Livros tornam a vida memorável

Famoso em seu país, o italiano Alessandro Baricco acredita que a arte da escrita é o gesto mais libertário do homem

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

Alessandro Baricco é um autor de histórias distintas. Em Mundos de Vidro, seu romance de estréia (1991), um músico adorável procura o respaldo da ciência para suas experiências malucas sobre a propagação do som através de tubos metálicos. Já Novecentos acompanha a trajetória de um menino abandonado em um transatlântico que nunca pisará a terra, crescendo para se tornar o mais virtuoso pianista jamais imaginado - a narrativa se transformou um um monólogo de sucesso no teatro. Seda talvez seja um de seus livros mais famosos e narra a trajetória de Hervé Joncour, comerciante francês que, em meados do século 19, trabalha com o incipiente negócio da seda. ''''Não sei de onde vem minha inspiração - gosto de ler muito e também de viajar, não sou aquele escritor que vive preso em seu escritório'''', comentou o escritor. Baricco falou com o Estado por telefone, de Roma, na Itália, onde vive e desfruta uma fama confortável - seus livros sempre chegam em numerosas tiragens, ele circula pela cidade em carros último tipo e normalmente é paparicado pelos fãs. No Brasil, Baricco começa a formar uma legião de leitores e para eles a Companhia das Letras lançou dois livros: o próprio Seda (128 páginas, R$ 31) e Esta História (296 páginas, R$ 45), sobre um italiano que constrói, na Inglaterra, uma pista de corrida que traduz em curvas toda a sua vida. Além de escrever obras de sucesso, ele faz barulho como agitador cultural: é ator, dono de livraria e promove cursos de incentivo à leitura em sua terra, Turim. Prestes a completar 50 anos em janeiro, é também dublê de crítico musical, o que explica, muitas vezes, a escolha de instrumentistas como personagens, além da cadência da narrativa, que segue ao sabor de uma partitura. Seda, por exemplo, é um relato de sensações, de como a realidade objetiva se transmuda na visão, na memória e na linguagem de um indivíduo. Já Esta História é marcado por diferentes narradores, conduzindo a prosa a uma velocidade até alçar vôo. Por sua forma original de narrar, Baricco conquista especialmente leitores mais jovens, o que lhe garantiu a faixa de ''''escritor pós-moderno''''. Sobre essa variedade de estilos e temas, ele concedeu a seguinte entrevista: Sua escrita é construída a partir de dúvidas, pausas e contrastes. É um trabalho difícil? Bom, escrever sempre foi um trabalho difícil. É cansativo, mas é o que gosto de fazer. Dentro de meus livros, há uma variedade de estilos que servem ao ritmo, daí a importância da palavra certa colocada no lugar exato. Vendo por essa perspectiva, sim, considero um trabalho complicado. Por que, em uma determinada entrevista, você disse que o sucesso de Seda foi um milagre? Porque, quando escrevi esse livro, eu tinha a convicção de estar contando uma história apenas para mim e jamais acreditaria que se transformaria em uma obra popular. Mas, você sabe, os escritores normalmente são as piores pessoas para avaliar o sucesso de seus livros - ao menos, do ponto de vista comercial. Mas você escreve para que tipo de leitor? Ah, a nenhum, mas a mim mesmo. Eu me coloco na posição do leitor, daí minha exigência. Assim, no início da escrita, existe aquela desconfiança de não haver uma adesão completa - para mim, as 30 primeiras páginas são muito difíceis - até que acontece o milagre e o leitor, já conectado, deixa aquela posição inicial confortável e também passa a ''''trabalhar'''', respondendo às exigências do texto. Você é, então, é um escritor maníaco pela precisão? Eu não diria isso. Quando era mais jovem, eu me interessava pelos detalhes, pois acreditava ser importante a força, a energia, a generosidade da escrita. Hoje, gosto ainda dessa precisão, mas sem o afã de antes. Talvez seja algo mais estudado, menos pesquisado. Seda chegou ao cinema pelo diretor canadense François Girard. O que pensa do filme? Acho um bom filme, pois é mais europeu que americano - em geral, isso representa qualidade. Girard foi fiel o máximo que podia ao texto, mas aquela é a sua história. As entonações e as motivações sentimentais são distintas das que estão na minha prosa, mas não considero isso ruim. O que mais me agradou foi o fato de Girard apropriar-se dos principais elementos da trama e contar a sua história. Assim é que deve ser, acredito. Como acontece em outros países, seus romances são publicados no Brasil fora da ordem cronológica - enquanto Seda é de 1996, Esta História é de 2005. Você acha que isso pode prejudicar o entendimento da coerência da sua obra? Não acredito. Eu mesmo leio aleatoriamente obras de um mesmo autor, sem seguir as datas em que foram publicadas. Embora relacionadas nem que seja por um fio, as obras de um escritor têm sua autonomia própria. Até onde vai o limite da escrita? Bem, decerto há algum, embora escrever talvez seja o gesto mais libertário que o homem pode fazer. É difícil dimensionar, pois escrever é um gesto de liberdade e aí depende da expectativa e necessidade de cada um. Mas, na verdade, para um autor, é preciso escrever uma história com fim. Para o leitor, no entanto, a história pode se estender pela eternidade. Onde você encontra inspiração para suas histórias? Não sei (rindo). Minha cabeça é, digamos, bem independente. O que ajuda é o fato de eu ler muito, de estar sempre com olhos e ouvidos abertos para o que me rodeia. Não sou daqueles escritores que se trancam em um escritório. Escrever não é apenas uma atividade intelectual, é algo que resulta dos desejos dos nossos fantasmas pessoais. Sempre busco inspiração no mundo exterior. O que acontece é que, ao descobrir algo que me interessa, isso é processado pela minha imaginação até resultar em algo completamente diferente do original. Daí o fato de se encontrar poucos dados reais em meus livros. Dessa forma, é torturante enfrentar a página em branco quando está para iniciar um novo livro? Não, de forma nenhuma. Sempre termino minhas histórias de forma suave e o processo se repete na obra seguinte. Gosto de trabalhar sobre imagens, daí a visão ser o sentido que mais me auxilia no início da escrita. Começo a criar a história a partir de pequenos detalhes que me dizem algo, até que aquilo se transforme em um gesto, em uma frase ou em um objeto. A partir daí, o livro toma forma. Quando escreve, você se vê como um escultor ou como um enciclopedista? Hum, boa pergunta... Acho que mais como um enciclopedista, mas não estou certo em que nível. Talvez sejam duas metades que, juntas, criam uma unidade. É possível detectar a presença das pesquisas em minha escrita, seja qual for o livro. Na verdade, minha intenção com tais pesquisas é descobrir fatos do conhecimento e torná-los acessíveis. Mas, como escritor, acabo criando e, algumas vezes, distorcendo-os. Uma de suas frases que se tornaram conhecidas, publicada em Novecentos, é a seguinte: ''''Quando você não sabe exatamente o que é, isto é jazz.'''' Você ainda pensa assim? Sim (rindo), essa é uma das frases de que mais gosto. Na verdade, era uma brincadeira, mas com um fundo de verdade. É como uma forma livre de designar as coisas que não são bem definidas. Na verdade, é como esse estilo musical tão especial e característico que chamamos simplesmente de jazz. Para mim, jazz é a palavra que pode ser usada para identificar algo que esteja entre duas coisas, algo sem uma estrutura estável, algo diretamente conectado à improvisação e à liberdade.

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