Lucélia e a China que se transforma

Atriz conta como foi difícil viabilizar Um Amor do Outro Lado do Mundo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2019 | 00h00

Há dez anos, a atriz, produtora e diretora Lucélia Santos possui um projeto que agora, graças à participação da Diler e Associados, empresa produtora de Diler Trindade, começa a sair do papel para tornar-se realidade. É um filme e se chama Um Amor do Outro Lado do Mundo. O título dá um pouco a idéia do sentimento da própria Lucélia pela China. Em 1985, já no período pós-Revolução Cultural do camarada Mao, a China engatinhava rumo ao capitalismo de Estado que faz hoje, do país, uma das maiores (e mais competitivas) economias do mundo. Há 22 anos, a novela Escrava Isaura, de Gilberto Braga, na qual Lucélia fazia a protagonista, era o maior sucesso da TV chinesa, sendo vista por 1 bilhão de pessoas. Lucélia, naquele ano, foi escolhida a melhor atriz de TV na China, eleita pelo voto popular - e com cerca de 300 milhões de eleitores a seu favor.Desde então, ela voltou várias vezes ao país. Numa delas, conheceu a região onde foi construída a gigantesca represa das Três Gargantas. Em nome da modernidade, não foi só uma das regiões mais belas do mundo que foi soterrada pelas águas - um pouco como ocorreu no Brasil, sob a ditadura militar, com as Sete Quedas do Rio Paraná. Toda aquela região sofreu um impacto devastador. Comunidades inteiras, cidades, famílias, todo um mundo arcaico ruiu. Sobre o assunto, o cineasta chinês Zhia Jang-ke fez o filme Em Busca da Vida (Still Life), premiado no Festival de Veneza em 2006 e sucesso de público e crítica no circuito de arte brasileiro. ''''Você viu?'''', pergunta Lucélia ao repórter. ''''Não é maravilhoso?'''' É.Lucélia tornou-se uma espécie de embaixatriz cultural do Brasil na China. Ajudou a desvendar o país, para os brasileiros, por meio de reportagens e especiais de TV. E agora Lucélia desbrava um novo território. Ela roda o primeiro filme brasileiro de ficção feito na China. No início, Um Amor do Outro Lado do Mundo seria co-produção com a China, depois com Hong Kong. Havia até um roteirista chinês, que estava formatando o projeto. Os empresários chineses, da recente missão comercial que visitou o Brasil, queixaram-se da burocracia e da anacrônica, segundo eles, legislação trabalhista que dificulta os negócios. A China tem sido denunciada sucessivas vezes por exploração de trabalho escravo - e de crianças. E, quanto à burocracia, Lucélia e o produtor Diler Trindade têm coisas interessantes a dizer.''''Em todo lugar do mundo, filmar é sempre difícil para estrangeiros, mas na China chega a ser quase impossível'''', comenta o ex-produtor de Xuxa (encerraram a parceria). E ele acrescenta - ''''A China é uma loucura. Esse capitalismo de Estado é coisa que a gente tem dificuldade para entender e assimilar.'''' Em cada cidade, cada bairro, cada rua há um chefe de seção, de cuja aprovação dependem os negócios. E a censura, então? ''''Nada se filma na China sem que tenha sido pré-aprovado pelo organismo do governo que controla a produção. Eles exercem um rígido controle sobre os roteiros. O nosso teve de sofrer alterações. Um assassinato com arma de fogo foi substituído por arma branca e existem restrições quanto à filmagem de templos, por exemplo'''', conta Diler.O roteiro que está sendo filmado não é o que Lucélia iniciou com os próprios chineses. ''''É incrível, mas o Diler teve de entrar e o projeto fazer-se brasileiro para chegar à essência do projeto que eu tinha em mente'''', diz a atriz. Diler e ela conheciam-se superficialmente, desde que ele foi captador para a versão teatral brasileira do cult The Rocky Horror Show, no qual a jovem Lucélia teve um de seus primeiros papéis, como a baleira. Quando foi bater à porta de Diler, Lucélia estava num impasse. Havia captado no Brasil, por meio das leis de incentivo, mas a contrapartida chinesa estava complicada. Os sócios chineses vacilavam ou, pelo menos, não abriam a carteira. Veio de dentro da própria Diler, da diretoria financeira da empresa, a idéia - por que não transformar o filme sino-brasileiro de Lucélia numa