Loyola e o seu troféu inesperado

Entenda aqui como se deu o processo de votação do ?livro do ano de ficção?

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

03 de novembro de 2008 | 00h00

A escolha de Ignácio de Loyola Brandão como autor do livro do ano de ficção do Prêmio Jabuti, sexta-feira, na Sala São Paulo, não levantou dúvidas em relação à qualidade da obra vencedora, o infantil O Menino Que Vendia Palavras (Objetiva), mas revelou uma divisão entre o júri que escolhe os melhores em cada categoria e o imenso grupo eleitoral que vota nos livros do ano de ficção e de não ficção - este ano, vencido por Laurentino Gomes e seu 1808 (Planeta).Cronista do Estado, Loyola já se dava por satisfeito com o segundo lugar entre os infantis conquistado por sua obra, atrás apenas de Sei por Ouvir Dizer (Edelbra), de Bartolomeu Campos de Queiroz. Tanto que ele conversava com o poeta Ivan Junqueira quando o vencedor do livro do ano de ficção seria anunciado. No palco, ainda atordoado ao receber a estatueta e um cheque no valor de R$ 30 mil, ele confessou sua certeza na vitória de Cristóvão Tezza, ganhador do Jabuti de romance por O Filho Eterno (Record) e aposta certa da maioria dos presentes à cerimônia de entrega.A surpresa veio por conta do sistema de votação. Enquanto as 20 categorias do Jabuti são definidas por um júri formado por 20 comissões de três pessoas cada, o livro do ano de ficção e o de não ficção são escolhidos por um universo eleitoral mais amplo, que inclui ainda editores e livreiros. Também não participam apenas os três vencedores de cada categoria mas todos as 2.131 obras inscritas, neste ano, para o Jabuti.Assim, o livro do ano pode ser um que não tenha ficado entre os três primeiros colocados em sua categoria, como aconteceu em 2000, quando À Sombra do Cipreste (Palavra Mágica), do então desconhecido Menalton Braff, foi a surpresa do ano. Ou ainda a escolha recair sobre uma obra que não liderou sua categoria, como aconteceu com Loyola. "O que me deixou mais tranqüilo foi saber, pelo José Luiz Goldfarb (curador do prêmio), que meu livro teve uma votação expressiva, muito além do segundo colocado", comentou o escritor."Ao menos, não se repetiu aquele silêncio constrangedor de 2004", lembrou Luciana Villas-Boas, da editora Record. Naquele ano, Chico Buarque terminou na terceira posição com Budapeste (Companhia das Letras) entre os romances, mas, quando seu nome foi anunciado como autor do livro do ano de ficção, a platéia presente ao Memorial da América Latina ficou calada alguns segundos até começar a aplaudir.Naquela ocasião (como em outras), ficou evidente que a escolha foi motivada não apenas pela qualidade editorial mas também por seu poder de fogo nas vendas. 1808, de Laurentino Gomes, segue nessa linha, mas com uma importante diferença: a excelência da obra se sobressai. O livro já vendeu mais de 400 mil exemplares em sua versão oficial (e outros 50 mil na versão infanto-juvenil) e colocou seu autor em uma interminável rota de palestras pelo País."O que mais me deixa satisfeito é ouvir comentários de que finalmente foi possível entender aquele momento histórico do Brasil", conta Gomes, autor de um texto compreensível e envolvente. Em seus encontros, ele percebe ainda a necessidade por informação. "Todos sabem que precisam conhecer o passado para entender o presente e planejar o futuro."

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