''Lutar por princípios é maior que por um país''

Souad Massi, cantora

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2008 | 00h00

Como Marjane Satrapi, a cantora argelina Souad Massi pagou um preço alto pelo seu temperamento libertário. Foi perseguida por radicais em seu país e teve de mudar para Paris. Tornou-se uma das maiores estrelas da world music atual, e é destaque do festival Bridgestone, quinta. Ela falou com exclusividade ao Estado.Às vezes, dizem que você é franco-argelina. É uma definição de pátria completa para você?Eu sou uma cidadã do mundo, uma artista que viaja muito. Para mim, lutar por princípios é mais importante que lutar por um país.Você vive uma espécie de exílio na França. Qual a diferença com o público argelino?Há uma diferença entre o público europeu e aquele que compreende a língua árabe. Com esse último eu compartilho uma cultura, as referências, uma educação. Mas com o público ocidental, isso se passa ao largo da língua, é mais impressionante. É certamente a música, a emoção.Você tem formação de urbanista. Como se decidiu pela musica?Deixei o urbanismo porque não tive escolha. Senti que devia escolher a música. Não creio que a música seja influenciada por aquela formação. Mas, quando descubro um país, uma cidade, me interesso logo por sua arquitetura.Sua música é cheia de ressonância da música árabe-andaluz. Como você define essa música?Os árabes ficaram séculos na Espanha. Há uma troca musical evidente. A mestiçagem cultural é um dos raros benefícios da colonização.No ano passado, você se recusou a cantar em Tel-Aviv. Ao mesmo tempo, cantou em Ramallah, na Palestina ocupada. Por quê?Sou uma artista e tenho um público judeu que eu respeito. Espero um dia ir cantar em Tel-Aviv. Muitas pessoas, dos dois lados, estão cansados da guerra, e tenho confiança na boa vontade dos numerosos que lutam pela paz.É sempre difícil para a música de origem árabe ganhar o mundo. Há exceções, como Natasha Atlas e Khaled, mas às vezes isso traz uma banalização da música original. Como vê essa situação?O Ocidente deu a muitos grandes artistas árabes oportunidade de se tornarem célebres fora de seus países. Acho muito positivo essa vontade de diversidade.Na sua formação musical, há influência de sua família?Meu pai escutava muito El Hachemi Guerouabi. Isso me marcou muito. Todos os magrebinos amam a música.Que tipo de concerto fará?Cantarei como sempre, com meu coração, e espero que o público de São Paulo nos adote. O único monumento do Brasil que conheço bem é Gilberto Gil.

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