produção brasileira, com a participação de artistas e técnicos da China? Diler e Lucélia foram à Ancine e conseguiram autorização para mudar o projeto, desde que obtivessem a aprovação das empresas que já haviam colocado dinheiro no negócio.Conseguida a aprovação, o que era para ser, inicialmente, uma mininovela de 25 capítulos virou outra coisa - dois longas seqüenciais e uma microssérie de quatro capítulos. Como o projeto agora é brasileiro, Diler já dispõre de R$ 5 milhões para colocar Um Amor do Outro Lado do Mundo na lata. O orçamento total, incluindo finalização e lançamento, ultrapassa R$ 10 milhões. Antes que o acusem de ser perdulário, Diler observa que nunca gastou tanto com passagens aéreas, por exemplo. Filmar na China representa levar equipes, mesmo reduzidas, para um país distante 33 horas de vôo. É preciso pagar passagens, estadia, equipamentos. Tudo muito caro. Nesse processo, até para atender às necessidades da legislação a Diler teve de se associar a um a parceira chinesa e está trabalhando com a Beijing Rosat Films. Moacyr Góes foi chamado para a direção e já filmou na China, levando uma equipe que inclui o fotógrafo Jacques Cheuiche, o diretor de arte Paulo Flaksman e a figurinista Luciana Maia. Por que um diretor de arte e uma figurinista brasileiros para um filme do outro lado do mundo? ''''Porque a China é só uma parte do nosso filme e eu precisava de unidade para o projeto'''', explica o diretor.Embora se considere homem de teatro, Moacyr Góes virou, nos últimos anos, um dos mais prolíficos diretores brasileiros. Em três ou quatro anos, já está no oitavo filme. Para um diretor que começou experimental, no palco, a passagem para um esquema ''''industrial'''' de cinema, precedida de uma experiência na TV, quando dirigiu novelas na Globo, causou espanto a muita gente. Só ele sabe quantos sapos já engoliu. ''''Meu teatro era rigorosamente autoral'''', explica. ''''No cinema, o filme é do produtor. Tenho sido diretor assalariado. Preciso trabalhar para viver. Nada do que fiz em filmes é pessoal. Foram todos projetos de encomenda. Tenho um projeto meu, mas para desenvolvê-lo, terei de virar produtor. E não tenho condições, nem paciência, de dedicar anos de vida, à captação de um projeto, como faz a maioria dos diretores brasileiros.''''Moacyr filmou em várias cidades chinesas: Shangai, Shixuan, Beijing e Meishan. A equipe já esteve duas vezes na China, filmando. Ainda este mês, transfere-se para um monastério budista em Canela, no RS, para a etapa final da filmagem. O budismo é essencial em Um Amor. A história do garoto que procura suas origens do outro lado do mundo, em busca de um avô mítico que não conheceu - a avó é brasileira, Lucélia -, coloca em discussão, segundo Góes, essa questão transcendente que se liga ao futuro: simplesmente não temos controle sobre ele. Destino, acaso, dêem-lhe o nome que quiserem, mas as circunstâncias nos escapam. O que tornou essa história sobre a impossibilidade de planejar o futuro, já que o acaso, ou o destino, nele intervém com tanta força, tão importante para Lucélia? ''''Há 22 anos, ao ir para a China pela primeira vez, eu já estava indo ao encontro desse filme'''', diz.Em 1992, ela se converteu ao budismo e na mesma vertente tibetana praticada por Richard Gere, a do Dalai-Lama. Um Amor está impregnado de filosofia budista. As mudanças ocorridas no projeto na verdade foram correções de rota. ''''Ele agora está mais perto do que eu queria, desde o início. E não teria ido adiante se qualquer mudança comprometesse a essência do filme.'''' Lucélia observa que, por causa da disputa entre a China e o Tibete, o budismo tibetano sofre restrições no país. Mas, na nova China capitalista, outras vertentes do budismo são cada vez mais difundidas. ''''Você sabia que o budismo está prestes a ser integrado à Universidade de Beijing, como tema de estudos?'''', ela pergunta. Até nisso a China mudou. Não é só de amor que Lucélia e Moacyr Góes querem falar. Um Amor também pretende dar conta das transformações ocorridas na China, desde que Lucélia Santos lá pisou, pela primeira vez.

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