Lloyd Wright foi o inventor de uma nova natureza

Guggenheim de NY celebra 50 anos com mostra de 64 projetos do artista

Tonica Chagas, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

Inaugurado em 21 de outubro de 1959 e hoje a obra mais conhecida do arquiteto americano Frank Lloyd Wright (1867 -1959), o Guggenheim Museum, em Nova York, marca seu 50º aniversário com a exposição Frank Lloyd Wright: From Within Outward. Com desenhos, fotografias, maquetes e animações computadorizadas, a exposição é uma seleção de 64 dos mais de mil projetos que Wright produziu em 72 anos de carreira, e traz no título um dos principais pensamentos dele, o da importância do espaço interior na forma da estrutura exterior. Ele achava que a solução para todo problema arquitetônico podia ser desenvolvida "de dentro para fora" e um dos melhores exemplos desse conceito, da redefinição de espaço e noções convencionais de arquitetura que ele deixou é o próprio Guggenheim Museum. Com o Guggenheim, ele reinventou o museu de arte. Em 1943, convidado a desenhar uma sede para o Museum of Non-Objective Painting criado por Solomon R. Guggenheim, Wright deixou de lado as galerias em forma de caixa para estimular um uso fluido de espaço com ênfase vertical em vez de horizontal. Dominado por rampas espirais ascendentes a partir de uma rotunda, o museu ganhou vários apelidos durante sua construção, como "máquina de lavar" e "bolinho invertido". O projeto e a construção consumiram 16 anos e nem Wright ou Guggenheim viveram para ver o prédio pronto. Guggenheim morreu em 1949 e Wright em 1959, seis meses antes da inauguração do prédio. Em 1990, o "bolinho invertido" foi reconhecido como marco da cidade de Nova York pela City Landmark Preservation Commission e, em 2005, passou a integrar a lista de lugares e construções preservados como patrimônio histórico dos Estados Unidos.Entre os projetos reunidos em Frank Lloyd Wright: From Within Outward encontra-se um dos ancestrais da forma espiralada do museu. Entre 1924 e 1925, o arquiteto projetou um planetário para o alto de uma colina perto de Baltimore. O complexo foi concebido especificamente para ser visitado em carros, que subiriam para o topo do edifício por rampas espirais. A espiral também incorporava uma rampa para pedestres a fim de que os turistas pudessem descer a pé vendo a paisagem em todas as direções e outra que levaria os carros para um estacionamento aberto na parte de baixo. Dentro dela, um domo serviria de tela de projeção para o planetário. Embora o projeto tenha ficado apenas no papel, a espiral tornou-se parte do vocabulário arquitetônico de Wright e nos anos seguintes ele desenvolveria vários projetos com tema parecido.PLANOS ABERTOSNascido na região rural do Wisconsin dois anos depois do fim da Guerra Civil Americana, Wright testemunhou desde o início as mudanças tecnológicas da Revolução Industrial e as usou assim que começou a trabalhar. Aproveitando o que as máquinas possibilitavam, ele abriu novas direções para a arquitetura atender às evoluções sociais que surgiram na passagem do século 19 para o 20. Ele confiava na sua genialidade e queria criar uma arquitetura verdadeiramente americana. No fim da vida, comentou: "Se eu tivesse mais 15 anos, poderia reconstruir este país. Eu poderia mudar a nação."Tratando em primeiro lugar dos requisitos funcionais de uma construção, Wright usava paredes e tetos para definir e diferenciar espaços, fazendo da forma externa uma expressão do interior, seja em residências, edifícios de escritórios, templos religiosos ou centros culturais. Desde o início da sua prática como arquiteto independente, ele trabalhou para readaptar o espaço a fim de que este refletisse a nova vida americana.Percebendo como as mulheres ficavam menos tempo dentro de casa, que os novos eletrodomésticos diminuíam a necessidade de empregados e os estilos de vida estavam menos formais, Wright viu que essas mudanças também tornavam cada vez menos necessária a separação de cômodos específicos para recepção, convivência, refeições e biblioteca, típicos das casas vitorianas. Nos seus projetos de residências - inclusive de casas populares pré-fabricadas -, ele tirou as repartições para permitir que os espaços onde a família e amigos se reunissem fossem planos abertos e fluíssem uns para os outros. Na relação entre a construção e o terreno, ele baixou tetos, eliminou porões e sótãos e assentou a construção ao longo de linhas horizontais. O último projeto no qual ele trabalhou, três semanas antes de morrer, foi para uma casa assim, que deveria ser construída em Paradise Valley, no Arizona.Alguns dos primeiros projetos dele foram para a região de Spring Green, no estado de Wisconsin, onde sua família era dona de uma grande área rural. Em 1911, o arquiteto mudou-se de vez de Chicago para lá e começou a construir Taliesin, seu estúdio e residência, no mesmo vale onde, em 1887, ele fez o projeto para uma escola criada por duas de suas tias. Nos 50 anos que se seguiram, ele reconstruiu Taliesin duas vezes, depois de ela ter sido destruída por incêndios - um deles provocado por um empregado, depois que ele matou Mamah Cheney, amante de Wright, os dois filhos dela e mais quatro pessoas.Taliesin (que em galês, a língua dos avós maternos de Wright, significa algo como o topo esplendoroso de uma colina) demonstra como ele enfatizava a harmonia entre a construção e a natureza. Fiel a suas origens rurais, ele desenvolveu fazendas e pomares em torno da casa. Na primeira rampa do museu, abrindo a exposição, vê-se uma cortina que ele criou para seu estúdio. O desenho é uma abstração da paisagem pastoral do Wisconsin, reinterpretando as colinas e pastos verdes, os celeiros vermelhos, bandos de passarinhos e os campos sulcados da paisagem que circundava a propriedade.Em 1937, para escapar do inverno rigoroso do Wisconsin, Wright, a família dele e seus aprendizes rumaram para o Oeste americano para construir uma residência de inverno localizada a cerca de 40 quilômetros de Fênix, no Arizona. Ali também Wright fez da conexão com a natureza o aspecto mais importante. Seus aprendizes mais antigos ocupavam apartamentos numa quadra atrás da casa do professor e os estudantes que estavam começando a trabalhar com ele viviam em abrigos de deserto que projetavam como parte do treinamento. Uma exposição paralela, Learning By Doing, no térreo do museu, documenta aquele programa.CIDADESWright nunca gostou de cidades grandes, que achava congestionadas e inóspitas. Acreditava que, graças a equipamentos de comunicação como rádio, telefone e telégrafo, e a mobilidade cada vez maior permitida pelo automóvel, a cidade como ele conhecia logo deixaria de existir. Por isso propôs a dispersão da comunidade urbana pelo interior em seus esquemas para a Broadacre City, de 1934, e da Living City, de 1958.Frank Lloyd Wright: From Within Outward fica no Guggenheim de Nova York até 23 de agosto. Depois a exposição segue para o Guggenheim de Bilbao, na Espanha, onde poderá ser vista a partir de 6 de outubro e até fevereiro do ano que vem.

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