Luz, câmera, ação: agora somos nós na fita!

Com exclusividade para o Estado, Cacá Diegues escreve sobre o primeiro Cinco X Favela e sua expectativa com o remake

Cacá Diegues, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Em 1961, a União Nacional dos Estudantes (UNE) criou um Centro Popular de Cultura (CPC), formado por diferentes tendências de esquerda do movimento estudantil, com a finalidade de valorizar a produção cultural do povo brasileiro e "sua conscientização através da arte e da cultura". Na área de cinema, coordenada por Leon Hirszman, decidiu-se pela produção de um filme sobre as favelas cariocas, em cinco episódios realizados por diferentes jovens aspirantes a cineastas.Esses episódios foram dirigidos por Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Miguel Borges e por mim, universitários de classe média que, além de cinéfilos e animadores de cineclubes, já tinham feito curtas-metragens amadores, antes dessa primeira experiência em 35 mm. O filme chamou-se Cinco Vezes Favela e acabou se tornando um dos pilares fundadores do Cinema Novo, do qual participaram, mais ou menos intensamente, todos os cinco diretores.Cinco Vezes Favela foi feito com poucos recursos, nenhum de seus atores e técnicos recebeu qualquer remuneração. As filmagens foram realizadas em cenários naturais, em diferentes favelas do Rio, e muitas vezes as equipes iam de ônibus para o set, por falta de viatura própria da produção. Revelando jovens atores como Oduvaldo Vianna Filho, Francisco de Assis, Flavio Migliaccio e muitos outros, alguns atores profissionais já consagrados também colaboraram com sua participação, como Glauce Rocha, Abdias do Nascimento, Sadi Cabral e outros. Um jovem compositor da trilha sonora de um dos episódios, Carlos Lyra, se tornaria conhecido como um dos criadores da Bossa Nova. A finalização do filme teve também a colaboração generosa de dois profissionais já muito respeitados: Nelson Pereira dos Santos, que montou o episódio de Leon Hirszman, e Ruy Guerra, que montou meu episódio, Escola de Samba, Alegria de Viver. Aquela produção do CPC voltava a um tema inaugurado pelo realismo lírico de Nelson Pereira dos Santos, reconhecido como mestre e precursor do Cinema Novo, com os seus Rio, 40 Graus (1956) e Rio, Zona Norte (1958). Nesses filmes, Nelson trouxera lições do neorrealismo italiano para o Brasil, revelando a favela e o subúrbio cariocas em toda a sua dimensão social e popular. Era a fundação do cinema moderno no Brasil. Embora a favela já tivesse sido tema de filmes anteriores aos de Nelson (Favela de Meus Amores, Moleque Tião, Somos Todos Irmãos), era a primeira vez que aparecia do ponto de vista crítico, sem disfarces ou idealizações. Como problema social. Em Cinco Vezes Favela, além da contundência social e política, era também evidente a modernização do cinema brasileiro iniciada por Nelson, com influências não mais limitadas ao cinema americano clássico, como é o caso ainda do neorrealismo (o episódio de Joaquim Pedro), da nouvelle vague (o meu episódio, sincopado e fragmentário) ou do cinema russo de Eisenstein e Kuleshov (o episódio rigoroso, formalmente preciso e fundamentado na montagem, de Leon Hirszman), sem deixar de lado a brasileiríssima chanchada (cujos sinais aparecem no episódio prototropicalista de Miguel Borges). O modo de fazer de sua produção e essas tendências diversas, aliadas à liberdade de expressão autoral impressa por seus realizadores em seus episódios, fazem de Cinco Vezes Favela um autêntico anunciador do que seria o Cinema Novo. AGORA POR NÓS MESMOSUns três anos atrás, depois de mais de uma década de contatos com organizações culturais de favelas cariocas, iniciados com o filme Veja Esta Canção (1993), e como único sobrevivente em atividade do Cinco Vezes Favela original, tive a idéia de produzir um novo filme, uma versão contemporânea do mesmo formato criado por Leon Hirszman e pelo CPC, há pouco menos de 50 anos. Só que, agora, os cinco episódios seriam escritos e totalmente realizados por jovens cineastas moradores de favelas cariocas, cujos curtas-metragens amadores, quase sempre realizados em formato digital, vi durante cursos e palestras em diferentes comunidades do Rio. Desta vez, o filme se chamaria Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos. Assim que surgiu a ideia, eu e Renata Magalhães, sócios na produtora Luz Mágica, montamos cinco oficinas de roteiro em cinco comunidades do Rio, com o apoio de organizações locais: em Cidade de Deus (com a Central Única de Favelas/CUFA), Vidigal (com Nós do Morro), Complexo da Maré (com o Observatório de Favelas), Parada de Lucas (com o Grupo Cultural AfroReggae) e na Linha Amarela (com Cinemaneiro/Cidadela), e com o patrocínio da Globofilmes. Os alunos de cada oficina escolheram seus argumentos pelo voto e depois desenvolveram coletivamente os roteiros. A Luz Mágica interrompeu neste ponto a produção e partiu em busca de recursos para realizar o filme.Captados os recursos necessários, no fim do ano passado, as oficinas de preparação técnica foram iniciadas há quatro semanas, com uma aula inaugural do "mestre inaugural" Nelson Pereira dos Santos. 603 jovens moradores de favelas se inscreveram para essas oficinas, mas só foi possível atender a pouco mais de 200. Esses escolheram as áreas de sua preferência (produção, direção, fotografia, arte, edição, interpretação, etc.) e começaram a ter aulas diárias, incluindo sábados e domingos, com professores como Ruy Guerra (outro veterano do primeiro filme), Walter Lima Jr., Dib Lutfi, Camila Amado, Guto Graça Mello, Lauro Escorel, Marcos Flaksman e muitos outros. Além das aulas regulares, os alunos têm à sua disposição uma sala de projeção e computadores para que vejam os filmes indicados pelos professores, de um imenso acervo que pusemos a seu alcance. Tudo isso foi possível montar graças ao apoio da RioFilme, parceira da Luz Mágica na produção e distribuição do filme. Toda segunda feira, todos os alunos se reúnem para uma palestra coletiva, uma troca de experiências com algum profissional importante do cinema brasileiro. Eles já ouviram Manoel Rangel (presidente da Ancine, sobre ''A gestão do cinema brasileiro''), Cesar Charlone (''A imagem cinematográfica''), Daniel Filho (''Cinema e televisão''), João Moreira Salles (''Técnica e ética do documentário''), e ouvirão a seguir Fernando Meirelles (''A ficção cinematográfica'') e Walter Salles (''Cinema contemporâneo''). A formatura dos alunos dessas oficinas será realizada no próximo dia 25 de maio e, até o dia 29 seguinte, as equipes de cada episódio serão escolhidas por seus realizadores, a partir do aproveitamento nas oficinas daqueles formandos. A filmagem de ''Cinco Vezes Favela, agora por nós mesmos'' começará nos primeiros dias de julho. A produtora do filme é a Luz Mágica, com produção de Renata Magalhães e minha coordenação geral, com co-produção da Riofilme e Globofilmes, apoio da TeleImage, Videofilmes e Quanta, e o patrocínio, através das leis de incentivo, do BNDES, Light, LAMSA (Linhas Amarelas) e MMX (Eike Batista). O filme deve estrear no fim do ano, distribuido pela Sony/Columbia.

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