''Lucas sempre me cobrou a quarta aventura de Indy''

Spielberg conta, em Cannes, por que demorou quase 20 anos para voltar ao herói com O Reino da Caveira de Cristal

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

19 de maio de 2008 | 00h00

É a pergunta que todo fã de Indiana Jones se faz e ela, com certeza, foi formulada ao diretor que veio apresentar no 61º festival o quarto filme da série - por que demorou tanto para atender à demanda dos tietes do dublê de arqueólogo e aventureiro, que, desde A Última Cruzada, clamavam por ver Harrison Ford empunhar de novo o chicote. Antes de saber a resposta, é bom acabar logo com o suspense e antecipar o que o público pode esperar de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que estréia na quinta nos cinemas brasileiros. O filme não é tão bom quanto Indiana Jones e o Templo da Perdição - o segundo da série continua sendo o melhor, mas só mesmo de muito mau humor alguém deixará de se divertir com A Caveira de Cristal.O filme começa meio hesitante, mas este pode ter sido um partido de Spielberg e do produtor George Lucas para assinalar a passagem dos anos. É como se Indy, como o próprio Ford, estivesse meio enferrujado. O desfecho também pode ser meio anticlimático, porque há toda uma corrida ao ouro para concluir que o maior tesouro que o homem pode adquirir, ou manter, é o conhecimento. Mas o miolo é muito bom e, quando a ação engrena, você pode relaxar e esbaldar o Id no escurinho do cinema.De volta à pergunta, Spielberg disse que Lucas nunca deixou de lhe cobrar a quarta aventura de Indiana Jones. No intervalo, ele andou fazendo outros filmes e, nos últimos anos, mergulhou no que definiu como ''fase sombria'', marcada pela admirável trilogia que marcou sua plena maturidade como autor, além de fornecer, sem referência aparente, o painel mais crítico sobre os EUA da era Bush - O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique. Nos últimos tempos, cobrado pelo público, Spielberg sentiu que devia a si mesmo um pouco de movimento. Lucas tinha sempre no bolso a história da caveira de cristal. Diversos diretores foram chamados a palpitar, entre eles M. Night Shyamalan. Quando encontrou o roteiro certo, Spielberg convenceu-se de que valeria a pena retomar o herói que não dispensa o chapéu e cuja arma é o chicote (além do cérebro, afinal, é um professor).Ainda era preciso convencer Ford, mas isso até que não foi tão difícil. ''Steven é muito importante na minha vida, como amigo e como diretor. O que eu posso dizer é que nestes 20 anos ele ficou ainda melhor.'' Ford é aquilo que se chama de ''celebridade'', mas ele se recusa a jogar o jogo - ''Sempre me considerei ator, não um astro.'' Da mesma forma, quando se pergunta por que ele continua insistindo em fazer os stunts, dispensando os dublês, sua resposta vem direta - ''Não creio que sejam stunts. Para mim, as ações físicas fazem parte da interpretação do personagem.'' A trama passa-se agora nos anos 50, em plena Guerra Fria, com direito a vilões soviéticos - uma vilã, interpretada por Cate Blanchett - e até uma explosão atômica, já que o mundo, na época, vivia à sombra do medo do terrível cogumelo.Como foi possível manter a filmagem tão secreta, já que houve até o roubo de um computador que guardava informações preciosas sobre o roteiro, no escritório de Spielberg? ''Esse roteiro permaneceu durante todo o tempo uma exclusividade minha, de George (Lucas) e de pouquíssima gente mais. Nunca o distribuímos para o elenco nem para os técnicos.'' Ford era a exceção - ele contribuiu com muitas idéias para a criação do personagem. Talvez, para manter o elemento surpresa, o leitor tenha de parar aqui e retomar a leitura somente depois de assistir a O Reino da Caveira de Cristal, a partir de quinta-feira. Como A Última Cruzada, o filme permite um acerto de contas entre pai e filho. Como Sean Connery não aceitou um papel, a solução foi matá-lo. A relação pai e filho fica transferida, portanto, para Ford e... Shia Labeouf. A caveira de cristal descoberta no Peru leva a aventura à Amazônia e faz uma salada faz uma salada entre incas e maias, o que, no limite (a partir das linhas de Nazca) permite ao diretor voltar a Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. - O Extraterrestre. A preocupação, tanto de Lucas quanto de Spielberg, foi fazer um filme de aventuras à moda antiga.O diretor, solicitado a comentar o que há de bom e ruim no cinema de ação dos últimos tempos, revelou que adora a série Bourne e gostou de Cassino Royale, em sua opinião o melhor James Bond desde Moscou Contra 007. ''As novas aventuras são muito aceleradas e não deixam a história acontecer'', disse ele. ''Passa-se muito rapidamente de uma ação a outra.'' O Reino da Caveira de Cristal volta aos stunts como substitutos dos efeitos digitalizados, e a ação é menos acelerada (e isso é uma coisa que o público talvez lamente). A coletiva terminou sob o signo da apoteose. Spielberg é ídolo de toda uma garotada que aprendeu a ver o mundo através de seus filmes. Na saída da sala de imprensa, simpaticamente, ele foi ao encontro dos jornalistas que haviam ficado de fora. Como um político em campanha, apertou as mãos de uns, conversou rapidamente com outros. Pelo menos uma mulher, com o filho de 7 ou 8 anos, chorava. Shia Labeouf disse que adorou entrar para o time, fazendo um típico rebelde com causa - um selvagem da motocicleta - dos anos 50. Sua cena mais difícil foi o duelo de sabres na corrida entre os dois jipes, que demorou semanas para ser filmado, mas isso você só vai desfrutar vendo o filme.

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