Lucy, num belo céu cheio de diamantes

Filme faz a crônica audiovisual da década que mudou tudo

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Na Broadway, a diretora Julie Taymor construiu sua reputação graças, principalmente, ao musical O Rei Leão, no qual sua cenografia, inspirada nas marionetes indonésias e na arte das máscaras, dava uma leveza impregnada de graça a todos os animais em cena. Em sua estréia no cinema, Frida, ela também investiu no visual, utilizando-se da cor e da cenografia para recriar na tela o universo pictórico da lendária Frida Kahlo. Em seu novo longa, o primeiro musical, a diretora cria um apaixonado universo juvenil inspirado pela música dos Beatles. Assista ao trailer do filme Across the Universe Você não precisa ter sido jovem nos anos 60 para experimentar a magia dessa história que é basicamente simples - ''''boy meets girl'''' em Across the Universe. Só que, na realidade, as coisas não são tão simples e há um desenho mais complexo nas relações entre personagens. O protagonista é esse garoto inglês - de Liverpool - que, na primeira cena, se volta para a câmera e olha no olho do espectador ao cantar Girl. Liverpool, onde surgiram os Beatles, é uma cidade operária. O garoto toma o rumo dos EUA para ''''fazer'''' a vida na América (como também fazem, em outro registro, os emigrantes de Emmanuele Crialese em Novo Mundo, leia textos nesta edição). Nos EUA, o garoto encontra o amor e também um país agitado por mudanças comportamentais e pelo impacto da Guerra do Vietnã, que está recrutando os jovens para morrer nas selvas do Sudeste Asiático.Essa é a história, mas a originalidade da proposta está em que Julie Taymor a conta costurando sua trama (e personagens) por meio da música dos Beatles. A rigor, pode-se falar em originalidade, em termos, porque Baz Luhrmann já utilizou o mesmo procedimento estético em Moulin Rouge, só que, lá, o universo musical era mais diversificado. Aqui, são os Beatles e tão-somente eles. Para que mais, se a música do quarteto resume, melhor do que qualquer outra, os revolucionários anos 60? Em comum com Moulin Rouge, existe essa vontade de recorrer ao artifício, que embala a realidade. E Julie Taymor dialoga, por exemplo, com o musical cult Hair, que também tinha a cara dos anos 60 (e depois foi vertido para a tela por Milos Forman, em 1979).Ele se chama Jude, e é interpretado por Jim Sturgess. Naturalmente que seu tema é Hei Jude. Ela é Lucy, interpretada por Evan Rachel Wood, e a diretora demora muito mais tempo para satisfazer a expectativa do espectador, que espera o tempo todo ver surgir na tela os versos de Lucy in the Sky With Diamonds. Já que a canção, como uma sigla, se tornou lendária como celebração do LSD, a viagem de Lúcia no seu céu de diamantes é um regalo audiovisual de Julie Taymor para seu público. É um belo filme. Um pouco nostálgico, talvez - como fomos jovens e apaixonados. Uma bela crônica da década que mudou tudo.ServiçoAcross the Universe (EUA/2007, 131 min.) - Romance. Direção Julie Taymor. 14 anos. Cotação: Bom

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