ano passado). ''''Por isso que digo que minha vida até agora foi tensa e intensa'''', observou ele, em que narra, em seu livro, a curiosa relação que manteve com Kurika, um cachorro de gênio indomável. ''''Não se trata simplesmente da história de um animal, mas de um em especial que queria falar e agia como o poeta, que procura a palavra ideal para se comunicar.''''Sobre o assunto, Lygia comentou que, respondendo a muitos fãs, os personagens de obras acabadas ainda insistem em rondar o escritor. ''''Eles voltam e cobram do autor a continuação de seu destino'''', disse ela, alertando Alegre que Kurika certamente o surpreenderia ao surgir repentinamente e pousaria no seu colo, pedindo a continuação de sua história. ''''Eles são insistentes como todo ser vivo.''''Uma outra relação, agora entre literatura e cinema, também lotou um auditório da Bienal. Ao reunir o crítico do Estado, Luiz Carlos Merten, do jornal O Globo, Rodrigo Fonseca e os cineastas Cacá Diegues e Daniel Filho, o encontro trouxe uma estimulante discussão sobre os meandros que unem a arte da escrita da visual. ''''Tenho muito respeito pela obra original, daí minha relutância em adaptar livros para o cinema'''', comentou Diegues, que só levou Tieta para as telas pois recebeu o convite do autor do livro, Jorge Amado, da atriz Sônia Braga e do cantor e compositor Caetano Veloso.Merten comentou que, de fato, a relação é sempre delicada, daí admirar a atitude de Julio Bressane que, ao adaptar uma obra para a tela grande, não se importa com fidelidade e cria um produto completamente diferente, seguindo seu preceito de pesquisar a linguagem cinematográfica. ''''Daí eu utilizar mais a palavra ''''diálogo'''' que ''''adaptação'''' quando comento a transposição da escrita para o cinema'''', comentou Fonseca.O repórter viajou a convite da Bienal

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